ANGUS 2 AS CRUZADAS Orlando Paes Filho
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ANGUS 2 AS CRUZADAS Orlando Paes Filho
2005 Planeta Sabendo que nada sou, dedico essa obra a Deus Pai pela inspiração e força que me permitiram concretizá-Ia e a minha esposa, Nádia, que esteve comigo em todos os momentos. Dedico esta obra também ao Santo Padre João Paulo II, O Grande, que se encontra finalmente na casa do Pai, sua digna morada, de onde poderá interceder ainda mais por nós, humanidade à deriva. Ao novo Papa Bento XVI, cuja missão é acolher o gênero humano e evitar nossa ruína espiritual e existencial. Uma última dedicatória a todo povo muçulmano, pelo exemplo de devoção religiosa e de amor a Deus. Possam os cristãos de boa vontade ser inspirados pela sua conduta de fé e de zelo religioso.
SUMÁRIO Prólogo Capítulo I – Angus MacLachlan – O Primeiro Capítulo II – Ian Mackollum Capítulo III – Por Águas Tranqüilas Capítulo IV – Nos Portos de Bordeaux Capítulo V – Cães Normandos Capítulo VI – Cavalo a ser Domado Capítulo VII – Kypros Capítulo VIII – Bruma Pálida Capítulo IX – Às Portas de Antioquia Capítulo X – Olhos de Lúcifer Capítulo XI – Deixando os Ventos Gelados Capítulo XII – Por Mac Aedan
Capítulo XIII – Cruzes Vermelhas Capítulo XIV – Virgens Intocáveis Capítulo XV – Santos Guerreiros no Céu Capítulo XVI – O Vôo do Falcão Capítulo XVII – Duas Espadas Capítulo XVIII – Príncipe dos Fiéis Capítulo XIX – O Sopro de Alá Capítulo XX – Estandartes na Areia Capítulo XXI – Al Mansur Capítulo XXII – A Fortaleza Masyaf Capítulo XXIII – O Príncipe de Antioquia Capítulo XXIV – O Atabeque de Mossul Capítulo XXV – Seljúcidas do Rum Capítulo XXVI – Mãe de Deus Capítulo XXVII – Nascido na Púrpura Capítulo XXVIII – A Espada e a Flor Capítulo XXIX – A Dama das Pernas de Ouro Capítulo XXX – Contra-Ataque no Anatolikon Capítulo XXXI – Hagia Sophia Epílogo
PRÓLOGO Era o ano de Nosso Senhor de 1096... Cavaleiros de França, Aquitânia, Lorena, de todo o Império Germânico, tomavam as armas em promessa de partir para a cruzada. Outros reinos do Ocidente como Itália, Castela e Aragão também se movimentavam no mesmo sentido. A pregação da batalha para defesa da cruz não ficou estéril nas várias regiões da Escócia e em toda a Inglaterra. Os habitantes das Highlands e das margens do Lochness, os povos da Strathclyde e Tayside, de Orkney e Grampian, preparavam-se para a Guerra Santa e deviam
acompanhar Diarmait Uip Ru, o conde de Stirling, tio materno de Malcolm III, e os chefes dos clãs das Highlands. Os dalriatianos também tinham acorrido em massa para junto dos estandartes da cruz e seguiam seu conde, Ceann Mor, que já numa primeira peregrinação a Jerusalém tinha feito admirar sua bravura contra os infiéis. Até do vilarejo gelado das montanhas Cairngorns homens desciam contritos, na esperança de embarcar para a Palestina e defender a fé. A cruzada foi pregada com o mesmo êxito na Inglaterra. A batalha de Hastings deixara novo rei; o normando da Bretanha Armoricana Guilherme, o Conquistador. Diante da obediência forçada, da rigidez do rei Guilherme, os saxões preferiam tomar a cruz. Milícias fyrd de cruzados ingleses embarcaram nos portos da Mancha e dirigiram-se rumo às costas da Espanha. Williperto, bispo auxiliar de Guilherme, notava que esses guerreiros partiram com espírito de humildade; por isso, predisse, produziriam maiores e mais nobres feitos do que os que acompanhavam os reis e os príncipes do Ocidente cristão. Mas isso era um tom mais saxão do que cristão. Ano de Nosso Senhor de 1095... Em algum lugar da floresta dos Dalriatianos... Um velho em farrapos deixou seu ermitério e partiu em direção às Highlands, à procura do clã MacLachlan. O líder do clã, Sean MacLachlan, eu e meus irmãos, descendentes de Angus MacLachlan I, não esperávamos por aquela visita enigmática. Andava displicentemente com meu irmão Sean pelo campo de centeio quando vi um vulto que se aproximava de forma soturna. Desviei para outro lado tentando saborear o vento. A figura tomou rumo novamente em nossa direção. Incomodou-se o espectro a perseguir-nos a passos arrastados. A figura quebradiça parecia arauto de todo mau agouro. Ele se aproximou mais. Fiquei alerta. - Meu nome é Ian MacKollum! - disse o velho esquelético envolto em
farrapos. - Trago comigo os manuscritos do Livro de Crônicas de Angus MacLachlan I, o fundador de seu clã. Sean procurou o cabo de sua espada, embora o velho nos assustasse não como guerreiro. Entreolhamo-nos, pois os olhos do velho pareciam faiscar contra os nossos. - O que quer, velho? - perguntou Sean, de forma severa, como que desconvidando qualquer aproximação. - MacLachlans! - desdenhou o velho sem deter seus passos. Sempre guerreiros ignorantes. - O que quer, velho? - continuou Sean, demonstrando ainda mais irritação. - O que quero? - perguntou o velho de forma irônica. - Quero que vocês saibam da importância de sua história como guerreiros. Quero que saibam do valor de suas futuras batalhas. Quero que se sentem para que eu possa apresentar-lhes os manuscritos de seu antepassado Angus MacLachlan "O Primeiro"! - O velho eremita possuía firmeza incomum em sua voz. Sean me olhou. Dei de ombros, pois pareciam sinceras as palavras do ancião. - Sentem-se, MacLachlans! Afinal são suas terras! Vou ler para que tenham a compreensão do significado da espada Gaoth Cerridwen, herança de seu ancestral. E principalmente dos embates que os seus descendentes terão de enfrentar. A leitura dessas crônicas é tão importante quanto a sobrevivência dos de sua estirpe. Terão de guardá-Ias como um tesouro de seu clã, pois todos os seus descendentes estarão envolvidos nessa batalha contra um grande mal. Sean e eu ficamos surpresos e um pouco assustados com a veemência do velho e suas palavras fortes. O velho pediu que nos sentássemos na relva e ouvíssemos a leitura do documento que possuía em suas mãos. E foi o que fizemos; afinal, que mal ele nos poderia fazer?
O Eremita Ian MacKollum Ele iniciou a leitura do manuscrito:
Do Livro de Crônicas de Angus MacLachlan I, Líder e fundador do clã MacLachlan Partimos naquele dia do ano de 879 de Nosso Senhor com uma pequena tropa de homens, meus e de Alfred, pois, embora a paz já estivesse conquistada, ela ainda era frágil e recente e o melhor era nos prevenirmos. Depois de algum tempo de cavalgada, chegamos àquelas maravilhosas pedras que, para mim, ao mesmo tempo que pareciam altares naturais também podiam ser banquinhos para gigantes descansarem. Apeamos do cavalo diante de um cenário grandioso, visto que o céu, com tom laranja-avermelhado, parecia em fogo. Junto das pedras, eu e o rei vimos grande quantidade de monges tonsurados, que formavam um círculo ao redor delas. O ermitão estava lá, bem no meio do enigmático local prostrado de joelhos e com a cabeça encostada no chão. Eu e o rei nos entreolhamos curiosos e ao mesmo tempo surpresos com a presença daqueles muitos monges, que pareciam também estar numa oração silenciosa. O ermitão beijou o chão e olhou-me novamente. - Venha, Angus! E hora de receber o que é seu! Alfred acompanhou-me até junto do eremita. Os monges prosseguiam em oração contínua, obviamente em latim, língua que Alfred falava e entendia. Olhei-o, tentando ler nele alguma expressão sobre o sentido que teriam aquelas orações e sobre qual seria meu envolvimento naquilo tudo. Era um momento por demais solene e misterioso. Fui até o velho. - Fale, velho! O que quer de mim e qual é teu nome? - eu não tinha a mínima paciência para enigmas, não gostava daquele suspense todo. Para mim, a vida tinha de ser clara como a água. O próprio Nennius era um mestre e ao mesmo tempo o tipo de homem mais direto e sem rodeios que já tinha visto em minha vida. Cheguei bem mais próximo dele e pude ver que segurava uma espada, de brilho
tão forte que se confundia com suas túnicas brancas e tão longa que, mesmo ele sendo alto e segurando-a na altura do peito, sua lâmina tocava o chão. - Meu nome é Caillagh Patrick e esta espada é tua, Angus MacLachlan - disse-me, e naquele momento os monges aumentaram suas vozes orantes. Olhei aquela maravilha de espada e pude ver melhor os olhos do velho. Eram olhos bravios, com expressão dura, e me inspiravam certo receio, como se eu estivesse na presença de alguém mais importante que um rei e devesse ser ainda mais cuidadoso. - Esta espada, Angus - começou a me explicar a situação e a origem daquela maravilha -, foi forjada há mais de trezentos anos, quando esta ainda era uma ilha povoada por pagãos. E nessa mesma época veio para cá um homem santo chamado Columba. Sua missão era a de pregar o evangelho aos povos desta ilha abençoada. Ele converteu nações inteiras, reis, tinha visões de anjos, e recebeu a missão de forjar a espada sagrada e, visto que os celtas possuíam qualidades ancestrais nessa arte, procurou druidas ferreiros a fim de criar essa arma sagrada que será usada no futuro. Observei a espada. Era muito grande e tinha cabo dourado todo esculpido. - Esta é a Gaoth Cerridwen, aquela que traz a justiça, Angus. E de hoje em diante será a arma usada por ti e pelos teus descendentes. Nesse momento, todos os monges caíram de joelhos. Alfred em respeito repetiu o gesto, enquanto eu, ainda surpreso, não sabia o que fazer, se tomava a espada ou se me ajoelhava diante daquele velho. O eremita começou a rezar em latim e Alfred, vendo que eu necessitava entender do que se tratava aquela cerimônia, levantouse e veio colocar-se ao meu lado a fim de narrar-me tudo o que ouvia. Iniciou a tradução: - Esta espada que, como a coroa do imperador Carlos Magno, contém nela um dos três Santos Cravos usados na crucificação de Nosso Senhor, é entregue agora ao homem que trará o combate justo contra a maldade e a injustiça. E, com a ajuda de Deus, dos
anjos e santos, irá desmascarar todas as insídias enganosas e lutar e vencer a trama usada pela besta negra, que tentará pôr fim à humanidade, mergulhando-a nas trevas. O que vou lhes contar senhores, é extraordinário. Ouçam com muita atenção: - Certo dia me encontrava em retiro, orando em uma caverna próxima do monastério de lona, quando fui tragado pelas ondas do tempo e foi-me revelado o grande segredo da espada sagrada. Um verdadeiro turbilhão percorreu meu espírito e eu milagrosamente me encontrava por volta do ano de Nosso Senhor de 545 e em breve estaria na venerável presença de um grande campeão em Cristo, São Columba. A floresta estava emudecida... Pássaros que cantavam alegres todas as tardes, naquele momento completamente mágico, estavam quietos como folhas sem vento. E era o vento o único a tocar sua música naquela tarde, suas notas cantavam e dançavam suaves por entre os carvalhos ancestrais, os velhos senhores da floresta que a todos abrigava, os pilares da terra, altares-mores dos druidas. Senti o cheiro suave das ervas convidando-me a sentar junto a uma campina para observar o que aconteceria ali, naquele palco a um só tempo místico e natural. À minha esquerda eu via, sentado onde eu misteriosamente fora levado, a fronteira entre o desfiladeiro de pedra que atingia o mar como um marco, uma barreira natural, uma fortaleza montada para futuros governantes, soberanos que ali ergueriam resplandecentes reinos e que desejariam sorte aos navegantes e zombariam de seus oponentes, tal a magnitude daquela inexpugnável encosta, e, à minha direita, a barreira da temível floresta dos carvalhos gigantes. Lá eu deveria aguardar por um dia e rezar pelo que já havia acontecido no passado no exato local onde me encontrava e seu resultado incerto no futuro, sempre à mercê da boa vontade de homens nem sempre virtuosos. Vi a Lua ganhar peso e brilho e subir ao céu como a jóia de prata que faz debutar a terra vestida de noite e, depois do ápice de seu movimento resplandecente, descer num
suicídio inexorável, rumo às águas escuras do mar bravio que desafiavam eternamente a poderosa encosta. Aquele sacrifício da Lua não foi em vão, pois acendeu todo o céu dando nova vida às estrelas, e tudo se passava calma e tranqüilamente durante aquela noite luminosa... Olhei para o céu, abaixei minha cabeça imersa em mistério, e orei durante toda a noite. Naquela clareira, os primeiros raios de sol acariciaram o tapete de relva verde e macia em que eu me sentava, onde se revelaria o grande mistério que fui convidado por Deus a presenciar e pude ver toda a borda enfeitada de botões-de-ouro e tormentilhas que formavam uma coroa dourada. Os trovões provocados pelo mar quebrando contra a encosta diminuíram seu ritmo e se tornavam cada vez mais esparsos. O mar escuro também parecia se acalmar em respeito àquele dia especial. Pude ouvir um regato que marulhava manso, serpenteando através da mata, cantando sua música feita de pedras e cristais. O cheiro dos carvalhos gigantes, dos teixos rosas, dos azevinhos, dos pinheiros, das castanheiras, das folhas amareladas dos freixos, das acobreadas das tílias, das avermelhadas das sorveiras, dos cedros, das faias, das bétulas e dos antigos salgueiros convidavam ao novo, ao dia de amanhã que viria, e que chegaria em paz, prenunciando a nova era. E era justamente aquele poderoso conjunto de árvores que convidava aqueles anciãos vindos dos quatro cantos da Bretanha e de Erin. Aquele conjunto de árvores era a porta do paraíso, em que os magos dos tempos ancestrais revelariam suas habilidades lendárias.
Angus Maclachlan recebe Gaoth Cerriwen
Os animais foram os primeiros a se aproximar do grande portal. O pequeno javali correu floresta adentro seguido pelo cervo vermelho que Mider acabara de soltar da corda. Ele se aproximou e passou por mim montado em seu formoso cavalo branco bem de perto e pude perceber que eu não podia ser visto, pois pertencia a outro tempo e estava lá não para interferir, mas tão-somente para observar. Mider era um ancião de barbas longas e brancas vindo de Strathclyde, um típico eremita eu diria, a não ser pelas vestes não tão surradas e sim brancas e bem conservadas; além do seu grosso colar de ouro envolvendo seu pescoço como uma corda grossa e retorcida, terminando em duas bolas que pareciam dois punhos de criança fechados em seu pescoço; uma peça-magnífica. Mider mergulhou no interior da floresta. Outro membro se aproximava, só que este montava um pônei negro. Também usava barba e tonsura, tinha a idade aproximada de Mider e vinha da DaI Riata. Era Creidhne Transforma Elementos, outro poderoso e conceituado mago das armas, o maior mestre da imensa Ilha de Erin. Ele trazia sua sacola de couro com as ferramentas secretas com as quais forjava armas de reis há gerações. Sua veste era mais simples que a de Mider e era mais magro e alto, mas não menos austero, pude perceber. Demorou um tempo, o vento sussurrou em meus ouvidos que eu me mantivesse calmo e tivesse paciência. O terceiro druida se aproximou, já saudando os colegas aos gritos. Era Lir, das Sábias Palavras, temido druida da Dumnonia. Este, mais alegre que os demais, revelou o antigo coleguismo que havia entre eles. A voz de Mider, vinda de dentro da floresta logo o advertiu a fim de não espantar os animais. O quarto chegou logo depois, seguido do quinto membro. Os dois a cavalo, vestindo túnicas brancas: Finn, do Fogo Sagrado, vindo do UÍ Echan, e Fergus de Dinas Emrys, vindo de Gwynedd, sendo que o último trouxera sua cobra de estimação. Conan Eocaid da Pictávia, o sexto elemento, foi o último dos druidas
a chegar no local sagrado, e era quem havia convocado aquela assembléia, espalhando a notícia para seus irmãos. Conan era o que se poderia chamar de druida convertido, mas na verdade antes de sua conversão ele realmente era um vate, um mestre adivinho, conselheiro de reis pictos que queriam ler seu futuro e suas conquistas. Os cinco mestres druidas mais importantes atenderam ao seu chamado. Sabiam que atravessavam uma época crítica, e o fato de Conan Eocaid, do conselho dos reis, ter convocado aquele encontro era prenúncio de novos tempos. Esperavam o sétimo membro, que, à exceção de Conan, todos desconheciam. Conan avisou-os que se preparassem para uma reunião diferente das que eles já tinham presenciado. Olhares ao mesmo tempo tenazes e curiosos se apresentaram nas faces enrugadas daqueles magos. O silêncio dos druidas unia-se ao da floresta. Ao longe, o barulho de pegadas sobre as folhas destacou-se, trazido pela brisa. O sétimo membro estava chegando. Conan sorriu enigmdtico para os cinco companheiros no centro do círculo. Sem entender, eles olharam na direção do homem alto que se aproximava. Era mais jovem, e suas roupas, negras como a cor da morte, assim como a tonsura no alto da cabeça, indicavam que se tratava de um sacerdote da nova religião, que agora se alastrava pelas ilhas como fogo transformador. Viraram-se espantados para Conan, como a buscar em seus olhos débeis alguma resposta. Aqueles templos naturais e o ritual encomendado eram reservados aos iniciados da sua ordem, e a ninguém mais. Por que Conan teria trazido um sacerdote cristão a um dos seus bosques sagrados? Dividir o ritual druídico com um romano era algo plausível, mas com um cristão não, jamais. Cristãos nunca permitiriam rituais em que crianças eram sacrificadas em homenagem a deuses pagãos. Os romanos, em raros momentos, dividiram sacrifícios com druidas poderosos, mas a nova religião era a firme inimiga dos deuses. Seus olhares se cruzavam mergulhados em perguntas que, sem mesmo serem ditas, abalavam como um
terremoto a antiga amizade existente entre os magos. Columba, um simples monge, trazia a resposta em suas mãos. Aproximava-se firmemente, a passos vigorosos como numa marcha romana, ciente de que entrava num círculo ancestral, mas nem por isso transbordante de paz e tolerância. Tinha consciência da importância daquela reunião. E mais ainda do quanto aquele encontro representaria para o futuro. Sabia que trazia a esperança contra o Grande Mal. Não um mal de agora, mas o mal eterno que reside no coração dos fracos e que traz desgraça e morte aos inocentes, o Mal que desde sempre vinha sendo profetizado e que sempre atuara com vigor contra a humanidade. A arma que o sacerdote cristão trazia seria brandida no despertar dos justos. O sacerdote diminuiu a marcha e aproximou-se respeitosamente do círculo, olhando nos olhos dos magos. - Mas isso é uma loucura! - exclamou Mider, lembrando aos outros suas obrigações. - E, de fato! Como você, Eocaid, conselheiro dos reis, nos convida para uma esparrela dessas. Vamos depois nos sacrificar aos romanos também? - gritou, como sempre gritara o Lir. - Nós viajamos muito para participar desse ritual que você dizia "ser de importância infinita, a ponto de as estrelas do céu morrerem”, Eocaid! Meu respeito por você é grande, mas ultrapassou os limites de nossa amizade! Antes dela vem nossa ordem! - vociferou com veemência Fergus de Dinas Emrys. - Respeito, senhores! - irrompeu Eocaid, gritando ainda mais que Lir, olhando-o de forma ameaçadora. - Vocês estão diante de Crimtháinn do Uí Néill! - apontou ele para Columba. Um verdadeiro assombro percorreu o ar, esfriando-o. Os druidas deram um ou dois passos para trás, olhando Columba com olhos arregalados. O tempo pareceu parar no círculo daqueles poderosos anciãos.
- Crimtháinn do Uí Néill!? Ele vai nos matar! Caímos numa cilada irmãos!... Caímos numa cilada de Eocaid! - desesperou-se Creidhne, aproximando-se dos outros magos e adotando uma posição defensiva. - Tenham calma, irmãos! - tentou acalmá-los Eocaid, gesticulando com as suas mãos em movimentos suaves e olhando seus companheiros nos olhos. - Crimtháinn do Uí Néill! Esse senhor da guerra derrotou com seus poderes o exército do grande rei! Não temos poderes suficientes para vencê-lo! - continuava Creidhne, exaltado e alertando os outros. - Eu não vim lhes fazer mal mas ao contrário, pedir-lhes respeitosamente um grande favor - replicou calmamente Columba, aproximando-se deles. - Afaste-se, Crimtháinn! Vamos lançar-lhe uma maldição para que tu não mais andes, mas rastejes como as serpentes! - irrompeu Lir, da Dumnonia. - Não! - interrompeu Finn, erguendo seu cajado como a pastorear ovelhas. - A mágica de Crimtháinn é poderosa, Lir! Vi com meus olhos quando o grande rei de Erin veio com seu poderoso exército de Connaght atacar o clã de Crimtháinn do norte de Uí Néill e foi envolvido pela bruma que os cegou e conduziu para a desastrosa derrota. Crimtháinn já possuía o nome cristão de Columba, unindo poderes vindos da nova religião e sendo ele um temível príncipe da guerra. Não subestime Crimtháinn, Lir, pois um grande rei e seu exército já tombaram aos pés dele. Todos os druidas olharam de forma ameaçadora para Columba, mas surpreendentemente foi Creidhne quem os tentava acalmar, além de Conan. Mesmo assim, Lir iniciou a entonação de um encanto, seguido por Mider e Fergus. Lançando maldições ancestrais e quase esquecidas no oceano dos tempos. Columba, perdendo um pouco de sua tolerância, riscou o chão com seu cajado. Uma abertura profunda, como uma rachadura de terremoto, surgiu
onde ele demarcara com seu cajado. Os druidas ficaram abismados. Suas feitiçarias eram agora açoitadas a golpe de milagres. - Olhem aí dentro! - ordenou-lhes Columba. - Vejam! - ordenou como a comandar seus soldados. Arrastando os pés, os três druidas, seguidos pelos outros, espiaram para o interior da fenda. Ela parecia um enorme abismo. - Vejam! - tornou a dizer Columba. - Olhem com atenção! A fissura mais parecia um fosso, onde não se via. o fundo, mas aos poucos alguns contornos se tornaram visíveis pelos magos. Enxergaram homens sendo queimados vivos enquanto outros, deitados no chão de barriga para baixo, mordiam a terra gemendo, ao mesmo tempo que eram açoitados por demônios. Apareceu uma enorme bola de ferro cheia de pontas vermelhas ardentes e, nela, homens eram atirados pelos demônios, fixados pelos membros e girados com tanta velocidade que as pontas da roda faiscavam. Todos choravam e urravam de dor e ódio e aquele mesmo ódio era realimentado em suas almas pelos demônios que não cessavam seus açoites. As trancas das portas da morte se abriam, estendendo seus braços famintos; suas plumas negras espi gadas beiravam os leitos de morte. A ilusória luz dos murmúrios decadentes entristecia as perdidas almas que urravam sob a dor da desolação. Eram acordados de seu pesadelo com o grosso gole de suas lágrimas nas âmbulas malditas. Aquele pavilhão de homens orgulhosos deitados, imersos no pesadelo eterno dos mortos-vivos. Naquelas trevas andróginas repletas de fel, em meio às nuvens contrárias ao amor, o homem bebia seu próprio sangue inebriado, sob o aplauso insano das estrelas caídas... De repente os anjos caídos olharam para fora do buraco, em direção a Columba. - Esses feiticeiros são nossos, escravo do Cordeiro! Sempre nos serviram! São nossos, não podeis salvá-los! Os druidas assistiam àquilo com desespero e horror.
- Ninguém é de vocês, a menos que queira ser, cães do inferno! Somente sua recusa a Deus os levará para sua morada infame, servos da cólera! - Columba olhou então para o céu e disse: - Jesus Cristo, filho do Deus vivo, tenha piedade de mim que sou pecador e salva esses Teus filhos que estão diante de mim, Senhor. A Terra imediatamente começou a tremer e o buraco se fechou como uma cicatriz. Houve um silêncio sombrio... Um dos magos caiu sentado no chão suando frio, e foi socorrido pelos companheiros. - Senhor? O que vimos? - A morada dos ingratos, dos infames, dos traiçoeiros e covardes. Mas um mal ainda muito pior está para acontecer e assolar estas terras e toda a terra onde habita o homem - respondeu o monge, demonstrando-se fatigado como quem acabou de lutar em combate. - É realmente necessário que os senhores me ouçam... - pediu Columba com olhar paterno. - O que significou aquela visão? - insistiu Mider. - E a visão do inferno, para onde vão aqueles que conspiram contra Deus - respondeu Conan. - Contra o Deus cristão? - É, depois da morte. E eternamente lá vivem. - Sob aquelas torturas? - Sim, porque gostam e desejam odiar e ser odiados. O paraíso do caos às almas perturbadas e orgulhosas - pontificou Conan, como um monge em seu exercício doutrinário. - Existem algumas considerações a fazer, antes de sair condenando as almas, Eocaid da Pictávia - interrompeu-o Columba. Considerações às vezes difíceis de serem ponderadas por cristãos recém-convertidos. Meditei durante anos, pedindo iluminação para minha alma, limitada em inteligência e intelecto. E isso ocorreu durante uma linda tarde; eu me lembro bem porque era uma daquelas tardes em que o sol veste tudo de ouro, até as águas do mar, e era como se o que eu fosse ouvir viesse realmente do alto e a Terra deveria vestir-se de acordo, ou seja, de puro ouro. A primeira
inspiração que me veio era que, às vezes, as Palavras de Deus parecem até um pouco pueris, mas era minha pequenez que exigia esse esforço do Pai, o de adaptar à minha pequenez Sua infinita sabedoria. Mas qualquer Palavra Dele, eu deveria lembrar, eram espírito e vida. E me vieram essas visões do inferno, e eu prestei atenção no que via e ouvia... E veio a mim a segunda inspiração Columba fez uma breve pausa e prosseguiu: - Uma mãe, uma mãe verdadeira, por feio que seja o seu filhinho, não o vê assim; para ela é sempre lindo e como talo tem sempre em seu coração. E Deus me disse que era assim Seu Coração para com as almas: mesmo feias, mesmo enlameadas, mesmo imundas, o amor Dele as tinha sempre como belas. Ouvindo aquilo, exatamente o que não queria ouvir naquele momento da minha vida, chorei como uma criança a pensar nos irmãos que minha falta de caridade havia condenado. - Columba suspirou com tristeza e continuou: A inspiração prosseguiu: Que seria para eu compreender quanto fere seu Coração maternal tudo que fosse juízo severo, reprimenda ou condenação, mesmo que baseados na verdade. E, pelo contrdrio, quanto Lhe era alívio tudo que fosse compaixão, indulgência e misericórdia. Pediu-me que O distraísse das suas profundas tristezas e decepções com o gênero humano com as indústrias da minha caridade. Que Ele sofre com fazer justiça e que eu usasse de piedosos enganos; que Ele tem necessidade de crer que não é verdade que as Suas criaturas sejam tão ingratas. Que Ele, embora Senhor do visível e do invisível, preferia usar de misericórdia e não de justiça. Que a justiça é feita em honra dos Seus justos e dos Seus inocentes. - Columba olhou nos olhos dos druidas e concluiu: E, principalmente, que ninguém pode arrancar-Lhe uma alma. Essa pode, pela liberdade que lhe é concedida, atraiçoá-Lo, renegá-Lo, e passar assim, de própria vontade, para as mãos do demônio. Que Ele não nos criou para o inferno, mas para o paraíso! Que não nos
havia criado para fazer companhia ao demônio, mas que Dele gozássemos no Amor eternamente. Uma brisa gelada circundou os druidas... Aqueles palavras atravessaram os anciãos como uma espada afiada, ferindo-os no coração. Eocaid estava absorto em emoção e contemplação. - Senhores, é preciso que me ouçam agora - interrompeu novamente Columba, dirigindo um olhar de doçura aos anciãos. Toda a floresta calou-se para escutar suas palavras. Conan lançou um olhar advertindo seus ex-irmãos de ordem, incitando-os ao silêncio. Mas seu olhar calou-se, como se tivesse visto uma sombra pairar diante de suas retinas. A compaixão que sentia pelos outros druidas, o coleguismo antes de sua conversão ao cristianismo, deu lugar a um sentimento obscuro que turvou seu coração. Suspirou, sabendo o que iria ouvir de seu novo mestre. Columba tocou no ombro de Lir e Fergus de forma a convidá-los a se sentarem na relva, o que foi seguido pelos outros, e iniciou sua narrativa. - Tive uma visão aterrorizante, e a presença do Mal quando tive esta visão foi quase insuportável. Surgirá no futuro uma ordem poderosa feita da aliança entre homens poderosos e demônios por meio do Olho-Que-Tudo-Vê, a fim de escravizar todo o gênero humano. Espargindo ondas de desejo a corroer a alma dos homens, cegandoos, impedindo-os de sentir a beleza de enxergar estrelas; produzindo rios de enxofre que carregam toda sorte de bestas mortas, doenças e explosões de fogo lavrando a terra, semeando cadáveres aos montes. A poderosa ordem causará, em seu avanço faminto, a derrubada dos bosques sagrados, o sacrifício das matas, o desprezo dos animais. Seus líderes, que moram no topo da pirâmide, conspirarão para os justos serem esmagados e nascerem falsos ídolos. A mentira será aceita como verdade e a verdade será encarada como tolice ou fábula. - Mas quando isso irá ocorrer, Crimtháinn? - indagou Fergus de Dinas Emrys. - O Mal já está entre nós - continuou Columba. - Sua raíz espalha-se
tenra e inofensiva como um broto, mas o tempo a fará muito forte. O homem não possui forças suficientes para combater esse Mal não somente com boa vontade. Precisará usar a 'Justiça de Deus': Na minha visão, havia uma arma, a materialização da Aliança, poderosa o suficiente para detê-lo. Ela reluzia no centro de um círculo de leões de pedra. Do seu gume, raios de luz brilhavam formando um grande halo, que se expandia por todo o círculo. Tinha sido forjada com o ferro do sacrifício do Filho do Homem. E seu punho guardava o sagrado. Ela emanava poder. - Onde está essa espada? - questionou Finn, do Fogo Sagrado. - Tem de ser forjada! - respondeu Columba, assustando a todos. Por isso os convoquei. Preciso de seus formidáveis conhecimentos da forja de espadas agora! Hoje, a espada da Justiça de Deus será forjada. Columba deixou que o silêncio que os assombrava os envolvesse. Seus olhos percorreram vagarosamente as mãos de cada um daqueles homens, que acompanharam essa trajetória tentando encontrar a resposta. Perceberam que cada um deles trazia um elemento correto para que a forja da arma fosse realizada. As calejadas mãos de Mider apertavam uma barra de ferro cavada das entranhas da terra, contendo em si o poder do solo. Lir trazia uma bolsa de couro com a água retirada de uma fonte sagrada. Finn entendeu por que ele era um dos escolhidos, pois trouxera seu fole e o caldeirão, e Creidhne Transforma Elementos já sabia o que tinha vindo fazer e retirava suas ferramentas da sacola de couro. Fergus de Dinas Emrys, dando-se conta do que Conan Eocaid dizia com os olhos, ergueu o altar do renascimento, o caldeirão que derreteria os metais para forjar a arma. Eles olharam para Columba. Se todos os elementos para a forja da espada já estavam ali reunidos, o que realmente ele trazia? Calmamente Columba abriu suas mãos. Os últimos raios de sol, que tinha começado a se pôr atrás do bosque, brilharam sobre aquele pequeno pedaço de metal, revelando a força que imbuiria de poder a espada.
Creidhne Transforma Elementos levantou-se, seguido dos outros. O dourado do sol banhava seus mantos, tingindo-os com raios de ouro. O vento trouxe para o centro do círculo o frio da noite que se aproximava. As primeiras estrelas apontavam no horizonte, espiando ao longe a forja, o antigo e detalhado ritual que se iniciava. Creidhne posicionou-se no norte do círculo, em pé, de frente para os outros. Suas retinas refletiram as primeiras faíscas que Finn, do Fogo Sagrado, riscava para evocar o elemento da transformação. Seu apelido Fogo Sagrado lhe fora dado exatamente por ser sempre ele a produzir o melhor calor capaz de derreter metais, esses que se liquefaziam em verdadeiros rios de sangue, avermelhados e brilhantes, o elemento da transformação que se tornava o aço gelado da espada. O fogo logo tomou forma e foi respeitosamente saudado pelos druidas. Columba, com um misto de espanto e respeito, observava tudo atentamente, medindo cada movimento. Mider, então, dirigiu-se ao caldeirão, depositando nele a barra de ferro que trazia. O metal parecia obedecer à sua vontade, avermelhando-se e derretendo rapidamente. O metal rígido rendia-se à força transformadora do fogo. O ferro borbulhava como se estivesse chamando Columba a participar do ritual. O monge aproximou-se do caldeirão, ergueu aos céus o cravo sagrado evocando a força divina. Lentamente, deixou-o cair sobre a lava que ardia naquele altar de transformação. Enquanto o cravo girava no ar, visões desfilavam na mente do sacerdote, num turbilhão de imagens. Viu a cruz e Cristo coroado de espinhos sendo pregado a ela com os três cravos sagrados. Espetado na carne de Cristo, cada cravo foi permeado de um poder distinto. E um deles mergulhava agora naquele caldeirão fervente, impregnando com sua força o metal ao qual se fundia. Lir, das Sábias Palavras, dirigiu-se a uma grande pedra especialmente plana, situada a pequena distância do círculo, recitando palavras que Columba não pôde compreender. Espargiu então a água da sua bolsa sobre a pedra, como a abençoá-la. Derramou o restante do conteúdo da bolsa em um côncavo que
havia na pedra para evocar o poder daquele elemento com gestos e cantos. O suave brilho da água sendo derramada remeteu Columba de volta ao Senhor no momento de Sua agonia. Viu o rosto do Filho do Homem pontilhado do suor que brotava do seu sofrimento. A água, escorrendo por todo seu corpo, era a força da Sua vida, esvaindo-se sob os açoites daqueles que Ele mais amava, em um brinde generoso que convidava à vida eterna, ao encontro do Pai, trocados por um pagamento torturante e irresponsável. O monge chorou. Aquele senhor da guerra havia se dobrado há muito tempo diante do Cordeiro. Seguindo a sincronia daquele ritual circular, algo que há muitas eras havia sido estabelecido no âmago daqueles homens, Creidhne Transforma Elementos, da DaI Riata, tomou seu lugar na celebração. Juntou-se a Ian Mackollum no centro do círculo e, obedecendo ao ritmo das estrelas pelas quais alinhavam seus movimentos, os dois dirigiram-se à pedra-forja, cada qual segurando um lado da haste do caldeirão. A cada passo medido, os dois entoavam cânticos, que calavam o sussurro do ar. Aqueles som tocaram Columba que, envolvido pela música, fechou os olhos para aproveitar melhor o momento. Quando os abriu, Ian e Creidhne começavam a derramar o conteúdo do caldeirão dentro do molde de espada que haviam colocado sobre a pedra-forja. A lava vermelha, ainda borbulhando, caminhava lentamente pela firma, tomando vida própria e desejando ocupar todos os espaços. Seu calor, tocado pelo frio do ferro que lhe dava forma, parecia render-se à nova condição. Ela queria ser espada. Aquela missão, aquele desejo quase realizado, prostrou Columba, que caiu de joelhos, arrebatado, mãos erguidas para os céus, agradecendo. O fogo que brilhava no centro do círculo de pedra tramformou-se no sangue de Cristo que escorria das feridas rasgadas pelos cravos que O prendiam à cruz do seu sacrifício. A música do martelo de Creidhne sobre o gume da espada trazia para Columba os gritos de dor e sofrimento dos que acompanhavam
o Filho do Homem no seu holocausto, naquele fim de tarde de crucificação. O grito da lâmina virgem mergulhando na água invadiu a visão de Columba. Ele viu no líquido que agora envolvia a espada as lágrimas do lamento das mulheres que choravam a agonia do Redentor. Aquelas mesmas lágrimas também brotaram em seu coração, lentamente alcançando seus olhos, afogando na garganta a sua compaixão. Na cruz que Creidhne agora formava, encaixando a lâmina no punho trazido por ele, Columba viu a cruz do Salvador. A lua tinha vindo testemunhar o nascimento daquele instrumento de poder, misturando seus raios à prata da lâmina que Creidhne Transforma Elementos erguia aos céus, consagrando-a como o elo de união das forças da Terra às do Céu. "És Gaoth Cerridwen, o Vento Gélido da Escócia, Aquela que Traz a Justiça.“ A espada luziu nas mãos do druida, ciente da sua missão. A luz da lua ficou mais intensa, como para revelar o leão moldado no cabo da arma. O animal, desconhecido para Creidhne, que por anos o tinha acompanhado as suas visões proféticas de Columba era para ele, a derradeira revelação. A fera, que pousava sua pata sobre a cruz da espada, era o próprio Cristo, o Leão de Judá. Era também a coragem pousada sobre a fé. Columba foi consumido pela visão que incendiava sua alma. Viu o Cristo soltar-se da cruz retirando suavemente os três cravos que o prendiam àquele altar de sacrifício e caminhar em sua direção. Columba viu Seus olhos contarem sobre as dores da humanidade, a redenção do sacrifício que não estava apenas na Sua ressurreição, como também na libertação de todos os justos que aguardavam desde o início dos tempos, arrebentando Ele as portas da morte, obrigando-a a vomitar aqueles que ela havia engolido. Essa mesma redenção jazia também ali mesmo, nas mãos que Ele lhe estendia, no poder daqueles três cravos santos. Neles residia a semente da eterna salvação, o remédio para a cura dos males da humanidade por todo o sempre: Justiça, Força e Sabedoria. Os olhos de Cristo revelaram a Força que iria expulsar do mundo o Mal, a
Sabedoria que guiaria os homens nessa batalha e a Justiça que restauraria o equilíbrio na Terra devastada. Cristo entregou o cravo da Justiça a uma mão que surgiu na escuridão. Esta passou o santo cravo para as mãos de dois anjos que o seguraram. Esse ato da entrega alçou vôo e seguiu no oceano do tempo até o lugar onde haveria de ser erguido o monastério de lona, erguido pelas mesmas mãos que agora seguravam o santo cravo; as mãos de Columba. Houve então uma revoada de todos os anjos do céu e os serafins partiram, prometendo voltar quando fosse necessário para proteger a espada. E agora o cravo da Justiça, fundido à espada banhada de lua que Creidhne mantinha erguida, buscava a mão do guerreiro que o levaria a cumprir sua missão, "numa luta sem medo contra o mal”. O sereno que caía suavemente envolvia Gaoth Cerridwen, revelando na retidão da sua lâmina o nome do guerreiro que a conduziria ao seu destino. As brasas que ardiam no centro do círculo de pedra iluminaram na espada a palavra em gaélico, escrita com pequenas gotículas do orvalho, que significa "Do Amor de Deus": Angus. O velho eremita continuou, olhando para Sean: - Que o senhor e todos os seus descendentes se conservem puros de coração, observem os dez mandamentos na graça de Deus e sejam sempre defensores da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Sua palavra. Dizendo isso, ele beijou nossos pés e entregou-nos o manuscrito. Impedi-o de curvar-se a nós. - Toma-os! Guarda-os como o maior tesouro de tua família. Obedecendo à sua ordem, levantei e tomei os documentos em minhas mãos. Continuou o velho a explicar-nos os desenhos esculpidos no cabo da espada de nosso clã: - O leão é uma besta poderosa que vive próximo das terras dos mouros. - Lembrou-me como o leão que havia no cabo da espada apoiava sua pata sobre uma cruz, como que a guardando. - O leão significa a força e a coragem, pois não existe besta mais corajosa em
toda a criação. A pata sobre a cruz simboliza sua vigilância e fidelidade à Santa Cruz. Teus descendentes devem ser corajosos como essa besta, MacLachlans. Terão de observar as virtudes que Nennius tão esmeradamente ensinou a teu ancestral! Tua instrução sobre a essência das virtudes é de fundamental importância para a história da tua família e para o destino dos homens - quase gritou o velho eremita, dando de dedos. Todas as frases que o velho dizia nos assustavam, pois comprometiam-nos e toda nossa descendência. Ele explicou ainda, frisando severamente, que deveríamos guardar muito bem os ensinamentos que estavam naquelas crônicas e repassá-Ios a todos nossos descendentes: Sean e eu convidamos o eremita, vendo suas vestes surradas e sua aparência frágil pela penúria de seu ermitério, a ficar um tempo conosco em nosso clã e também para, assim, poder explicar aos nossos irmãos e familiares tudo o que nos revelara sobre o destino misterioso do clã. Prosseguimos em nossa caminhada arrastada em direção ao vilarejo. Eu estava ansioso para transmitir as novas que o ancião havia revelado. Só não imaginava que tais revelações seriam transformadas em realidade mais rapidamente do que pensávamos, pois no ano seguinte partiríamos para a Terra Santa. No ano de Nosso Senhor de 1096, o clã MacLachlan partiria para A Cruzada.
Darlugdach MacLachlan
Gaoth Cerridwen
CAPÍTULO I ANGUS MACLACHLAN - O PRIMEIRO Estávamos reunidos no vestíbulo principal, onde eram feitas as comemorações de nosso clã. Sabendo dos manuscritos que o eremita nos trouxera, todos estavam ansiosos para ouvir as histórias do fundador de nosso clã. Um MacLachlan do século IX. - Vamos! Vamos saber o que temos nas crônicas do fundador de nosso clã, Angus MacLachlan I. São datadas do ano de 879! apontou Conn, olhando o manuscrito com espanto. - Leia-a para nós, Emerson. Leia! - suplicaram todos, ansiosos por saber dos atos heróicos de nosso ancestral. Emerson MacLachlan tomou o manuscrito em suas mãos e iniciou a leitura...
Do Livro de Crônicas de Angus MacLachlan l, Líder do clã MacLachlan Os ferreiros trabalhavam dia e noite... As marteladas que forjavam nossas armas eram o som mais presente, calando até os pássaros, e sua cadência sinistra prenunciava a mais terrível das batalhas, na qual se amontoaria uma pilha de cadáveres. Eram grupos de três homens a cortejar o aço com seus açoites sincopados em um carinho titânico que somente o aço sabe absorver. Mesmo assim, os guerreiros encheram-se de força e coragem e juraram lutar até a morte, se preciso fosse, para que se ouvisse o brado da vitória por todo o Reino, libertando toda nossa ilha. Os batedores vieram avisar que o inimigo estava muito próximo e Guthrum vinha com o grosso de seu exército. Obviamente não via ele a hora de tomar o Reino por completo e extirpar a última resistência que ali se apresentava; pictos, escotos, bretões e o exército saxão do rei Alfred. O rei ouviu com atenção os batedores e logo ordenou que nos puséssemos todos de joelhos e orássemos.
Espada fincada no chão era nossa simples cruz, à qual dirigíamos respeitosamente uma última prece antes da grande batalha, mas Alfred fez algo ainda mais surpreendente. Ordenou a todos que formássemos, de joelhos, uma imema cruz. Era maravilha de se ver, aquela imema cruz humana, formada por incontáveis guerreiros, e Alfred pronunciou ainda as últimas palavras antes do combate: "Que todos nós formemos essa grande cruz em honra de Nosso Senhor e que essa seja nossa formação de batalha; e não haverá tática que nos faça sair destas terras porque nela fincamos nossos humildes pés com a bênção de Nosso Senhor, legítimo soberano deste mundo perturbado. E que nós sejamos o instrumento de sua paz e que esta ilha seja liberta do caos! Nós somos a última cruz vivente nesta ilha a ser tombada, homens! É hora de Deus reclamar toda a injustiça praticada nos quatro cantos da Bretanha!!". Revestidos de uma força quase sobrenatural, incandescidos pelas palavras de Alfred, marchamos para o cerne da batalha em Ethandum, onde nos aguardavam Guthrum e seus milhares de homens ansiosos para nos vencer de vez... Quando vimos o enorme exército nórdico, um murmúrio percorreu a multidão de soldados. Meus homens, pictos e escotos que eram, estavam com olhares escuros, e eu conseguia ler naqueles olhos sombrios duas coisas: a confiança que eu lhes conseguira transmitir diante dos nossos desafios anteriores e também uma certa sede ou, eu até diria, "amor pela batalha”. Senti que estava diante de homens indomáveis, guerreiros excelentes que me prestavam a honra de ser seu comandante. As tropas de Guthrum formavam um belíssimo muro de impacto. Eram três fileiras de escudos em um longo e sólido bloco e nos bradavam seu convite à batalha, batendo suas lanças nos escudos e gritando por Thor e Odin. Era um contraponto até alegre diante de nossa oração silenciosa e melancólica. Lembrei de um fato ocorrido em uma distante estrada do tempo, onde meu pai lutou um duelo de morte com um gigante nórdico chamado Wulfgar e eu assistia àquele combate segurando a mão de minha mãe Briggid. Isso foi há muito
tempo... E os homem do norte batiam os escudos da mesma forma... Vê-los agora me dava até um certo orgulho de meu sangue, pois eram conquistadores formidáveis esses homens do norte. Mas Alfred se apresentava abatido, principalmente por saber dos mosteiros, quase todos os da ilha, que haviam se transformado em pó e isso também me entristeceu muito no passado e também hoje, pois quantos monges como aqueles que me deram abrigo teriam perecido sob sangrentas espadas. Era também o eclipse da religião cristã na Bretanha, que corria nesse momento o grave risco de se tornar uma terra com leis nórdicas, de total servidão, e onde teríamos que adorar deuses como Thor e Odin, esquecendo com o passar do tempo a verdadeira fé. Onde nunca mais estaria nenhum homem diante da sabedoria e dos eminamentos de mestres como Nennius ou diante da caridade e da justiça de reis como Alfred. Ele temia exatamente isso e era para ele de vital importância vencermos nesse dia, de qualquer maneira. Lutaríamos então como leões; como a besta que não conhece medo. Alfred franziu o cenho e ordenou o ataque imediato. Saltamos dos cavalos e empurramos os animais para a retaguarda. Eu passei para o outro extremo da tropa e cerramos fileiras. Trancamos escudos em escudos e investimos sobre as cabeças dos pagãos. Avançávamos unidos, como um só corpo, uma só alma e um só espírito. Éramos uma massa uniforme lutando para alcançar um objetivo único: a sobrevivência da Bretanha. Meu machado parecia ser a arma mais mortal do terreiro da luta. Hagarth crescera em força e aumentava a paixão de suas investidas. Alfred parecia iluminado. Os corpos tombavam aos nossos pés. Uma luta renhida. Uma batalha corpo a corpo, como uma muralha humana empurrando outra para os braços de HeI, a morada dos mortos. Em breve, os daneses começariam a sentir o gosto amargo na boca. O fel se derramava em cada golpe de nossas lanças e era servido em taças de fúria que nunca se esvaziavam. Os inimigos já não conseguiam se manter em pé e começavam a recuar. Era visível o cansaço estampado na cara daqueles cães. Os arqueiros bretões
continuavam a jorrar suas cargas de flechas sobre a retaguarda da tropa inimiga e com o tempo os dardos lançados sem interrupção começaram a cobrar seu preço. O assobio dos dardos, antes ignorados, faziam os daneses olhar para o céu e levantar seus escudos, enquanto a vanguarda era ainda um bem-composto bloco contra o qual nos batíamos. Os daneses são bons e fortes guerreiros, mas estávamos com uma fúria incendiada em nossas almas. Defendlamos nossas terras, nossas famílias e nosso maior tesouro: nossa fé. Meu machado aumentou o sorriso confiante de alguns daneses, abrindo suas cabeças até a exposição de seus dentes e ossos e isso muito me agradava. Vê-los tombar aos meus pés me redobrava a confiança naquela decisiva batalha, onde apenas um povo sairia da contenda com vida. Guthrum não compartilharia poder com ninguém mais, com nenhum outro rei da Skania. Ninguém escaparia do seu jugo. Parecíamos ter a ciência exata das circunstâncias da derrota, redobrávamos a força de nossas investidas e percebi no meio daquela batalha furiosa que avançamos alguns passos, empurrando a vanguarda de Guthrum algumas braças para trás. Era um prenúncio de vitória, como ver um milagre diante de meus olhos. Um tremor me percorreu, assim como um estado de confiança. As espadas dos escotos arrebentavam os escudos daneses e os saxões avançavam sob os brados do rei. Os pictos eram como bestas circundando os inimigos, que pareciam vê-los atacando de todos os lados. Tive novamente grande orgulho de ver meu exército servindo os daneses com tantas ganas. O mesmo tremor que me percorreu a alma, de confiança, agradecimento e orgulho de meus bons homens e daquele grande rei de quem era aliado, percorria naquele momento, de uma forma um tanto diferente, a alma atormentada daqueles piratas daneses. O medo de morrer os aterrorizava, e eu procurava ver neles a disposição para a morte em batalha tão alardeada em suas bravatas, mas essa não era uma constante, como pude constatar em outras
derrotas que lhes havíamos infligido, e a vontade única do daneses era de bater em retirada, de fugir diante de nosso massacrante ataque. Continuamos a apertar o que passou a ser um cerco total às forças de Guthrum. Não posso e nunca poderia explicar em palavras o que aconteceu quando os daneses fugiram do campo de batalha. Nossos homens não pararam. Pelo contrário, perseguiram com ímpeto os que fugiam, matando todos os feridos que viam pela frente, apoderando-se de todos os cavalos, gado e provisões que encontravam pelos caminhos.
Angus MacLachlan, o Primeiro e Rei Alfred, o Grande
Ataque Viking em Monastérios da Bretanha
O dia todo, os cavaleiros dos saxões do oeste, seus corodeistum, mantiveram-se na perseguição dos inimigos, cortando os fugitivos por trás com suas espadas afiadas. As milícias fyrd perseguiram os nórdicos, montados em cavalos. Alguns thegns ultrapassavam com seus cavalos os daneses em fuga, desmontando bem em frente antes de atacarem os fugitivos e matá-los. A perseguição não era uma simples necessidade militar. Ela tinha, na mente dos thegns leais a Alfred, conotação de vingança por sua terra devastada e assolada pelo medo por tanto tempo. Presenciei um gesith anglo que, depois de um embate furioso, se virou para seu prisioneiro quase triste, dizendo: "agora você terá que morrer porque todos os meus irmãos e parentes foram mortos na batalha". A vingança era uma dívida de obrigação entre os anglos e saxões. Ela tinha que ser cumprida quase de imediato, no calor do momento. Atrasar a retribuição por tempo indeterminado apenas aumentava a necessidade do ato. Um efeito da batalha era o dano causado ao equipamento de um guerreiro. Nas contendas corpo a corpo, os escudos eram despedaçados, como registramos depois de uma batalha pesada, cantada posteriormente por formidáveis bardos. Um herói ferido seguiu então seu caminho, Dizem que seu byrnic estava quebrado, Sua armadura imprestável e seu capacete perfurado. Grande parte do equipamento seria consertada, pelos próprios homens ou pelos armeiros que acompanhavam o exército. As espadas de ferro que haviam sido entalhadas pelas lutas teriam que ser novamente afiadas depois da batalha. As lanças e dardos quebrados poderiam ser de novo encabados com facilidade. O conserto das camisas de malha, no entanto, exigia ferramentas especializadas e era feito por operários bem treinados em malha. Alguns outros equipamentos poderiam talvez ser substituídos pelos extras trazidos pelos próprios thegns, ou reabastecidos com os
estoques do exército. Nosso exército estava bem formado. A principal fonte de reabastecimento, pelo menos para nós os vitoriosos, era o campo de batalha. O despojamento do morto começava mesmo durante a batalha, mesmo quando a batalha estava no auge. Os itens valiosos, como as camisas de malhas e as espadas, eram os prêmios principais. Iniciava-se a remoção das camisas de malha, e as espadas eram empilhadas. É contra esta tela de fundo que precisamos ver os depósitos em massa dos equipamentos militares do tipo feito nos campos de Ethandum. Os equipamentos coletados de um exército derrotado eram um prêmio grande. E haveríamos de agradecer a Deus pela dupla dádiva: vitória e conquista das armas. Continuamos a marcha, agora em direção a Chippenham, a quinze milhas dali, para onde Guthrum havia recuado com seus poucos homens, e sitiamos uma fortaleza na qual se esconderam. Parte do exército de Alfred foi chegando e se posicionando ao longo da amurada.
Thegn Anglo-Saxão
Ainda assim, as perseguições pareciam não ter sido empurradas ao extremo de nossas forças, uma vez que todos os homens simples do fyrd queriam explorar o campo de batalha por uma partilha dos despojos. Pareceu-me que algumas tropas vitoriosas que perseguiram o inimigo voltaram com uma pressa quase indecente para reivindicar a sua parte do saque, indisciplina que eu jamais permitiria em meus homens. Mas de fato estavam lá, diante de uma improvável vitória, homens simples portando armas rudimentares lutando por seu rei. E eram vitoriosos. Seria justo que tomassem boas armas para si e continuassem com melhores condições de manter seu juramento de lealdade ao rei Alfred. Era seu futuro que estavam buscando, servidos pelos cadáveres dos inimigos. Os guerreiros voltaram por entre pilhas de corpos fedorentos. Eles agora tinham tempo de retirar de seus mais odiados inimigos, seus inimigos antigos agora sem vida, o butim ensangüentado e os ornamentos ricos, capas, escudos e as espadas de folhas largas, elmos reluzentes, enfim, os tesouros mais preciosos de uma batalha. As bandeiras do corvo negro, antes desenroladas por Guthrum, ameaçando-nos no campo de batalha com seus perdulários terrestres, eram sua ameaça deliberada do destino que esperava os corpos de qualquer um que se opusesse a eles, mas agora eram as "feras da batalha” os animais que espreitavam ao redor dos combatentes, nossos estandartes naturais contra as tropas vencidas de Guthrum, as bestas escondidas nas nossas laterais desde o início do embate, esperando para se alimentar dos ossos dos que tombaram. Os nórdicos deixaram para trás corpos para os corvos - bestas convocadas por seus próprios estandartes, com sua cor negra lustrosa e bicos de chifre - desfrutarem da carne tenra dos mortos e moribundos, e para as maravilhosas águias, de costas brancas e pardas se deitarem sobre seu sangue, e o gavião de guerra ganancioso se saciar, e para o lobo da floresta, aquela fera
selvagem, cinza e nobre, escondida sempre no espírito da floresta a cantar aos homens sua canção de morte, cravar para sempre suas presas neles. Retornei para a visão mais desejada por nós. Guthrum estava finalmente sitiado. - Podemos invadir a qualquer momento, meu senhor - insinuei. - Praticamente já temos a vitória nas mãos, é melhor aguardar pacientemente às margens da amurada, até que as forças de Guthrum sejam minadas pelo cansaço e pela fome - ponderou o rei, e passamos a esperar então o agrupamento total de nossas forças. Tínhamos agora tempo para cuidar dos nossos feridos. O tratamento dos feridos ficou sob responsabilidade dos companheiros dos thegns e dos seguidores de campo da sua unidade fyrd imediata. Não havia evidências de que "curadores" estavam presentes no exército anglo-saxão, mas presumi que tinham conhecimento básico da medicina, sobre cauterização e fechamento de ferimentos para evitar a morte pela perda de sangue. A maioria dos tratamentos tomou a forma de curas tradicionais, a medicina para curar feridas com ervas em que cataplasmas herbáceas eram usadas. Foi montado um verdadeiro campo de tratamento com muitas tendas. Caminhei com Alfred e o bispo de Asser por entre os enfermos, animando-os, pois ver-nos lhes trazia alívio de suas dores. Pude ver que a perícia médica anglo-saxônica estava concentrada nas mãos dos monges e sacerdotes; isto, em grande parte, presumi, porque os clérigos eram as únicas pessoas que conseguiam ler ou copiar textos médicos que explicavam as técnicas dos romanos. Um dos feridos delirava e gritava, suando em bicas, "ylfa gescot" "atingido por um duende'' - e depois "waelperu” que o bispo me traduziu como "espada do inimigo”, uma dor aguda causada por um ferimento feito por uma seax forjada pelos "seis ferreiros de Satã”, uma antiga lenda saxã. Lembrei-me de Guthrum e retornei para a linha de sítio. Aquele, sim, era um demônio vivo. Dentro da fortaleza, Guthrum só podia contar com suas runas.
Desesperado, ele aguardava por tropas auxiliares que nunca chegariam. Mesmo assim, conseguiu nos manter em alerta por duas infindáveis semanas. Sentindo-se impotente diante do nosso exército, que não arredava pé e cercava toda a fortaleza, Guthrum rendeu-se com seus homens, devolveu a nós todos os reféns e implorou pela vida. A primeira e natural reação dos guerreiros foi se lançar sobre aqueles miseráveis e matá-los sem dor na consciência. Porém, Alfred, num gesto de grandeza e misericórdia, parou frente ao inimigo e deixou-nos completamente perplexos: - Guthrum, jura renunciar a seus deuses pagãos se for poupado juntamente com seus homens? Nunca me esquecerei daquele momento em que o rei preferiu instalar a fé cristã naqueles corações a derramar sobre eles a mesma violência que os caracterizava. Guthrum concordou e o rei prosseguiu: - Jura aceitar o batismo e a religião cristã e somente procurar praticar o bem, sem espalhar mais mortandade por essas terras? Guthrum demorou ainda um tempo antes de responder, não entendendo o objetivo final de seu adversário. Olhou para seus jarls, viu o nada que agora restava de seu poderoso exército, viu talvez a solidão profunda em que se encontrava naquele momento sem sentido algum. Os jarls o olharam de forma severa e ouvi um deles incitando os outros a uma morte em luta. Mas o rei Guthrum ordenou que se calasse. E jurou perante o grande rei de Wessex... Eu jamais acreditaria em suas intenções e não via a hora de aquele cão sarnento sair para mandá-lo para o inferno com meu machado. - Não peço por mim, Guthrum, mas pela justiça e por todos os filhos da Bretanha! - Juro solenemente! - falou o rei danês... - Venha cá para fora! - ordenou Alfred... Quando o desconfiado tirano nórdico saiu da fortaleza, dei um passo em sua direção por puro instinto, já levantando meu machado. O rei me deteve, segurando meu braço, como um pai detém um filho,
apesar de termos a mesma idade. Naquele instante, ele pareceu muito mais velho que eu... - Prometa, grande rei do norte, jure pelo que há de mais sagrado em tua alma de guerreiro, que nunca mais trará sofrimento a este Reino e a toda a Bretanha - disse o rei a Guthrum.
Rei danês Guthrum
O que vi, então, deixou-me ainda mais impressionado: Alfred tombou sua cabeça solenemente, honrando a presença de seu antagonista. Fez o sinal-da-cruz, o que foi imitado por todos nossos homens, então tornou a olhar o líder danês nos olhos. Guthrum estava confuso... O rei Alfred então lhe deu as boas-vindas em nome da cristandade. Abraçou-o; chamou-o de filho... Atordoado com o gesto de seu grande inimigo, o antes tirânico e todo-poderoso danês estremeceu por dentro e tombou de joelhos: - Juro, majestade, em nome de tudo o que me é sagrado! Eu não podia crer no que meus olhos presenciavam! Um rei fazer paz tão rápida com o inimigo vencido, um tirano que por pouco não devastara todo o seu reino... Minha pequenez espiritual me fez ainda menor e senti-me incapaz de praticar tal sujeição! Ou tal magnanimidade. Aquela situação me afligia... Procurava pelo silêncio e não o alcançava. Não estava preparado para ver um rei praticando o que Nennius me ensinara de mais profundo. Impus-me uma certa penitência, a fim de enxergar com maior entendimento a atitude de Alfred. O vento soprava suave, o ar agora transportava alegria e esperança, mas eu estava pondo novamente em xeque meu espírito. Seria eu um homem da guerra? Teria de estar para sempre diante de algum inimigo? Não considerava mais a pujança da vida, mas somente a presença iminente da morte? Por que eu não aceitava a paz? Minha mão segurava meu cabelo que insistia em tombar e tampar minha visão como um véu. Minha cabeça pendia para o chão. Por um dia inteiro eu rezei e pedi esclarecimento do alto. A imagem de meu velho amigo e mentor se tornou mais clara e forte. Senti uma brisa percorrendo minha alma, uma brisa gelada e gostosa. Minha cabeça, antes em brasa, aliviou e eu caí de joelhos. O guerreiro não estava contrário ao santo!, pensei aos gritos. O guerreiro era um caminho de disciplina férrea e santidade! O santo pregava a paz e a qualidade daquela paz. O guerreiro a manteria segura. O santo declarava a justiça. O guerreiro era seu arauto. O
santo segurava a fé. O guerreiro a buscava em todo lugar. O santo lutava pelo bem e para derramá-lo cada vez mais forte e longe. O guerreiro contra o mal, punha-lhe obstáculos cada vez mais rígidos e caçava-o onde estivesse. Lutávamos lado a lado, o santo e o guerreiro, pela mesma justiça. Pela justiça de Deus. Contra a maldade, não contra o homem! Era isso! Era justamente isso que Alfred demonstrava! O inimigo estava vencido! Estava esmagado! Mas o homem não era seu inimigo! Era seu irmão! Apertei meu coração e agradeci a luz de meu mestre Nennius e a Deus por me trazer um mentor daquela magnitude. O segundo dia para mim foi como navegar em águas tranqüilas... Era o mesmo dia em que seriam enterrados os mortos.
Rei Alfred, o Grande
A prática de deixar os corpos no campo de batalha era uma decisão estratégica consciente. Os corpos eram a prova mais clara da vitória, evidências incontestáveis não apenas do tamanho da batalha, mas também do fato de que a vitória havia sido tão decisiva que o derrotado não tinha conseguido recuperar seus mortos. Era meu princípio deixar que inimigos como aqueles apodrecessem, alertando novas matilhas de chacais que tentassem contra nós. Para o rei era uma obrigação sagrada dar uma despedida apropriada para seus guerreiros: não fazer isso seria um crime contra o guerreiro e sua memória. O rei queria muito recuperar os corpos de seus thegns pessoais que foram mortos pelos nórdicos. Era uma medida que afetava e endossava sua autoridade. Esta obrigação, de recuperar os corpos dos abatidos, estava incrustada na mente anglosaxônica. O enterro apropriado era primordial e foi realizado de forma solene. Sobre o rei Alfred, posso apenas mencionar: O que distingue os homens dos anjos é que eles foram criados muito menores do que os anjos. O que distingue os homens de outros homens é que eles firam criados em igualdade e poucos se igualam. O que distingue os santos dos homens é que os primeiros têm a humildade de servir a Deus e serem "menores" espiritualmente que os outros, mais humildes e caridosos... Pensei isso vendo a nobreza daquele rei. Quando a maturidade atingir minha alma talvez eu consiga compreender que tipo de homem seria Alfred, o Grande. No final da leitura estavam todos maravilhados, mergulhados na profunda satisfação por descenderem de um guerreiro que desempenhara papel tão importante para a história da Bretanha. Nossa irmã Fianna mantinha os olhos mergulhados na história narrada. Seu espírito parecia ausente, vagando nas profundezas daquela narrativa.
Nesse dia todo o clã foi reunido em festa. Bebeu-se muito hidromel. Os risos dos MacLachlans pareciam não ter fim... Quando o sol se pôs no horizonte, as gaitas de fole soaram e todos brindaram a honra do fundador de seu clã, Angus MacLachlan, "O Primeiro Guerreiro".
CAPÍTULO II IAN MACKOLLUM Um ano havia passado e nós nos preparávamos para partir para a cruzada. Sean, meu irmão mais velho, seria nosso líder e teria a graça de empunhar Gaoth Cerridwen, a espada de nosso clã. Minha irmã Fianna fizera os votos de cruzada e empunharia sua espada Kildare. Também levava consigo seu arco longo, arma que manejava como ninguém. Emerson partia em espírito de oração e penitência. Conn usaria machado e escudo. E eu, Darlugdach, estava armado como cavaleiro. Equipei-me. Possuía todas as armas da cavalaria: A cavalaria era minha busca pessoal. O código da cavalaria, no mais alto grau. O eremita Ian MacKollum orientou meus primeiros passos nessa direção. Ele havia me ensinado e eu guardei seus segredos. Preparei armamento e vestes adequadas para meus irmãos. Guardei-os para somente os revelar antes de nossa partida. Mas guardei, principalmente, os ensinamentos do eremita. Lembro-me deles tirando-os não de manuscritos, mas do meu coração: A espada e a bainha: o céu e a terra, a dualidade... O fio da espada é a vontade celestial que corta e se introduz na matéria inerte. Na bainha, a espada é a vontade do céu em repouso. Erguida, é a vontade em ação. Espada e lança também significam a verdade. Porque a verdade é reta como a espada que traspassa a carne. O punho da espada é a verdade exposta a todos, sem inibir-se pela falsidade e pelo engano. O elmo, a vergonha, a humildade. A armadura é a couraça contra os
vícios capitais. A calça de cota de malha e perneira de ferro seguram e protegem as pernas e pés do cavaleiro, porque ele deve ter proteção e segurança em todos os caminhos. A clava significa força e coragem: defende dos vícios e fortifica as virtudes, os bons costumes e o caráter, por meio dos quais o cavaleiro pratica a justiça e mantém sua honra. O escudo significa a proteção de seu ofício como guerreiro de Deus e sua justiça, pois protege o corpo físico do cavaleiro e também seu serviço a Deus, seu único Senhor. O cavalo é a nobreza e a humildade: altivo como o valor do cavaleiro; humilde como o cavaleiro que serve a todos com generosidade. O freio do cavalo significa que o cavaleiro deve refrear sua boca, não proferindo mentiras ou palavras sem valor. As rédeas são o controle da razão, para que sua audácia não ultrapasse limites e escape ao seu controle. A cruz do cavaleiro deve estar fixada em seu escudo, de modo a lembrá-Io a quem ele defende. Serve também para que seja louvado em seu ofício de cavaleiro com honra.
Fianna MacLachlan parte para a Cruzada Enfim preparei meus paramentos e os de meus irmãos para que defendêssemos a justiça com diligência. Estava ansioso em minha busca pela honra do cavaleiro perfeito. E que cenário mais adequado para tal iniciação que na Terra Santa?
O cavaleiro Darlugdach
CAPÍTULO III POR ÁGUAS TRANQÜILAS Havíamos deixado as costas da amada Escócia com alegria e entuiasmo. Minha irmã Fianna MacLachIan observava nossa terra ficar minúscula no horizonte. Fianna era alegre, porém sóbria. Destituída de ornamentos desnecessários, tornava-se ainda mais admirável. Seus cabelos ruivos esvoaçavam ao vento gelado e ela cobria-se com uma capa azul acinzentada, tal a cor de seus olhos. Viajávamos por mares pouco navegados por nós escoceses. Éramos sessenta, setenta soldados em nosso navio. Nossa viagem era acompanhada pela oração e sermões constantes de cinco padres e monges; um deles, meu irmão Emerson MacLachIan, mantinha-se silencioso. Tive a oportunidade de acompanhar as discussões que travavam com dois monges nortúmbrios, vindos do monastério de Lindisfarne acompanhados por um grupo de soldados saxões do norte que se lhes juntavam. Falavam aqueles monges sobre os ataques mouros às cidades cristãs no Oriente e sobre Pedro, o Eremita, pregador da cruzada que havíamos abraçado. - Foi depois da morte do Santo Padre Gregório que Vítor III, mesmo combatendo o antipapa, não perdeu a ocasião de fazer guerra aos exércitos muçulmanos - dizia Basílio, o Pequeno, sacerdote da comunidade do monastério das Grampians. - Os sarracenos da África atacavam os navios no Mediterrâneo e ameaçavam as costas da Itália. O Santo Padre convocou os cristãos a tomar as armas e prometeu-lhes a remissão de todos os pecados se combatessem contra os infiéis - continuava Basílio. - Sim, irmão - interrompeu o monge Oswald de Lisdisfarne -, mas os genoveses e sicilianos não foram embalados pelo zelo da religião, e sim pelo desejo de defender seu comércio! Oswald parecia ser o mais velho, mais culto e ponderado de todos eles. Meu irmão assistia à discussão em silêncio.
- Mas equiparam frotas, organizaram exércitos e fizeram uma expedição à costa da África, onde, se dermos crédito às crônicas do tempo, dizimaram um exército de cem mil sarracenos! - Exagero dos italianos! - interrompeu novamente Oswald de Lisdisfarne. - Eles, por estarem próximos de Roma, fazem a política de amigos fiéis e defensores da Igreja, mas protegem mesmo seus baús, frutos de toda a espécie de saques e crimes!
Sean e Conn MacLachlan - Acho um insulto aos soldados de Deus! - protestou o padre Basílio. - Acho um insulto a Roma e ao Santo Padre, eles serem chamados de soldados de Deus! O senhor já esteve em Roma, irmão Basílio? - Não. Não preciso ir a Roma para estar ao lado dos guerreiros da cristandade! Não preciso ir a Roma para apoiar os que defendem a causa de Nosso Senhor Jesus Cristo! - retrucou com veemência o irmão Basílio. - Naquele dia em que os italianos triunfaram sobre os inimigos de Cristo, a notícia foi milagrosamente levada para além dos mares. Incendiaram as cidades construídas no território de Cartago e obrigaram um rei mouro a pagar tributo à Santa Sé. Veja irmão! Após essa demonstração de zelo pela fé os genoveses, sicilianos e pisanos voltaram à Itália, onde os despojos dos vencidos foram empregados para ornamentar as Igrejas! - padre Basílio olhava Oswald com fúria. - Ornamentar as igrejas! - repetiu Basílio, pensando ter finalizado seu sermão dando uma lição ao irmão Oswald. - Ornamentar suas igrejas, sim. Mas principalmente seus cofres! gritou Oswald, perdendo a paciência, o que fez todos os homens que escutavam a conversa desabarem em risos e outros se aproximarem do embate verbal. Afinal, eram homens sábios que lá se digladiavam. - Não é somente o zelo militar qne nos faz defensores dos cristãos, irmão Basílio. Veja o exemplo de Pedro, o Eremita! Ele procurou em todas as condições da vida a felicidade, e não a pôde encontrar. As letras, o ofício das armas, o celibato, o casamento, o estado eclesiástico, nada que se lhe oferecera lhe satisfazia a alma ardente. Desgostoso com o mundo e com os homens, retirou-se para junto dos cenobitas mais austeros. A oração, o jejum, a meditação e o silêncio exaltaram sua imaginação - continuava Oswald, tentando atrair os homens pelo exemplo de mansidão. - Mas Pedro se julga instrumento do Senhor, depositário de sua vontade. Isso vai além da fé e se transforma em orgulho espiritual repeliu Basílio diante do excesso de elogios a Pedro.
- Tem o fervor de um apóstolo, a coragem de um mártir - reforçou irmão Oswald. - Mesmo sem armas, seu zelo não conhece obstáculos. Seus gestos, suas palavras... nada resiste à força de sua eloqüência. - Mas ele prega a cruzada armada! - retrucou novamente Basílio. Todos os homens observavam o embate verbal como quem assiste a um duelo. Ficavam divididos... O discurso de ambos fazia brotar aquela divisão. - Tal é o homem extraordinário que deu o sinal das cruzadas! Por suas lágrimas de devoção ele conseguiu abalar o Ocidente e fazê-Io precipitar-se sobre a Ásia. Mas muitos se aproveitam desse ato de boa vontade para praticar a injustiça. Os roubos e o morticínio não encontraram berço mais propício! É esse o caso dos italianos! - É uma infâmia! - Basílio ergueu o punho a Oswald como que o ameaçando. Oswald franziu seu cenho e com a face rubra espargiu-lhe um olhar fulminante. Vi meu irmão Emerson baixar a cabeça e senti a divisão invadir o grupo sorrateira com suas presas obscuras. Dividia os cristãos antes mesmo de a cruzada iniciar. Parecia mau presságio para a nossa sagrada missão. - Calma, irmãos! - interrompeu um outro monge mais jovem, chamado Domnall, que pertencia ao monastério de Cairgorn. - Pedro ficou chocado com as dificuldades dos cristãos do Oriente continuou. - Seu ato é baseado na caridade e não na guerra contra nossos irmãos de outros credos. Seus olhos eram de um azul transparente e seus olhar manso pareceu acalmar os dois monges antagônicos. E ele prosseguiu, com fala mansa: - A fama das peregrinações ao Oriente fez Pedro sair de seu retiro para visitar os santos lugares. À vista de Jerusalém, sabe-se que ele ficou profundamente entristecido. - Domnall fez nova pausa. Suspirou... - Sentimentos vieram agitar a alma de Pedro. Depois de ter seguido seus irmãos ao sepulcro de Nosso Senhor, foi ter com o Patriarca de Jerusalém. A venerável figura de Simeão e a
perseguição que ele havia sofrido mereceram toda a piedade de Pedro: eles choraram juntos os males dos cristãos. O Eremita, com o rosto banhado de lágrimas, perguntou se não se podia pôr um fim a tantas calamidades. "Ó, o mais fiel dos cristãos! Não vê que nossas iniqüidades nos fecharam o ingresso à misericórdia de Deus? Todo o Oriente caiu na escravidão; nenhum poder da terra nos pode socorrer". Os irmãos Basílio e Oswald, assim como todos os outros, estavam absortos vagando na narração de Domnall. - A essas palavras - continuou o jovem monge -, Pedro interrompeu Simeão e disse-lhe que talvez um dia os guerreiros do Ocidente seriam os libertadores de Jerusalém. O Patriarca resolveu implorar ao Santo Padre, por meio de cartas, o socorro dos reis e príncipes do Ocidente cristão. Pedro, o Eremita, jurou que a partir daquele momento seria a voz dos cristãos do Oriente e armaria o Ocidente para sua libertação. Os homens aquietaram-se diante daquelas palavras. Um silêncio triste contaminou o luar prateado e o deslizar silencioso do navio cruzado, impondo suas dúvidas e penetrando nas profundezas dos corações daqueles soldados que rumavam para batalhar pela fé. O luto pesou sua capa sobre nós. Sean olhou os monges de esguelha. Pude perceber que reprovava aquelas discussões. Era o mais preocupado com o moral de nossa tropa. Era o único preparado e parecia antever o que nos aguardava.
Pedro, o Eremita e os Cruzados
CAPÍTULO IV NOS PORTOS DE BORDEAUX Atravessamos o oceano em grandes tempestades e com ventos generosos. Fizemos uma parada no território do Reino de França, próximos de Bordeaux. Apeamos no porto a fim de recarregar nosso navio com alguns víveres. Um sacerdote e um administrador local vieram até nós para nos congratuIar por nossa causa. O sacerdote fazia questão de benzer o navio. Explicamos que trazíamos padres e monges em nossa viagem, mas mesmo assim ele insistiu. Padre Claremont era seu nome. Pusemo-nos de joelhos, como manda a humildade, e recebemos a benção. Água benta foi aspergida no casco do navio. Havia uma pequena hospedaria no porto e uma taberna, para a qual nos dirigimos após as bênçãos. O padre Claremont acompanhounos. Era uma figura gentil. Bebemos um pouco de vinho de paladar agradável, produzido naquela região, e comemos um pouco de pão. O pão era tão fresco e macio que lamentei que nossa parada fosse tão breve. Mesmo sendo nossa estadia de uma única noite, o que o padre nos contou sobre o envolvimento dos príncipes do ocidente na cruzada nos excitou. Soubemos por aquele sacerdote as palavras exatas, trazidas em manuscritos, que o Santo Padre dirigiu aos exércitos do ocidente. O padre Claremont iniciou sua leitura: Seguido por seus cardeais, o Papa apareceu e ao seu lado estava Pedro, o Eremita, com o bordão de peregrino na capa rústica de lã. O apóstolo da guerra santa falou primeiro dos ultrajes feitos à fé de Cristo: recordou as profanações e os sacrilégios de que fora testemunha, os tormentos e as perseguições que sofriam àqueles
que iam visitar os santos lugares. Ele tinha visto cristãos carregados de grilhões, levados à escravidão como animais de carga; ele tinha visto os opressores arrancar-lhes até o mesmo pão da miséria e atormentar a mesma pobreza para conseguir tributos; ele tinha visto os ministros do Todo-Poderoso tirados do Santuário e condenados a uma morte ignominiosa. Principalmente nas mãos de Hakem, o tirano. Narrando as desgraças dos cristãos, Pedro tinha o rosto abatido e consternado; sua voz era entrecortada de soluços, sua emoção penetrava todos os corações. Urbano falou depois de Pedro, o Eremita: “Acabais de ouvir o enviado dos cristãos do Oriente. Ele vos disse da sorte lamentável de Jerusalém e do povo de Deus; ele vos disse de como a cidade do Rei dos reis, que transmite aos outros os preceitos de uma fé pura, foi obrigada a servir à escravidão. A impiedade vitoriosa espalhou suas trevas nas mais ricas regiões da Ásia: Antioquia, Éfeso, Nicéia, tornaram-se cidades muçulmanas; as hordas bárbaras dos turcos cantaram seus estandartes nas margens do Helesponto, de onde ameaçam todos os países cristãos. Se Deus mesmo, armando contra elas seus filhos, não as detiver em sua marcha triunfante, que nação, que reino, poderá fechar-lhes as portas do Ocidente?” O soberano Pontífice dirigia-se a todas as nações cristãs; procurava excitar no coração dos cavaleiros que o escutavam o amor da glória, a ambição das conquistas, o entusiasmo religioso e principalmente a compaixão por seus irmãos, os cristãos do Oriente. A raiva ímpia dos sarracenos não respeitou nem as virgens do Senhor, nem o colégio real dos sacerdotes. Eles carregaram de ferros as mãos dos enfermos e dos velhos; crianças arrancadas aos braços maternos esquecem agora entre os bárbaros o nome do verdadeiro Deus; o templo do Senhor foi tratado como um homem infame e os ornamentos do santuário foram arrebatados como escravos. Que vos direi mais? No meio de tantos males, quem poderia reter em suas casas desoladas os habitantes de Jerusalém, os guardas do Calvário, os servidores e os concidadãos do Homem-Deus se não se
tivesse imposto a eles a lei de receber e de socorrer os peregrinos, se eles não tivessem receio de deixar sem sacerdotes, sem altares, sem cerimônias religiosas uma terra toda coberta ainda pelo sangue de Jesus Cristo? “Ai de nós, meus filhos e meus irmãos, que vivemos nestes dias de calamidades! Viemos então a este século reprovado pelo céu para ver a desolação da cidade santa e para vivermos em paz, quando ela está entregue nas mãos de seus inimigos? Não é preferível morrer na guerra do que suportar por mais tempo esse horrível espetáculo? Choremos todos juntos nossas faltas que armaram a cólera divina; choremos, mas que nossas ldgrimas não sejam como a semente lançada sobre a areia e a guerra santa se acenda ao fogo de nosso arrependimento; e o amor de nossos irmãos nos anime ao combate e seja mais forte que a morte, contra os inimigos do povo cristão. Guerreiros que me escutais, vós que procurais sem cessar vãos pretextos de guerra, alegrai-vos pois eis aqui uma guerra legítima: chegou o momento de mostrar se estais animados por uma verdadeira coragem; chegou o momento de expiar tantas violências cometidas no seio da paz, tantas vitórias manchadas pela injustiça. Vós que fostes tantas vezes o terror de vossos concidadãos e que vendíeis por um vil salário vossos braços ao furor de outrem, armados pela espada dos Macabeus, ide defender a Terra Santa aos seus filhos. Não se trata mais de vingar as injúrias dos homens, mas as da Divindade; não se trata mais do ataque de uma cidade ou de um castelo, mas da conquista dos santos lugares.“
Os Prisioneiros
As palavras de Urbano penetravam todos os corações. A assembléia dos fiéis, levados por um entusiasmo que jamais a eloqüência humana tinha inspirado, ergueu-se totalmente e fez ouvir estas palavras: Deus o quer! Esse brado unânime foi repetido por muitas vezes. Os barões e os cavaleiros que tinham ouvido as exortações de Urbano esqueceram-se de suas próprias questões e juraram combater juntos os inimigos da fé cristã. Todos os fiéis prometeram respeitar as decisões do concílio e ornaram suas vestes com uma cruz vermelha. Tomaram a partir dali o nome de cruzados e foi dada à guerra o nome de Cruzada. Foi uma narração inquietante a do Padre Claremont. Mesmo assim senti um ar de intolerância no discurso do Santo Padre. Uma intolerância nada cristã. Mas ouvimos também o sofrimento dos nossos irmãos do Oriente. Batalharíamos pela justiça, não pela conquista. Lutaríamos pela honra e não contra todos os povos nãocristãos. Faríamos guerra contra aqueles que escravizam, estupram e matam, não contra povos de fé diferente da nossa. E não estávamos a caminho da Ásia armados como cavaleiros, portando a honra e a regra da cavalaria para tomar o que não era nosso, mas para libenar os cativos e devolver os que foram saqueados. O discurso do Papa me inquietou, mas mantive silêncio, pois não sabia ao certo o que iríamos encontrar pela frente. A reação dos outros compatriotas parecia a mesma. O que nos motivava era a defesa da justiça e dos cristãos e imaginei nossos irmãos da Europa menos tolerantes para com os povos que deveríamos contagiar com a retidão de nosso exemplo. Roguei no fundo do coração que essa minha desconfiança se dissipasse e que os méritos da cruzada se mostrassem elevados e suas conquistas trouxessem a marca da justiça.
CAPÍTULO V CÃES NORMANDOS Enfim havia terra à vista. Chagávamos as costas do sul da Europa. Os homens estavam festivos, os monges se abraçavam. Tínhamos dado nosso primeiro grande passo em direção à Cruzada. Fomos recebidos no porto de Messina, na Sicília, por um capitão normando chamado Arno Clrevignon. Os marujos normandos mais pareciam soldados de uma frente de infantaria, prontos para o combate. Mesmo estando em sua cidade, portavam armadura e elmo fechado. Inspecionaram nosso navio e questionaram sobre a quem servíamos e qual era o nosso soberano. Nossos sacerdotes responderam que nossa causa era a cruzada e tínhamos necessidades de reabastecimento de água e outros itens que eles comercializavam. Aquela rigidez militar poderia se explicar pela proximidade da Sicília com os territórios do império Fatímida. Apeamos do navio e fomos buscar outras provisões necessárias. Íamos à frente acompanhados de nossos sacerdotes e atrás de nós caminhavam os saxões que viajavam conosco. Foi uma provocação feita por alguns soldados normandos aos saxões que fez rebentar a confusão. Um dos líderes dos saxões, nosso amigo, se chamava Aethelbald e era um homem de boa têmpera. Quando voltávamos do armazém, já próximos do navio, passamos diante dos soldados normandos quando um deles, que parecia um lugar tenente, ironizou: - Andem, saxões! Só sobrou a Terra Santa com "rei" para vocês seguirem! - E os normandos explodiram em gargalhadas medonhas. Não soube o que teria irritado mais Aethelbald: se o desrespeito para com Nosso Senhor ou a ironia sobre fato de o rei Harold ter perdido a batalha de Hastings, deixando os saxões com um soberano normando. De qualquer forma, as duas formas de ofensa eram graves e pediam resposta a altura.
Aethelbald pousou a mão sobre o cabo de sua espada, fitando o capitão normando como a um lobo. Seu silêncio dizia tudo. Os normandos se agruparam em torno de seu capitão em formação de combate. Nesse instante mandamos os monges se afastarem. Aquele insulto ao saxão também era dirigido a nós, e o clã MacLachlan defenderia seus irmãos de peregrinação. Notei, para meu espanto, que Emerson se manteve junto de nosso grupo. Apoiava a mão sobre o cabo da espada.
Aethelbald
Guerreiro Nortúmbrio Sean era tido como um gigante sinistro; durante a viagem era notado por seu porte quieto e sua sobriedade. Viajava a maior parte do tempo em silêncio, escrevendo seu livro de crônicas. Na noite anterior tinha ajudado a puxar a âncora e quase o fizera sozinho. Sua força excepcional havia chamado a atenção dos marinheiros saxões. Agora ele observava do convés do navio o que se passava entre nós e os normandos. Os que nos ameaçavam notaram sua presença, principalmente a espada que já se encontrava em suas mãos. Inspirado na ira do gigante que se oferecia para a batalha, Aethelbald também sacou sua espada. O capitão ordenou uma formação cerrada para nos bloquear e ainda ordenou a outros soldados formarem uma parede humana contra o nosso navio. Ele gritava, grasnava feito um ganso perto de posto de vigília. E ordenou à sentinela que soasse o alarme, o que atrairia ainda mais normandos. Vociferava maldades prometendo muitos cadáveres. Seus soldados se comportavam como se estivessem se preparando para um banquete. O ar estava incendiado. O capitão deu a ordem para seus homens nos atacarem. Estávamos unidos, Fianna, Emerson e eu, além de alguns guerreiros de nosso clã. Assimilamos o impacto e nos misturamos a eles. Escoceses são mais difíceis para cães como esses normandos enfrentarem, pensei. Sean saltou como um leão do convés do navio e se atirou com a força de um touro contra a parede de escudos. Foi seguido por outros que estavam no navio. Os normandos sentiram nosso baque e todos nos transformamos em uma massa aglomerada de armas, escudos e carne. Conn girava seu machado e eu cravava minha espada em alguns inimigos. Emerson estava imerso na batalha. Eu me preocupava com ele, pois era um monge, apesar de viajar com sua espada. Mas ele pelejava. Até Fianna fazia boa morte no terreiro da batalha. Estávamos batendo pesado contra aqueles normandos e pude ver a
aflição tomar conta de alguns deles, especialmente do capitão, que tentava se desviar dos golpes ininterruptos de Aethelbald. Muitos outros normandos vieram, portando seus machados em gritos e uivos, como cães a defender sua carniça. Sean e os outros levavam vantagem e se agrupavam para receber a carga dos normandos que multiplicavam em resposta ao alarme dado e chegavam em socorro dos seus. Batemos contra eles com ainda mais vigor: arrancamos seus escudos e pisoteamos os que caíam. Sean parecia um senhor da guerra estraçalhando os inimigos, benzendo-os com seu próprio sangue. Fizemos diferença no campo de batalha. Alguns arqueiros nossos lançavam dardos, posicionados no convés. Víamos o capitão normando tombar sob um baque seco. Seu olhar débil transmitia o chamado baço da morte e seus soldados perderam ainda mais o pouco entusiasmo que lhes restava. Batemos em retirada com a cobertura dos arqueiros e os saxões exigiram cobrir a retaguarda, em gesto de gratidão. Voamos para dentro do navio e partimos antes que toda a Sicília normanda se somasse atrás de nós.
Batalha contra os Normandos
Fianna contra os Normandos
Guerreiro Bretão
Guerreiro Saxão
CAPÍTULO VI CAVALO A SER DOMADO Após duas paradas, uma em Marselha e ouna na Sicília, rumávamos direto para Candie. De lá seguiríamos para Chipre e seria essa a última parada antes de chegarmos à Palestina. Nossa última parada na Sicília fora complicada... Há doze dias navegávamos sem problemas, com ventos moderados. De repente, o céu escureceu. Estávamos ao sul do império dos gregos quando sobreveio um vendaval pesado. De certa forma estávamos preparados para uma tempestade. Tomamos as devidas precauções e, quando o vento refrescou, recolhemos as velas. O navio parecia excelente - enquanto as rajadas aumentavam o barco permanecia firme na rota. Batia o casco na água turbulenta como um cavalo a ser domado. Após algumas horas, porém, a noite nos abraçou, o céu tornou-se escuridão e as rajadas, furacão. Nossa vela de popa rasgou e as ondas pareciam vagas de ataque contra a força do casco. Suplicávamos para que ele não se rompesse. Subíamos e descíamos as montanhas de água. Na cava das vagas éramos engolidos pela sucessão de ondas gigantes. Perdíamos homens que a cada seção eram arrebatados pelas águas escuras. Uma tristeza. Afrontamos o mar por algumas horas e não havia sinal que a tempestade amenizasse. O mastro estava vergando e as cordas enrolando pelo baile fantástico do navio. Havia água no porão e a cozinha parecia destruída. Toda a nossa firmeza havia demolido e o desespero impôs suas condições. Lançamos ao mar o que não era indispensável e tivemos que cortar um dos mastros que tendia a arrebentar. Ao nascer do sol, a tempestade diminuiu e as nuvens aos poucos se abriram. Procurávamos avaliar as perdas e os estragos. As velas
estavam arruinadas em razão dos solavancos dos destroços. Estávamos à deriva. Pensei comigo se estávamos realmente em uma abençoada missão. Nesse momento o mandamento "Não matarás" sacudia em minha cabeça tal qual a tempestade. Nosso destino era a guerra e a morte em nome da fé. Morte nossa e de muitos outros. Minha mente entrava no terror das dúvidas. Não existe terror maior para o guerreiro. Naquela manhã, estávamos completamente sem água e com algumas sacas de grãos, as quais deixamos secar no convés arruinado. Rezamos por nosso destino. E rezei pela cruzada, suspeitando que seu destino estivesse selado como o nosso. O sol aparecendo manso por detrás das nuvens foi para nós grande alento. O sol e sua luz maravilhosa fizeram soerguer nosso espírito. Secávamos todas as roupas e armas. Felizmente a sala de armas se manteve fechada e pouca água havia entrado. Secávamos tudo e Emerson em conjunto com os outros sacerdotes dirigiram uma oração de agradecimento, sossegando nosso espírito e fazendo o medido silêncio pelos mortos. Poucos remos restavam intactos e, após o descanso, começamos a remar com lentidão em direção ao sol. Tentávamos improvisar uma vela e então encontramos destroços de outro navio. Demos graças por estar com vida e com nossa embarcação ainda boiando sobre o mar. No horizonte apareceu o que para nós era uma visão: um barco ao longe, vindo em nossa direção. - Vejam! - gritei. Ficamos apreensivos e nos apressamos em içar a vela mesmo arruinada, de modo a sermos avistados e salvos. O barco se aproximava veloz e pudemos ver suas largas velas azuis. Era um navio bizantino. Estávamos todos espantados com a velocidade daquela nave de guerra que soubemos depois se chamar "Dromunda". Possuía três velas longas e em sua proa uma torre de madeira, como a de um castelo, equipada com tubos. Esta era a arma mais poderosa existente em navios de guerra - o "fogo grego",
capaz de lançar fogo nos navios inimigos. Uma torre ainda maior se erguia na popa. Aquele colosso dos mares com uma cabeça de dragão na proa possuía setenta marinheiros e trezentos remadores. Jogou sua ancora e emparelhou com nossa nave. Seu capitão veio ter conosco. Chamava-se Alaxandrós Domniátes. Os bizantinos nos trataram com grande respeito e caridade cristã. E a esses irmãos em Cristo devíamos nossas vidas. O capitão designou marujos experientes para ajudar a consenar as velas de nossa embarcação. Trabalhamos por todo o dia e à noite o capitão Alaxandrós nos convidou para a ceia em seu navio. Seria uma noite esplendida, não fossem as notícias que ele nos trouxe sobre o andamento da cruzada. O capitão mediu as palavras pela nossa aflição, mas os fatos possuíam o peso da desgraça. Ele iniciou a narrativa fiel dos fatos. Concentrados, todos ouvimos em silêncio. - A cruzada de Pedro, o Eremita, encontrava-se na Hungria. Pedro ia montado em seu burro, alguns cavaleiros alemães iam a cavalo e a maior parte dos peregrinos, a pé. Os parcos recursos do exército eram transportados em carroças, e uma delas possuía uma arca com dinheiro, juntado por Pedro, para a longa jornada. Pedro atravessou a Hungria de forma pacífica sob as bênçãos do austero rei Coloman. Pouco depois, o exército recebeu reforços que vieram em navios e desembarcaram próximo ao porto de Zara. Continuaram a marcha em uma paz que, infelizmente, não iria durar. No dia 20 de junho, os peregrinos chegaram em Semlin. Disseram-me que o tamanho do exército assustou o governador da cidade, que reforçou as tropas de policiamento. O exército de Pedro, que acabara de atravessar em paz a Hungria, desconfiou da atitude do governante e bastou um incidente sobre uma venda de sapatos para criar uma briga, que logo virou uma batalha cerrada... Um misto de suspiros permeou o ar. Reflexos de nossa aflição. O capitão Alaxandrós Domniátes prosseguIU: - Os cruzados atacaram a cidade e conseguiram irromper pela
cidadela. Quatro mil húngaros foram mortos e uma grande quantidade de provisões foram capturadas. Contariam com a terrível vingança do rei húngaro Coloman e todos se apressaram a atravessar o rio Save. Tiraram toda a madeira que puderam das casas para construir jangadas. Nicetas, o tranqüilo governador de Belgrado, tentou controlar a travessia do rio. Suas tropas eram compostas por mercenários pechenegs, guerreiros em quem se podia confiar que cumprissem cegamente suas ordens e foram despachados para ordenar a travessia e evitar algum problema, pois, como já se sabia, eclodiam em guerra. Nicetas partiu para Nish, onde se situavam os quartéis-generais militares da província, a fim de reunir mais tropas. Os habitantes de Belgrado deixaram a cidade deserta e refugiaram-se nas montanhas circunvizinhas. Pedro e seu exército forçaram caminho através do Save. Foi o suficiente para os bravos pechenegs restringi-Ios. Os cruzados atravessavam o rio em desordem e eclodiu nova batalha. Muitos pechenegs foram mortos e barcos cruzados incendiados e afundados. Soldados a bordo capturados e mortos. Mas era uma pequena parte do exército cruzado. O restante marchou para Belgrado pilhando-a e incendiando-a. Em Nish, o governador havia informado o imperador bizantino do ocorrido e aguardava antes da aproximação de Pedro oficiais e escolta militar bizantina, que haveriam de conduzir os ocidentais às portas do império em perfeita ordem. Possuía uma guarnição grande em Nish, e tinha-a fortalecido recrutando localmente mercenários pechenegs e húngaros locais. É provável que não pudesse dispensar qualquer homem para servir de escolta a Pedro até chegarem as tropas de Constantinopla. Por outro lado, era impraticável e perigoso permitir que tão vasta companhia permanecesse em Nish. Pediu a Pedro, enquanto reunia comida para os seus homens, para partir logo que possível. Tudo correu bem de início. Os habitantes locais permitiram não apenas aos cruzados que adquirissem os mantimentos de que precisavam, mas deram esmolas aos peregrinos mais pobres. Houve mesmo alguns que pediram para tomar parte na peregrinação. Próximo de Sófia, cruzados alemães
atearam fogo a um grupo de moinhos junto ao rio. Nicetas enviou tropas para atacar a retaguarda dos cruzados. Pedro, montado no seu burro, não sabia do que se passava até que lhe informaram. Pedro desejava fazer recuar os cruzados, mas uma tropa de alemães resolveu tomar as fortificações da cidade. Nicetas ordenou que as suas forças atacassem os cruzados, que lutavam sem organização, sem tática. Muitos foram mortos, outros, capturados, homens, mulheres e crianças, e passaram o resto dos seus dias em cativeiro. Entre outras coisas, Pedro perdeu a sua arca com dinheiro. Ele mesmo, juntamente com os nobres Reinaldo de Breis e Gualter de Breteuil e um punhado de homens puseram-se em fuga, julgando serem os únicos a salvo, mas na manhã seguinte encontraram mais de dez mil cruzados e retomaram sua rota. Na cidade deserta de Bela Palanka se lhes juntaram ainda muitos cruzados fugitivos que perambulavam a esmo. Chegaram a Sófia a 12 de julho, onde se encontraram com os embaixadores e a pesada escolta enviados de Constantinopla. Duas formações de arqueiros Psilos se posicionavam numa elevação e contavam com mais de setenta dardos cada um. Uma tropa de kataphractos dava apoio pesado às tropas gregas. Consistiam em uma cavalaria especial pesada de lanceiros. Ameaçaram os bizantinos a soltar esquadrões de búlgaros e húngaros. Foi um cerco de tal ordem que os príncipes ocidentais ordenaram ao reagrupamento dos cruzados e dali seguiram quietos e em ordem rumo às portas de ConstantinopIa. As ordens era para mantê-Ios bem fornecidos em alimentos e para os não deixar demorar mais do que três dias em qualquer lugar. Daí em diante a viagem decorreu de forma amena. A vigilância dos soldados bizantinos foi severa, mas as populações locais eram amigáveis. Em Filipópolis, os gregos lhes doaram generosamente cavalos, mulas, carroças e alimentos. Um tom de arrependimento aparecia na face dos cruzados. Após os cruzados deixarem Adrianópolis vieram novos enviados oficiais de Bizâncio ao encontro de Pedro com uma mensagem caridosa do imperador. A expedição seria perdoada dos seus crimes, já que tinha sido castigada o suficiente. Pedro, o
Eremita, chorou diante dos favores concedidos por tão grande senhor. A caridade do imperador não cessou com a chegada dos cruzados a Constantinopla a 1º. de agosto. Pedro foi convocado para uma audiência na corte imperial. O imperador compadeceu-se de seus sofrimentos e admirou sua humildade. Deu-lhe dinheiro, presentes e conselhos militares dos quais Pedro tinha pouca ou nenhuma compreensão. Aos olhos experientes de Aleixo Comeno, a expedição não era um exército poderoso como ele havia imaginado. Sabia que se ela passasse para a Ásia, depressa seria dizimada pelos turcos. A indisciplina dos ocidentais obrigou-o a afastá-Ia o mais rapidamente possível de Constantinopla. Gualter Sans-Avoir e seus homens, que haviam partido muito antes de Pedro, o Eremita, se encontravam em Constantinopla e se juntaram à expedição de Pedro. No início de agosto o conjunto das forças atravessou o Bósforo. Estavam finalmente na Ásia, às portas dos territórios turcos. Era lá que sua bravura seria testada ou transformada em bravata. Marchavam do mesmo modo desorganizado, pilhando casas e igrejas das pequeninas vilas em seu caminho e assim a cruzada prosseguiu. Todos os homens estavam visivelmente afetados pela narrativa. Ficou claro a necessidade absoluta do apoio imperial para a jornada, e o poder do imperador bizantino. Naquele instante, notei que o objetivo do capitão bizantino era chamar a nossa atenção para a realidade terrível do comportamento dos cruzados, para que guardássemos a pureza de nossa intenção. Guardássemos os preceitos de Nosso Senhor e seus mandamentos. Os costumes da honra e a regra da cavalaria. E ainda para que nos resguardássemos de possíveis males futuros ainda maiores do que os narrados por ele. Sean parecia ver rudo com frieza. Não deixou de anotar tudo o que ouvia em seu diário.
O exército de Pedro, o Eremita
CAPÍTULO VII KYPROS Enfim, chegávamos ao porto de Famagouste, da ilha de Kypros, território do império bizantino. Nosso navio, semi-destruído, tinha sido arrastado até lá pelos hábeis marinheiros bizantinos. Ao redor do porto pude ver o poder do império bizantino: lá estavam ancoradas muitas naves como aquela que nos socorreu. Homens severos andavam para todos os lados. Olhavam-nos com certa desconfiança. Vimos um grupo de monges com longas barbas e roupas negras, austeros como árvores mortas. Ficamos hospedados em um quartel próximo do porto. Fomos muito bem alimentados e, sem que soubéssemos, nosso navio estava sendo totalmente reconstruído pelos gregos. Nossos monges foram visitar uma pequena igreja bizantina e voltaram encantados com os cantos dos padres e os ícones. Fomos orar naquela capela onde residia paz e serenidade. Nenhuma imagem esculpida existia na capela, apenas ícones e as luzes tênues das velas. Os cantos eram maravilhas de se ouvir. Emerson aproveitou muito aquele momento da nossa jornada e julguei que para ele aquela era a jornada de um monge e não devia se engajar em batalha como fez na Sicília para nos apoiar. Apreciava ver meu irmão tendo seu momento de mansidão. Nosso barco logo estaria pronto e partiríamos para finalmente nos unirmos à cruzada.
CAPÍTULO VIII BRUMA PÁLIDA Estávamos na Palestina. Que Deus abençoasse nossa missão e conduta. Os caminhos sagrados estavam diante de nossos passos. Era um bom momento para orar. Rezamos...
Soubemos por nossos batedores que outras tropas estavam a poucas horas de nossa posição. Eram cruzados. Partimos sem demora para nos juntarmos a eles. Havíamos marchado por todo o dia debaixo do sol escaldante. Éramos agora um exército engrossado por tropas de saxões, frísios e flamengos. Os poucos genoveses e venezianos nos acompanhavam traziam consigo sua preciosa carga: as armas de sítio. Nosso objetivo era nos juntarmos ao exército cruzado que marchava para Antioquia. Os navios genoveses patrulhavam a costa porque soubemos da vinda de uma grande armada fatímida que havia partido do Cairo. Eram poucos navios, mas podiam ao menos dar o alarme da chegada da armada inimiga e avisar os cruzados. Andávamos em grupos distintos, porém não separados e nos demos bem com todos soldados que formavam o grupo, em especial os saxões. Pareciam ser homens humildes e determinados. Mesmo exaustos, nunca nos separávamos do grosso do exército, pois poderíamos ser pegos em alguma emboscada. Torcíamos para que o exército parasse, mas isso somente acontecia quando o sol desaparecia. Era como se saíssemos de perto da fogueira. O bafo quente nos exauria, forçava o extremo de nossa vontade, principalmente de nós, acostumados aos ventos gelados do norte. Finalmente, depois de quase assarmos dentro de nossas malhas, o exército parou. Os ombros das colinas haviam mudado de tom. O vento soprava frio nos montes ao longe, onde cavalos brancos se tornavam invisíveis. A bruma pálida e as ondas de calor que brotavam da terra haviam cessado e o céu matizado de fogo ganhava corpo. O sol que queimava nossas faces e enfraquecia os braços do guerreiro e seus feitos fantásticos dava passagem a um insidioso vento, sob cuja ação as areias viravam caracóis, encolhendo-se em torno de nós, a nos espremer. Era hora de parar e descansar. Fechar os olhos, mergulhando a alma no medo mais profundo que o deserto sabe despertar.
Acendemos fogueiras, amarramos os cavalos e bebemos um pouco, apenas um pouco de água. Nos reuníamos sentados próximos das fogueiras, mas não o suficiente para que o fogo nos trouxesse mais calor. Mesmo assim a temperatura caía de forma brusca durante as noites e o fogo aos poucos se tornava convidativo. - Conte-nos, irmão Oswald, conte-nos sobre a queda de Jerusalém pediu Aestald Aellia, um nobre nortúmbrio que peregrinava conosco. Todos o apoiaram, pois sabiam que Oswald tinha conhecimentos como nenhum outro sábio nos reinos da cristandade. Aestald parecia conhecer a reputação de seu compatriota de, como um bom líder, saber desanuviar a mente preocupada e desgastada dos soldados com histórias de triunfo e glória. A cultura e sabedoria de Oswald nos foram mais uma vez demonstradas com sutileza e simplicidade. - É uma longa história - disse. - Por onde começar? - iniciou Oswald, acariciando sua longa barba. Aconchegamo-nos ao redor do monge, ansiosos por saber os motivos de nossa jornada, os detalhes que haviam marcado a história em arranhões irrecuperáveis. Os motivos reais de nossa luta, dentro do mundo espiritual. Ele pigarreou, cuspiu longe em direção às águas cinzentas e iniciou a narrativa: - O demônio sempre tenta contra a humildade e a pequenez. O pai do orgulho nem sempre sai vencedor, apesar da atração que exerce sobre os homens de coração duro. Os falsos deuses haviam reaparecido, aquelas imagens falidas, marcas da teimosia do homem! - a ira demonstrada por Oswald contra os povos pagãos às vezes surpreendia. - O tempo do Imperador Hélio Adriano havia passado. Júpiter havia se apoderado do Gólgota; Adônis e Vênus eram adorados em Belém. Mas o reino profanador dessa mitologia que expirava devia passar bem depressa, sob a força e a justeza da espada de Constantino. Ele fez desaparecerem essas estátuas pagãs, que tanto entristeciam os olhos dos cristãos; a cidade sagrada que, pouco a pouco reconstruída por Hélio Adriano, tinha tomado o nome de Helia-Capitolina, retomou seu primitivo nome, Jerusalém.
Uma Nova Jerusalém... Sob a força de Constantino os cristãos do Oriente tiveram paz e os do Ocidente podiam realizar as peregrinações que seus corações desejavam com tanto ardor. Oswald era um monge de grande inteligência, pensei. Um homem a quem Deus revelava seu intelecto aos poucos. Como numa caminhada, descobríamos sua sabedoria em suas palavras, com calma. Ele retomou a conversa: - Mas no início do sétimo século, enquanto o Ocidente procurava em débeis apalpadelas o equilíbrio entre o barbarismo e a nova ordem que São Gregório Magno trouxe como Papa, o Oriente foi abalado por um golpe terrível. Nas províncias cristãs do Oriente entre a Síria e Bizâncio corria a notícia do desastre: Jerusalém acabava de cair! Todos ouviam atentos, sob o crepitar ruidoso da fogueira, que aumentava à mesma medida que outros cavaleiros, soldados e monges que se somavam ao grupo. - Mas foi muito antes que começaram as batalhas para a defesa da cristandade: as batalhas no Oriente contra o império Persa! interveio irmão Luigi, um italiano da Ordem de São Bento. - Verdade, irmão! Muito bem observado - concordou Oswald. - O melhor seria relembrar o que aconteceu cem anos antes da queda de Jerusalém e, de certa maneira, a preparou. Devemos lembrar a súbita aparição e expansão de um novo Império na Ásia central, o dos turcos, cujo Khagan, chefe supremo instalado no Tien-Chan, reinava em meio a imenso fausto, sentado num trono sustentado por quatro pavões de ouro. Ele provocava uma enorme agitação entre as tribos dispersas da China aos montes Urais. Como conseqüência das suas investidas, os lombardos lançaram-se contra a Itália e os ávaros, mongóis hostis ao domínio turco, foram instalar-se no sul da Rússia e, depois, no baixo Danúbio. Esses últimos eram guerreiros tão terríveis como haviam sido seus primos hunos, e levavam consigo a incansável infantaria dos eslavos, gente feroz como eles próprios. - Ouvi dizer que eles não usavam prisões. Queimavam os
prisioneiros ou esmagavam seus crânios - disse um dos cavaleiros. - Nada vindo dessa gente seria de espantar - continuou irmão Oswald. - O fato é que Bizâncio teve que fazer frente a essas hordas, mas nenhum inimigo foi tão temível quanto aquele que se instalara em Ctesifonte: o rei Cósroes lI. No início do sétimo século, enquanto o Ocidente procurava o seu equilíbrio entre a anarquia bárbara e a nova ordem que, depois de São Gregório Magno, se encarnava e era conduzida pelo papa, o Oriente foi abalado por um terrível acontecimento. Por todo o Império de Bizâncio correu a notícia de um desastre sem igual: Jerusalém acabara de cair nas mãos dos infiéis! Havia dez anos que os persas do rei Cósroes tentavam sucessivas investidas nas fronteiras orientais do Império. Mais uma vez haviam invadido a Palestina. Sitiaram a Cidade Santa durante vinte dias. Os aríetes empurrados contra as portas, as muralhas forçadas, o fogo arremessado dia e noite, o ódio religioso, tudo contribuiu para o sucesso daquela investida. Muitas igrejas foram incendiadas, entre elas a basílica da Ressurreição, mandada construir pelo imperador Constantino. - Ouvi falar em sessenta mil mortos, será verdade? - perguntou um outro cavaleiro, um bretão chamado Fernand Droites. - Não seria um número exagerado - respondeu Oswald. - Sabemos com certeza que trinta e cinco mil cristãos foram levados em cativeiro, entre eles o próprio Patriarca. Os persas não respeitaram nada, ou quase nada. Curiosamente, deixaram intacta a basílica da Natividade, em Belém, segundo se dizia, por causa do mosaico representando a "Adoração dos Magos". Teriam reconhecido ali os seus costumes nacionais. Quanto ao resto... Inúmeros mosteiros foram destruídos, monges e monjas dispersados. Tesouros sagrados, tecidos preciosos, vasos de ouro e de prata foram roubados das igrejas e enviados às capitais sírias. A pior das ignomínias foi a que praticaram contra a Santa Cruz. Tiraram-na do Santo Sepulcro e levaram-na como troféu a Ctesifonte. Oswald parou um instante, o rosto entristecido e, ao redor da fogueira, pairou um eco de dor como a que sentira toda a
cristandade. O velho prosseguiu: - Esse Cósroes lI, prestigioso "rei dos reis", como queria ser chamado, não era um homem de religião, mas um conquistador. "O céu serve aos meus desejos, meus tesouros são ilimitados e todos os povos trabalham somente para mim", ele costumava dizer, no auge da sua glória. Seu trono era ornado com os signos do zodíaco, rodeado no inverno por uma cortina de pele de castor e de zibelina e aquecido por esferas de ouro cheias de água fervente. As suas caçadas eram cercadas de um luxo prodigioso: cavaleiros com vestes de cetim e bordados deslumbrantes, um número incontável de falcoeiros, além de servos que seguravam pela trela guepardos domesticados... Quando acampavam, era estendido no solo um tapete do tamanho de uma fortaleza no qual estavam representadas todas as regiões do Império sassânida. Diz-se ainda que seu exército contava com novecentos elefantes e o seu harém com doze mil mulheres. - Com tal poder, não é de admirar que esse rei quisesse governar o mundo! - exclamou um cavaleiro. - Era o que ele pretendia - concordou Oswald -, mas Bizâncio erguiase no caminho das suas ambições. O choque foi inevitável. Durante vinte anos, quase sem trégua, Cósroes II lançou suas tropas contra as fronteiras bizantinas. Uma após a outra, as províncias de Osroene, da Síria, da Anatólia e depois do Egito assistiram à invasão dos persas e das hordas mongóis utilizadas como tropas auxiliares. No início do século sétimo, preparavam-se para conquistar a Calcedônia, no mar de Mármara, em frente a Constantinopla. Porém, a tomada de Jerusalém, poucos anos depois, foi o mais doloroso episódio de toda essa larga provação para a cristandade. - Foi nessa altura que surgiu Heráclio - disse meu irmão Sean MacLachlan. Os cavaleiros estranharam que o escocês estivesse tão bem informado. - Não se admirem! - exclamou padre Causantin. - Temos em nossa companhia alguém que considera o Imperador de Bizâncio um
verdadeiro santo. - Não está longe da verdade - disse Oswald. - Heráclio assumiu o poder aos trinta e seis anos de idade. Contam os cronistas que ele era um homem sério e de caráter bem formado. Um homem alto, dizem, de cabeleira avermelhada e barba espessa. Seu olhar era límpido mesmo quando encarava o inimigo. Falam também de sua bravura, uma bravura espantosa, pois não deixava a ninguém a honra de chegar primeiro ao coração da batalha. Um campeão no combate singular. Além do mais, era estrategista e diplomata, detentor de todos os dotes de um grande general e hábil em surpreender com seus argumentos a aliados e inimigos. Sobretudo era um cristão de fé ardorosa, entusiasta no serviço de Cristo e com o que ensinavam os Evangelhos. Pode-se bem dizer que foi o antepassado espiritual desses cavaleiros que, muito mais tarde, haveriam de desafiar todos os perigos para reconquistar o Santo Sepulcro. - "O primeiro cruzado"! - exclamou Sean. - Aquele de quem ouvi sua história chamava-o assIm. - É justo que o fizesse - confirmou Oswald. - Mas ele penou muito no início do seu reinado. Nada parecia poder deter as investidas dos persas. Num ponto ou noutro do Império Bizantino havia sempre uma região sendo atacada. No preciso momento em que Jerusalém caía, o inimigo aparecia outra vez em Calcedônia. As hordas dos ávaros, deixando os seus acampamentos na Hungria, invadiram a Trácia e vieram cercar Constantinopla. Com a Palestina e a Síria conquistadas, com Alexandria ocupada, Bizâncio sendo ameaçada por mongóis em terra e por persas pelo lado do mar, Heráclio chegou a pensar que deveria fugir para Cartago, do que foi dissuadido pelo patriarca Sérgio. Foi então que se deu a reviravolta, um verdadeiro milagre, e que tomou a forma de uma autêntica cruzada. Os exércitos responderam ao apelo do chefe da Igreja. Foram tomados pelo desejo de libertar o Santo Sepulcro e reconquistar a verdadeira cruz. O patriarca conclamou a todos: "Não tendes o direito de permitir que os magos ocupem a Cidade Santa - ele disse aos maiorais do
Império -, como não tendes o direito de deixar que a Santa Cruz seja objeto de escárnio em Ctesifonte!". E mais, sob sua ordem, todos os tesouros da Igreja foram colocados à disposição do Imperador. - Fala-se numa famosa carta que Cósroes teria escrito a Heráclio, uma carta insultuosa à sua honra e à sua fé - disse padre Causantin. E acrescentou: - Parece-me que o Imperador teve o bom senso de divulgá-Ia, o que fez com que cada bizantino se sentisse pessoalmente atingido. - A carta foi lida dos púlpitos! - exclamou irmão Oswald. - Dizia, entre outras coisas: "Pretendes colocar em Deus a tua confiança? Então, porque ele não salvou Cesaréia, Jerusalém e Alexandria das minhas mãos? Se me aprouvesse, eu teria também destruído Constantinopla. Quanto ao teu Cristo, não te deixes embalar por uma vã esperança. Ele nem sequer foi capaz de salvar-se das mãos dos judeus que o crucificaram!". - Ainda hoje essa carta parece insultar-nos a todos! - exclamou um cavaleiro. - No ano do Senhor de 622, começou a guerra santa - prosseguiu irmão Oswald. - Uma cruzada que duraria dez anos ininterruptos de batalhas. Heráclio lançou-se contra as tropas persas na Galácia e na Capadócia, repelindo-as de volta ao rio Eufrates. Ele atravessou de um salto a Armênia, sem se deter para reconquistar as províncias ocupadas, mas lançou-se Pérsia adentro. Tomou Erivan e vingou o saque de Jerusalém incendiando o templo masdeu de Tabriz. Nessa altura, o Império sassânida estava ferido de morte. - É estranho que o rei Cósroes II não tenha reagido - comentou o cavaleiro que pedira o relato. - Ele reagiu, não há dúvida - contrapôs Oswald. - A prova é que depois de uma sucessão de vitórias bizantinas, nos três anos que se seguiram os exércitos de Heráclio tiveram que ficar apenas na defensiva. No quarto ano, os ávaros restabeleceram a sua aliança com os persas e lançaram nova investida. Houve uma verdadeira corrida contra Bizâncio, na qual mongóis, eslavos e búlgaros marchavam lado a lado com medos e persas. Diante do perigo
iminente, o patriarca Sérgio, em cujas mãos estava a defesa da cidade, lutou com grande energia. Dizem que ele mandou passear a imagem da Santa Mãe de Deus sobre as muralhas, na primeira fila de combatentes. Deu-se o milagre: o inimigo recuou. Oswald fez uma pausa, visivelmente cansado. Sua voz baixara de tom. Padre Causantin insistiu para que adiasse o relato, mas ele não quis. - Ainda algumas palavras sobre o Imperador - acrescentou irmão Oswald, com humor. Heráclio havia se refugiado no Cáucaso, mas saiu do seu reduto e retomou a ofensiva após ter contratado contigentes mercenários. - Os turcos pechenegs! - exclamou o padre Causantin, recordando-se daquela que era para ele uma estranha aliança entre cristãos e infiéis. - Sim, os pechenegs ou patzinaks - confirmou o padre depois de vasculhar os anais de sua memória, enriquecida nas bibliotecas de Cluny. - Eram de raça turca e, como muitos outros, haviam migrado das estepes para o oeste. Oito tribos ao todo, cujos nomes eram tirados da cor dos seus cavalos. Os pechenegs lutam como as outras raças dos estepes, com armaduras de couro, e atirando flechas dos cavalos. Os bizantinos fizeram alianças com eles, com o objetivo de manter os magiares e os rus afastados de seus territórios. Capítulos de “Administrando o Império”, livro de conselhos para o filho do imperador Constantino Porphyrogennetos, são dedicados à importância da aliança com os pechenegs. "Se esta aliança for mantida, o território bizantino estará seguro, o comércio com a Rússia será próspero e os inimigos em potencial do Império, que tremem perante os pechenegs, não se atreverão a atacar." - recitou o padre, demonstrando gosto em dividir a atenção gerada por Oswald. - Recordo-me apenas de ter lido sobre uma das tribos das estepes: Qara-Bay, "a tribo da baía com cavalos cinzentos". - Mas continuemos com Heráclio e os primeiros cruzados - brindou um soldado do grupo dos saxões, volvendo as atenções para Oswald. - Foi o ano de 627 que viu a vitória mudar de lado. O Imperador
tomou Tíflis, atravessou a Armênia, invadiu a Síria e esmagou o melhor dos exércitos persas, perto de Arbelos, exatamente no mesmo lugar em que Alexandre, o Grande, havia vencido outro rei dos reis. Esgotada, a Pérsia pediu misericórdia. Era a vez dos bizantinos invadirem em incursões fulminantes os quatro cantos do Império sassânida. As cidades sagradas dos masdeus arderam por toda parte. Por fim, no ano de Nosso Senhor de 628, espalhou-se a notícia que todos esperavam ouvir. O próprio Heráclio a anunciou: "Caiu o ímpio, o orgulhoso Cósroes! Aquele que insultou o Cristo e a Virgem está morto; escutai o fragor da sua queda. Já arde no inferno com os seus iguais!". - Heráclio matou-o em pessoa? - perguntou um cavaleiro. - Não, foi destronado pelo próprio filho - informou Oswald - e executado no recinto que eles chamavam de "casa das trevas". A Pérsia masdeísta deixou de existir para sempre. Quando Heráclio reconduziu a Santa Cruz para Jerusalém, carregando-a ele mesmo sobre os ombros, aquela que muitos consideram a verdadeira "primeira cruzada” foi realmente coroada com a mais brilhante das vitórias. O relato agradara a todos os cavaleiros. Caminharam de volta às suas fogueiras comentando os feitos do passado dos quais haviam herdado a luta. A noite concentrara o frio naquele recanto pedregoso. As capas eram enroladas ao redor dos corpos aconchegados ao calor dos fogos. Rezávamos no silêncio de nossas almas para que a sensação do frio permanecesse nos dias seguintes e não entrássemos novamente na fornalha sem fim. Mas isso era uma clara ilusão. No dia seguinte uma grave notícia pesou sobre nós. Sob o calor renovado do sol uma pequena multidão corria em nossa direção dizendo que a armada fatímida atingira a costa perto do porto de Latáquia. Os navios genoveses se haviam incendiado e afundado. Duas barcas saxônicas estavam em fuga, perseguidas por navios da armada fatímida. Muitas armas de sítio foram perdidas e não chegariam aos cruzados. Uma fortaleza próxima do porto de Latáquia
fora tomada e era a nova base dos fatímidas. Lá estavam desembarcando soldados e muitas armas. Novas armadas estavam a caminho e o objetivo era atacar os cruzados quando estes atingissem as muralhas de Antioquia. Ouvindo a narração dos fatos decidimos partir de imediato. Teríamos de forçar a entrada na fortaleza e tomá-Ia impedindo a chegada de novos exércitos do Egito. Imediatamente iniciamos a marcha. Desenhamos várias estratégias no caminho, mas a real ação seria avaliada quando conhecêssemos os muros da fortificação e seu poderio. Avistamos a fortaleza. Do alto das torres podiam ser vistas as lanças prateadas. Era uma fortaleza considerável. Muito bem guardada por sentinelas em todo o mural. O passadiço estava repleto de soldados. Portavam armaduras reluzentes, contrariando algumas de minhas fantasias com soldados menos equipados. Começamos a discutir táticas das mais variadas. Franzíamos o cenho, as mãos dos nobres iam e voltavam dos queixos, coçavam suas barbas, mordiam os lábios... Nossos olhos estavam sedentos pela vitória em nossa primeira batalha na cruzada. Era de extremo valor aniquilarmos a força que se concentrava naquela fortaleza e ameaçava secretamente o êxito da cruzada. Os nobres e os capitães mantinham a mesma expressão concentrada. Dividimos nosso exército entre alguns nobres e cavaleiros a fim de pôr em prática o estratagema aprovado de forma unânime. Dois pelotões serviriam como lanceiros, caso os soldados da fortaleza nos atacassem. Essa era a idéia mais plausível diante da reviravolta que os fatímidas montavam. É normal estar confiante quando aquartelado entre muralhas, ainda mais pertencendo a um império como o dos fatímidas do Cairo. - Esses sarracenos são confiantes! - exclamava um cavaleiro frisão. Nossa idéia era que eles, tomados de uma confiança demasiada, partissem para nos esmagar por dois fIancos. Simularíamos o pânico dos derrotados e aí entraria o grosso de nossos soldados. A vitória
provável serviria uma apetitosa armadilha. O maior grupo de infantaria pesada seria dividido em quatro milícias e forjaria um possível cerco. Ao lançar dos dardos, deveriam forjar uma fuga. Três dos grupos seriam os primeiros a fugir dando a idéia de estar abandonando o grupo líder, onde os cavaleiros e estandartes estariam bem à vista. A presa mais importante daquela batalha estaria oferecida... Um quinto destacamento deveria enfrentar o avanço do exército fatímida a fim de atrasá-Ios. Era esse o momento de nos reagruparmos. Nos aproximamos da fortaleza e nela atiramos duas salvas de dardos incandescentes, enquanto deixávamos que nos assistissem montar as armas de sítio, também falsas. Soou o alarme no interior da fortaleza e os sarracenos revidaram suas cargas de flechas. Seu poderio era grande, logo, avaliando nossas forças e a montagem de nossas armas de sítio ainda em andamento, concluíram o que havíamos esperado: atacaram-nos de imediato antes que as armas estivessem prontas e nossas fileiras bem posicionadas. As portas da fortaleza se abriram e uma cavalaria sarracena saiu em nossa direção. Dada a ordem, os cornos soaram o falso canto da nossa retirada. Nossos pelotões debandaram em diferentes direções, formando quatro enormes meias-luas, pois o inimigo avistaria o fundo dos destacamentos em fuga, enquanto as frentes retornavam para uma investida frontal. As portas vomitavam cavaleiros fatímidas, que avançaram em gritos de triunfo. Era um ataque maciço. A glória era aparentemente toda deles. Ouvimos gritos de furor vindos da cidade. Os sitiados triunfavam. Nossa cavalaria se distanciava e os sarracenos corriam em nosso encalço. O pelotão que ficou na retaguarda endossava nossa fuga, pois tentava detê-Ios e atrasá-Ios; demonstravam pânico, numa farsa muito bem posicionada entre duas mentiras: a fuga da nossa infantaria e a proteção das falsas armas de sítio. O estratagema dera resultado. Nossa cavalaria estava bem
posicionada, encoberta pela confusão. Partimos contra eles. Quando nos viram, era tarde para se prepararem contra o nosso choque. O impacto foi tão violento que derrubou toda a linha frontal dos fatímidas. Parecíamos um só bloco de rocha. A massa humana se atracou numa luta renhida. Suas cimitarras encontravam o aço de nossas espadas pesadas e nosso golpe era sentido em cada sarraceno. Sarakénoí, era o nome que os gregos davam aos fatímidas e berberes, mas eles eram um povo distinto dos que habitavam a Síria e a Arábia, povos com quem posteriormente iríamos nos defrontar. Os sarracenos do campo de batalha estavam mais dispersos e nossa infantaria já fazia a reviravolta, como uma lua nova. A cauda partia, mas a frente voltava. Era uma maravilha ver nossa união em batalha, pois os quatro pelotões contornavam sinistros em direção dos inimigos como quatro serpentes malignas. O novo cerco aos fatímidas vinha agora de todas as direções e eles começaram a demonstrar pânico. Atiramo-nos contra seus escudos e cavalos num choque que estremeceu a terra. Pude comparar os rostos assustados dos soldados adversários e os nossos de predadores. Tudo seria arrasado. Os soldados fatímidas tentaram nos bloquear, mas nossa cavalaria fez-Ihes um rombo irrecuperável. Sua vanguarda estava destruída. Entramos e dominamos a fortaleza. Muitos foram mortos e os que restaram foram feitos prisioneiros. A fortificação era nossa. Encontramos muitas provisões e armamento pesado de sítio, nosso maior trunfo, já que a armada egípcia havia afundado os navios venezianos com nossas principais armas de cerco. Fizemos grande comemoração e por várias vezes os soldados cumprimentavam Fianna por sua bravura em combate. Ela gozava austero respeito, imposto com justiça, pelo poder de sua espada. Organizávamos nossa caravana para ir de encontro aos cruzados e nos unirmos ao cerco de Antioquia. Nossa posição seria de reforçá-
Ios na vanguarda reforçando o cerco com as pesadas armas de sítio. Levávamos também comida, pois soubemos que os cruzados haviam passado imensas necessidades.
Califa fatímida do Egito
CAPÍTULO IX ÀS PORTAS DE ANTIOQUIA O padre Causantin parecia não entender a gravidade da situação. Orgulhoso em ver todo o exército cruzado montar rumo certo à tão magnífica cidade, suspirou como se estivesse em recreio e disse: - Antioquia! A maravilha do mundo árabe. Cidade fundada no ano 300 antes do nascimento de Nosso Senhor. Na época do império romano era a terceira cidade mais importante do mundo... - gabavase como se nossa conquista fosse simples e levasse apenas um único dia. - Para os cristãos é especialmente sagrada - continuou. Lá fomos chamados de cristãos pela primeira vez. Já era costume padre Causantin e irmão Oswald discutirem de forma antagônica. - No entanto, Suleiman ibn Kurulmish invadiu-a com seus poderosos exércitos e a conquistou - cutucou então o monge Oswald. - Isso há mais de dez anos, meu senhor. E veremos se nosso cerco sairá vitorioso. Só se Deus assim o quiser - repeliu. - Que nosso cerco seja vitorioso e curto, irmão! - devolveu-lhe o padre Causantin. - Para que as aflições sejam menores, padre! E que Deus se apiede dos sofredores! - disse Oswald, chamando o padre à caridade e não ao entusiasmo da conquista. Estávamos acostumados com aqueles repentes de contenda entre os dois religiosos. Vários grupos de nobres cavaleiros estudavam as formas de invasão e procuravam obter todas as informações pertinentes à cidade, seus exércitos e seus líderes. Soubemos que Antioquia havia passado para as mãos do sultão Malik Shah e que este instalara um governador. O turcomano YaghiSiyan era o homem que a governava quando acampamos diante de
suas muralhas, naquele ano de Nosso Senhor de 1097. Este aliás, um ano que jamais irei esquecer. A cidade estava e permaneceu sitiada. Pensando que se tratava de tentativa de restauração da autoridade dos gregos bizantinos com a cumplicidade da população local, Yaghi Siyan resolveu expulsá-Ia. Engrossou nossas linhas, pois acabava de expulsar a maioria de sua população. A cidade, para meu espanto, era de maioria cristã. Sean observava tudo com cautela. Anotava tudo o que acontecia em seu livro de crônicas pessoais. Emerson orava pedindo bênçãos para os exércitos cruzados e que o suplício do sítio fosse curto. Sem dúvida o governador de Antioquia tomava medidas para agüentar a chegada de reforços. Mas quando viriam? Antes de nossa chegada os líderes cruzados souberam que Yaghi Siyan havia enviado seu próprio filho aos emires da Síria à implorar pelo socorro dos exércitos muçulmanos. Rezávamos para que nosso assédio fosse curto. Aguardávamos, esperançosos de que Antioquia caísse em nossas mãos antes da certeira chegada de reforços dos exércitos muçulmanos. Não seria bom sermos pegos entre as muralhas. Defenderíamos dois flancos. Melhor seria termos dominado a cidade e nos defendermos atrás das muralhas para depois atacar, contando com o cansaço dos sitiantes. Havíamos devastado tudo ao redor da cidade e não havia sobrado nada para alimentar um novo exército. Seria um cerco difícil. Enquanto esperávamos, notei que alguns sacerdotes presentes em nosso exército estavam acolhendo monges que haviam sido expulsos de Antioquia. Sean e eu nos aproximamos e escutamos a conversa dos monges. Os cristãos expulsos eram arranjados em fileiras e seriam transportados para a retaguarda dos soldados. Um deles, um velho monge cristão de rito bizantino, trazia notícias alarmantes aos sacerdotes latinos. - Yaghi Siyan sabe que tem seus domínios ameaçados! Soube que Chams ad-Dawla, o filho de Yaghi Siyan, foi enviado para pedir reforços para o emir da Síria. Se obtiver sucesso, o reforço estará aqui em uma semana de caminhada. - reforçou o velho monge, que
se chamava Alexandrinos. Nesse momento um capitão francês chamado Charles Pertignon, ouvindo a conversa, fez sinal para que outros cavaleiros se aproximassem dele. Mandou retirar o velho monge da fileira e este foi seguido por outros quatro monges mais jovens. - Contem-nos tudo o que sabem sobre os planos do governador interveio o capitão, olhando o monge bizantino de forma primeiro preocupada, depois ameaçadora. - Quais são os planos de Yaghi Siyan e a quem ele pedirá reforços, velho? - Até às estrelas! - disse Alexandrinos. - Não falta a quem pedir reforços no Oriente, meu senhor! - Seja específico, velho! - ordenou-lhe o capitão, como que a interrogar um prisioneiro. Arrastou-o pelos braços pedindo aos soldados que fizessem o mesmo com aquele pequeno grupo. Os monges bizantinos, empurrados e intimidados pelos cruzados franceses, obedeciam à ordem dada. Já não sabiam se aqueles eram libertadores da cidade ou dominadores ferozes. O capitão chamou um dos cavaleiros líderes de seu exército. Um último baque no velho monge para que ele andasse rápido foi suficiente para ferver o sangue de Sean e o também o nosso. Os franceses nos chamaram primeiro de flamengos, depois de alemands e por último de saxões. - Somos escoceses, porco! - disse-lhe Fianna, olhando em fogo para o cavaleiro, desembainhando sua espada. - E não permitimos que sacerdotes sejam mal tratados! Damos a eles o respeito que merecem e daremos a vocês o mesmo!
Sean MacLachlan Fianna bateu-lhe com um golpe que arrancou seu escudo. Os franceses se arvoraram e o cavaleiro, furioso, sacou sua espada e partiu em direção a Fianna. Conhecendo nossa irmã, não a ajudamos, pois sabíamos que ela daria conta do francês. - Mulher! Hoje você morre! E sem martírio! - Martírio é a sua pouca masculinidade! O cavaleiro francês sacou sua espada, mas Fianna arrancou-a de suas mãos antes que pudesse erguê-Ia. Irritado, atirou-se contra nossa irmã e esta lhe deu uma espadada no topo da cabeça, o que provocou uma gargalhada geral no grupo de escoceses e saxões. O golpe foi dado com a folha de Kildare, mas a espada de Fianna era pesada e deixou grogue o francês por um instante. Ele tornou a ficar ainda mais furioso e pediu a espada de um de seus cavaleiros que lhe entregou de imediato. Partiu ele em direção a Fianna, e desta vez ela o acenou com um golpe mortal no pescoço com a lâmina de Kildare. Até aí ficamos alerta, mas não interferiríamos. Outro cavaleiro, um gigante de cabelos amarelos, que parecia o mais temido do grupo, pegou uma clava e girou contra o rosto de Fianna. Ela desviou por duas vezes e se desequilibrou, quando outros cavaleiros avançaram na direção dela. Antes que esboçasse reação, Sean deu um golpe no gigante com seu escudo que o francês foi parar nos pés de seus soldados. Por tratar-se de um nobre, urrou a ordem de ataque. Foi um desastre. Rebentou uma contenda violenta entre nós e os franceses. Saltei de espada em punho e pude contar várias mortes. Emerson por uma segunda vez imergia no campo de batalha. Choviam franceses sobre nossas cabeças, mas o braço dos escoceses e saxões permaneceu firme. Sean matou o cavaleiro francês com um golpe tirado de sua própria clava. Cuspiu em seu corpo débil. Girou a clava contra os franceses e estes forram derrubados como trigo, apesar de sua famosa ira em
combate. Lutamos por algum tempo e os saxões fizeram boa semeadura no campo da morte. Foram os alemães que conseguiram dissipar a batalha. Um dos seus principais líderes acorreu em nosso socorro com uma grande tropa de soldados. Fizeram todos cessarem a luta. Uma grande mortandade se fez naquela tarde infeliz. A maioria de franceses. O líder alemão era um barão chamado Hugo Wolfenstein. Tivera problemas anteriores em disputas com os franceses e foi simpático a nossa causa. Fianna estava ensopada de sangue, mas dei graças pelo sangue ser dos nossos inimigos. Depois daquele gesto arrogante, assim os considerei. E pude ver que assim Wolfeinstein também os considerava. Fomos acolhidos em seu acampamento. Água nos foi servida e os feridos foram tratados. O barão trazia também sua irmã e sua cunhada para a cruzada, e elas proveram roupas limpas para Fianna. Banqueteamo-nos com ele em sua tenda. Contamos-lhe todas as nossas aventuras e ele contou-nos as suas. Comemorou mais de uma vez a derrota que infligimos naqueles cavaleiros franceses e brindou a nossa irmã, cuja paixão na batalha foi notada. Providenciou para os MacLachlans cavalos e vestes de cavalaria. Disse que tínhamos merecimento para tais presentes. Insistiu para que aceitássemos, o que fizemos de bom grado. Permanecemos a partir daquele dia desastroso nas proximidades do acampamento alemão. Conversávamos com o barão sobre estratégias a serem adotadas, pois o sítio se prolongara.
Fianna contra os franceses
Avaliávamos as táticas e o moral das tropas de Antioquia. A quem o governador pediria ajuda? Damasco era uma potência considerável, mas as disputas com Antioquia ainda eram frescas. Além do mais, Dukak, o emir de Damasco, se preocupava com seu próprio reino. Nutria ódio cego por seu irmão Ridwan, sultão de Alepo, a principal potência militar da Síria. Assim, esses eram antagônicos, para nossa bênção. A Síria estava dividida pela "Guerra dos Dois Irmãos". O emir de Damasco e o sultão de Alepo. O ódio entre Dukak e Ridwan era tão forte que nada, nem mesmo a ameaça ao Islã vinda do Ocidente poderia fazer com que pensassem sequer em uma trégua. Wolfeinstein ainda comentava sobre o sultão Ridwan ser suspeito de usar membros da seita dos Assassinos. Perguntei-lhe sobre tal seita e ele explicou-me que eram mercenários contratados por reis que precisam eliminar seus adversários através de assassinatos, traições e até mesmo feitiçaria. Diziam que Ridwan estava sob o domínio de um "mago-astróIogo", o líder dessa seita recém-formada. Os monges prestavam atenção nessa parte da conversa e evitavam novas discussões. Sean e eu fizemos uma breve pausa. Comentamos sobre as disputas que dividiram povos no Oriente e no Ocidente. - O poder pode ser um instrumento para levar homens à loucura a ponto de destruírem a própria família - eu avaliava. Mas essa diferença cega naquele momento nos ajudava. Ao menos essa era nossa esperança. Restava saber se Dukak teria coragem de trazer seus exércitos tão perto de Alepo, a cidade de seu irmão, o poderoso sultão. A última coisa que precisávamos no momento era um exército nos encurralando contra as muralhas de Antioquia. Eu sabia que meus irmãos também gostariam que a covardia de Dukak prevalecesse e que o sítio fosse o mais breve possível. Dois meses se passaram. Em dezembro do ano de Nosso Senhor de 1097 passamos de sitiantes a vítimas da fome. Centenas de cruzados pereceram e tivemos que abater a maior parte de nossas
montarias. A chuva caía sem cessar sobre nós e a cidade, transformando o acampamento em um pântano lamacento. Além disso, a terra não parava de tremer. Os terremotos pareciam querer nos expulsar dos arredores da cidade, e assustaram ainda mais o exército quando os monges disseram que estávamos sendo vítimas de punição divina. Após essa revelação, jogos de dados e bebidas foram proibidos, as prostitutas afastadas do meio dos soldados e o jejum era solicitado por todos os monges e sacerdotes. Naquele momento sofríamos muitas deserções. Por causa da fome que assolava o acampamento, foram feitas pequenas expedições nas redondezas, com o objetivo de encontrar carneiros, cabras ou até mesmo pilhar alguns celeiros.
Barão Hugo Wolfenstein
No dia 31 de Dezembro, Sean e eu saímos em uma dessas expedições, mas, ao invés de provisões, encontramos o emir Durak, de Damasco, e seu exército, que cavalgava com Chams al-Dawla, filho do rei de Antioquia. O reforço tão desejado finalmente chegava a Antioquia. A situação ficou desesperadora. O exército de Dukak era muito maior e o nosso agrupamento estava abatido pela fome. Os turcos conseguiram nos cercar sem dificuldades, mas o rei Dukak não deu a ordem de ataque. Soube então que as palavras do monge estavam certas: Dukak havia desistido de ajudar Antioquia, pois temia seu irmão Ridwan mais do que os cruzados. Nosso agrupamento se aproveitou da hesitação dos turcos para se desvencilhar do cerco e atacar, infringindo pesadas perdas aos damascenos. Essa foi nossa melhor estratégia. Intimidou os inimigos. Durante a batalha, nosso pequeno exército pode mostrar que nem mesmo abatido pela fome seria derrotado. Sean naquele momento empunhava Gaoth Cerridwen e estávamos todos vestidos como cavaleiros, graças à cortesia de nosso amigo, o barão Hugo Wolfeinstein. No final do dia, não havia nem vencedores e nem perdedores, mas as grandes perdas sofridas pelos guerreiros turcos já eram motivo suficiente para Dukak dar meia-volta e fugir para sua cidade. Apesar da desistência de Dukak causar desespero aos sitiados, ela não ajudou a melhorar a situação em que nosso exército se encontrava. Em janeiro do ano de Nosso Senhor de 1098, Antioquia ainda aguardava reforços e nós continuávamos a sofrer com a falta de provisões. Ficamos sabendo o rei de Antioquia, abalado pela covardia de Dukak, resolveu pedir reforços para Ridwan, em Alepo. Novamente, Yaghin Siyan enviou seu filho Chams para a difícil e perigosa tarefa. Pelo pouco que sabíamos sobre as relações entre Yaghi Siyan e Ridwan, podíamos imaginar que Chams preferia cortar
sua mão a oferecê-Ia para Ridwan, mas a notícia nos preocupou. Na busca desesperada por provisões, fomos forçados a pilhar e devastar as terras nos arredores de Alepo. A falta de alimento em nosso acampamento havia chegado a um ponto crítico e Ridwan poderia aceitar a aliança não para proteger Antioquia, mas para proteger a si próprio, e essa era sua mais provável atitude. E foi exatamente o que aconteceu. No dia 9 de Fevereiro, os sentinelas de Antioquia já podiam avistar os milhares de cavaleiros vindos de Alepo, mostrando o sucesso da missão de Chams. A fome também atingiu as nossas montarias e só podíamos contar com no máximo dois mil cavaleiros. Podíamos ouvir a população de Antioquia celebrando a chegada de reforços atrás das muralhas, ansiosos para que o combate, que poria fim ao sítio de mais de cem dias, começasse imediatamente. Mas as tropas de Alepo montaram acampamento, para prepararem-se melhor durante a noite, e a ordem de batalha foi adiada para o dia seguinte. Quando vimos o local de acampamento escolhido pela tropa de Ridwan, já sabíamos que a sorte estava a nosso favor. O sultão de Alepo, mesmo em vantagem numérica em relação a nós, decidiu proteger suas tropas e acamparam em uma estreita banda de terra entre o rio Oronte e o lago de Antioquia. Foi o temor de Ridwan pelo nosso exército, mesmo debilitado pela fome, que selou o seu destino. Lá eles não teriam como se defender de um ataque surpresa, e foi o que fizemos. Decidimos avançar contra Ridwan durante a madrugada. Os alepinos estavam quase totalmente indefesos já que, naquela estreita faixa de terra, qualquer movimento lhes era proibido. Atacamos sem piedade: os alepinos não podiam usar seus cavaleiros arqueiros, suas montarias empinavam derrubando muitos soldados, que eram pisoteados sem ter a chance de se levantar. Foram obrigados a enfrentar os cruzados no combate corpo a corpo. Mesmo enfraquecidos, os cruzados e suas armaduras tinham uma enorme vantagem sobre o inimigo.
Ao ver a enorme carnificina que estávamos causando no seu exército, Ridwan só pensava em fugir da forma mais rápida e desordenada possível. Havíamos derrotado dois reis e seus poderosos exércitos em menos de dois meses. Eu já acreditava que nosso exército havia sido abençoado. Quando amanheceu, foi a vez do exército de Antioquia fazer sua investida. Os defensores da cidade organizaram seu exército para sair de uma forma maciça, obrigando nossos homens a recuarem. Pouco antes do meio-dia, eles, em uma excelente posição, investiram contra nós. Mas, pouco tempo depois, o emir Yaghi Siyan manda seus homens recuarem; ele recebera a notícia de que Ridwan e todo o seu exército caíram aos nossos pés. O exército de Antioquia mal conseguiam voltar para dentro da cidade quando meus irmãos e eu presenciamos uma cena macabra. Os cavaleiros que nos ajudaram a derrotar os alepinos voltaram carregando cabeças mutiladas, que foram atiradas para dentro da cidade com nossas catapultas. Antioquia foi dominada por um silêncio de morte. Apesar das vitórias, nosso exército estava muito enfraquecido. Precisávamos manter a sórdida rotina de pilhagens e saques de territórios vizinhos para conseguir algumas poucas provisões. Mantínhamos o sítio em Antioquia, mas começava a imaginar por quanto tempo agüentaríamos essa situação. Yaghin Syian e seu filho Chams defendiam a cidade mesmo após perder o apoio dos dois reis inimigos. A única esperança para o rei de Antioquia era o atabeg Karbuka, de Mossul. Algumas semanas passaram e o sítio se tornava cada vez mais desesperador. A fome e o sofrimento transformava nossos homens em bestas selvagens. Sean e eu vimos como um espião de Antioquia havia sido morto, assado e devorado por soldados que um dia já haviam sido homens honrados. Enquanto devoravam a carne do espião, gritavam para as muralhas da cidade que todo espião teria o mesmo destino. Esse fato com certeza assustou muitos aliados de Yaghin Siyan, fazendo com que o
emir não conseguisse mais nenhuma informação sobre nosso exército. O bloqueio da cidade também havia se tornado mais rigoroso e o reabastecimento mais difícil. Sentia que o cerco começava a preocupar não somente o emir, mas toda a população. Mas as garras da morte e do desespero cravavam suas mãos dos dois lados da muralha.
Oração dos muçulmanos a Maomé Em junho do ano de Nosso Senhor de 1098, nosso exército e o inimigo estavam esgotados. Havíamos tomado a cidade, mas Chams resistia com heroísmo. Assim que invadimos a cidadela, no dia 3, Chams se entricheirou com alguns fiéis soldados no topo do monte Habib-na-Najjar e de lá atiravam flechas que derrubaram muitos cruzados. Todas as nossas tentativas de tirá-Ios de seu posto foram rechaçadas com pesadas perdas para nós. Chams também conseguiu a proeza de ferir o chefe de todo o exército cruzado, o franco-normando Bohémond de Taranto, outro gigante guerreiro de cabelos louros. Ferido, Bohémond tentou negociar com o príncipe sua rendição em troca de um salvo-conduto para deixar Antioquia. Mas isso enfureceu Chams ainda mais, e ele vociferou do alto de seu posto: - Vou lutar por minha cidade até meu último soldado! Este território herdei de meu pai! Não me faltam flechas ou provisões! Vocês, franjs, morrerão aos milhares! Não pude deixar de admirar a determinação de Chams. Essa admiração cresceu ainda mais quando soube que o emir Yaghi Siyan havia fugido no momento em que havíamos invadido sua cidade e que coube somente a Chams defender Antioquia. Essa determinação nos obrigou a desistir de atacar a cidadela para apenas voltar a cercá-la. Três dias se passaram sem que a situação mudasse, até que escutamos os urros de alegria de Chams e seus homens. Eles louvavam os céus, choravam e gritavam "Allahou Akbar!", que eu soube pelos monges que significava "Deus é grande!". A alegria de Chams era proporcional ao nosso desespero: o grande exército do atabeg Karbuka havia chegado. Fomos forçados a nos abrigar atrás das muralhas e passar de sitiantes a sitiados. Nosso exército estava extremamente enfraquecido, não somente pelas perdas causadas pelas flechas dos turcos, mas principalmente pela fome. Fora das muralhas ainda havia a possibilidade de
conseguir provisões nos arredores, mas agora a situação era mais difícil. As reservas da cidade, com as quais estávamos contando, estavam praticamente esgotadas. Não havíamos comido nada desde a tomada da cidade, o que forçou os nobres a abater as montarias sobreviventes enquanto o restante do exército sobrevivia de restos de ervas. Agora era a nossa vez de sentir os horrores do sítio. Tudo o que nos restava era aguardar pela ajuda divina, que chegou mais cedo do que o esperado. Ainda no mês de junho, um monge reuniu o exército e nos revelou que havia uma lança do Messias enterrada no Kussyan, o grande edifício de Antioquia. - Se acharem a lança, lutem sem medo, pois vencerão qualquer exército inimigo, não importa seu tamanho! Se não a encontrarem, a morte é certa. Os turcos os esmagarão e a cidade estará perdida para sempre. Jejuem e façam suas penitências por três dias. Depois entrem no Kussyan e cavem em todos os lugares. Aquela profecia parecia ser o milagre que estávamos esperando. Meus irmãos e eu obedecemos às instruções do monge e, dois dias depois, outra boa notícia chegava aos nossos ouvidos. Um de nossos espiões, que havia conseguido se infiltrar entre os turcos, descobriu que o enorme exército muçulmano estava dividido. Os emires que vieram na expedição de socorro junto de Karbuka estavam desconfiados que, se Karbuka conseguisse derrotar os franj e salvar Antioquia, seu poder e influência cresceriam e não haveria força na Síria capaz de se opor a eles. O temor dos emires uns pelos outros era muito maior do que qualquer outro. Sua desconfiança e inveja seriam nossa maior vantagem e sua união, a nossa morte.
Cerco de Antioquia Três dias depois, o monge nos reuniu em Kussyan para procurar pela lança do Messias. Escavávamos por todos os lugares. Em pouco tempo um dos monges a encontrou. - Rejubilem-se, pois a vitória é certa! - exclamou, levando todos a urrarem de alegria. Foi decidido que a batalha seria em dois dias. Enquanto esperávamos, Sean contou-nos o segredo do monge: ele viu quando o monge enterrou a lança durante a madrugada, tomando o cuidado de apagar seus rastros! Um plano simples de um monge astuto que conseguiu dar forças a toda uma tropa ora enfraquecida pelo cansaço e pela fome. No dia da batalha sabíamos que os emires estavam envenenados pela discórdia e que um atraso na ordem de ataque de Karbuka podia pôr fim à frágil união. Aproveitando dessa discórdia, saímos pela porta da cidade em pequenos grupos. Essa manobra instigaria ainda mais a impaciência e a desconfiança de seus aliados, pois evitaria que Karbuka nos atacasse até que todo o exército estivesse fora da cidade, por medo que voltássemos para trás das muralhas e o sítio fosse ainda mais prolongado. Enquanto o restante do exército saía aos poucos, podíamos ver claramente o grande número de deserções do lado inimigo. Os emires discutiam entre si, provavelmente acusando uns aos outros de traição e covardia. Karbuka logo ofereceu uma trégua. Respondemos sua oferta investindo com nosso exército antes que ele terminasse. Quando nos chocamos com os cavaleiros arqueiros de Karbuka, os outros emires abandonaram a luta e o deixaram sozinho no campo de batalha. A trégua pedida pelo atabeg de Mossul o desmoralizou, o que reforçou a nossa segurança na batalha.
Assalto a Antióquia Entre os emires desertores, foi reconhecido o rei louco Dukak, de Damasco, que saía tranqüilamente do campo de batalha. Senti um enorme desprezo por ele, pois era a segunda vez que, com enorme covardia, negava socorro aos muçulmanos. Isolado e sofrendo pesadas perdas, o atabeg de Mossul recuou e iniciou uma fuga jamais vista por nós. Temendo uma armadilha dos turcos e sabendo que Karbuka estava abandonado pelos outros emires, decidimos não os perseguir e deixar o atabeg e suas tropas voltarem para sua terra. Antioquia finalmente era nossa.
Tomada de Antioquia Mas quando entramos em vitória, o que vimos foi uma tremenda derrota: Antioquia ardia em chamas. O sangue corria não somente de soldados, como mandam a honra e os códigos de guerra, mas principalmente de mulheres e de crianças. Todos tentavam fugir pelo labirinto de ruas, com as casas incendiando, porém, os cavaleiros francos alcançavam suas vítimas e ceifavam-lhes a vida. A vida, aliás, nunca teve valor tão baixo diante de meus olhos. O desejo de que uma força muçulmana irrompesse pelos portões pondo os cruzados francos para correr me assaltava naquele momento. Cruzados, aliás, era um título indigno para aqueles carniceiros.
Massacre em Antióquia Chorei ao ver meu irmão Emerson desabar sob o peso da extrema decepção diante daquela desgraça praticada contra tantos inocentes, desontando para sempre a história da cristandade. O ímpeto dos francos só cessou quando o mar de sangue envolvia os corpos inanimados. Dizia adeus aos cornos de fumaça. Cumprimentei o nevoeiro enfurecido. Saudei o fogo do céu. Honrei a luz mortal da lua cheia. Supliquei aos corvos todo mau agouro. Que o nosso navio rodopiasse na esteira de sangue. Entrei em núpcias com a morte. Desejava as crias vigorosas da loucura. Justificava o turbilhão dos pesadelos vindouros. Estava presente na lapidação das injustiças. Dela éramos parceiros e cúmplices. E que nossa culpa fosse punida com severidade. Pois pesava sobre meus ombros o futuro da cristandade. Revoltamo-nos, todos ao mesmo tempo. Lançamo-nos contra alguns soldados cruzados. Francos, na maioria. De sua embriaguez acordariam no inferno, no colo do demônio. Marcamos nossa indignação com sangue. Sangue esse que jorrou de francos, normandos, aquitanos e italianos, que, sem respeito algum pelos vencidos, pela cruzada, pelos reis e príncipes do Ocidente, prestaram em seu último ato o desrespeito total às leis de Deus. Nobre foi a intenção, mas vil foi a ação dos cruzados francos e normandos em Antioquia. A cruzada para nós havia terminado. Seu ideal, corrompido; nossos sonhos, destruídos pela volúpia insana dos vermes embriagados. Sean e Conn escolheram prosseguir acompanhando a cruzada, a fim de tentarem frear as injustiças que testemunhassem. Seriam novos arautos da morte para aqueles que exterminam a pureza e a verdade.
O arauto da morte Sean MacLachlan
O arauto da morte Conn Macachlan
CAPÍTULO X OLHO DE LÚCIFER Sean e Conn haviam permanecido no Oriente. Talvez tombassem como tantos outros mártires. Eu, Darlugdach, meu irmão Emerson, e minha irmã Fianna MacLachlan retornávamos à nossa tão amada Escócia. Dos cinco irmãos, um havia partido como monge e quatro como guerreiros para a Terra Santa... De lá voltávamos abençoados: dois seriam mártires no reino dos céus. Emerson seguiria sua vida de monge em paz. Fianna voltava como a guerreira que lideraria o clã MacLachlan. O céu possuía novos combatentes... E a terra, novos cavaleiros e missionários. Fomos recebidos com grande festa e galanteria por nossos conterrâneos... Muito se comemorou... Muito hidromel se bebeu. No dia seguinte fomos visitar o nosso mestre espiritual, o eremita lan MacKollum em seu novo ermitério no nosso território. Ele demorou a aparecer fora da caverna, coberto com suas peles rústicas, mancando de uma perna, arqueado como um pássaro. Subimos. Ele demorou a nos reconhecer. Estava muito velho e achamos que estivesse senil ou cego. - Malditos MacLachlans! - gritou. Depois soltou uma gargalhada que ecoou nas Highlands. Reconhecera-nos; talvez por nossos tartãs. - Malditos MacLacWans! Abraçamo-nos, num abraço afogado, parido de nossa alma. Emerson chorou em seus ombros. Fianna beijou sua testa como a um saudoso pai. Contamos ao velho eremita toda a nossa aventura na cruzada, nossa busca pelo sagrado e as tremendas dificuldades que havíamos
passado. Sobre a nova missão de Sean e Conn, sua busca pela justiça e sua entrega pessoal ao martírio. O velho ouvia tudo como se enxergasse as imagens em nossa memória. Como se as sorvesse... Como se as sentisse.
Sean MacLachlan Depois de muito contarmos foi a vez dele falar, mais uma vez em tom profético e misterioso. Ele pôs-se de pé e olhou para nós que estávamos em volta da fogueira, o vento gelado soprando em seus cabelos longos e seus olhos adquirindo o brilho da noite... - No futuro, surgirá uma ordem decrépita, feita da aliança entre homens poderosos e demônios por meio do Olho-Que-Tudo-Vê, o Olho de Lúcifer, a fim de escravizar todo gênero humano à sua servidão. Ninguém poderá comprar ou vender sem possuir a marca da besta sobre a fronte, isto é, ser maligno e corrupto de mente e no espírito; e também na mão, onde reside a ação do trabalho do homem. As ondas de desejo irão corroer a alma dos homens, cegando-os. A poderosa ordem causará, em seu avanço faminto, a queda da fé. O mundo evitará Deus. Irá esquecer-se Dele... Mas assim como os cavaleiros mais fortes são colocados na vanguarda de um exército, Deus ordenará seus guerreiros mais fortes, no tempo do Anticristo. Esses cavaleiros sofrerão as piores tribulações...Mas irão batalhar, não por glória sua, mas pela glória de Deus! E você, MacLachlan, preparem-se! Porque vocês novamente irão batalhar! A voz do velho soou como um trovão em nossa alma, e ele prosseguiu: - Nos tempos da grande apostasia e da grande tribulação, o Coração de Deus será o único refúgio seguro. Mas vocês batalharão, MacLachlan! Como disse o profeta: "Nesta terrível luta sairá do mar, para ajudar o dragão, uma besta semelhante a uma pantera”. A seita do Olho-que-Tudo-Vê irá atuar na sombra, no escondimento, de modo a estar em toda parte, em todas as casas, trazendo suas blasfêmias e tormentos a todas as famílias. A besta negra soará, através de seus dez chifres, toda sorte de injúrias contra Deus e seus filhos! Os homens de fé e boa vontade serão perseguidos como criminosos. Os poderosos chifres da besta soarão como seus instrumentos de comunicação contra as leis de Deus. Atacará as virtudes que conduzem a humanidade pelo caminho do amor e da
santidade. Atacará sem cessar a fé, a esperança, a caridade, a prudência, a fortaleza, a justiça e a temperança. A besta vomitará contra Deus e seus filhos toda a sua imundície. Combaterá de forma traiçoeira, mas tenaz, impedindo as almas de percorrerem o caminho indicado pelo Pai e pelo Filho, e iluminado pelo Espírito Santo. Contra as virtudes ela envenenará o coração dos homens difundindo, através de seus poderosos chifres, os sete vícios capitais. Entorpecer o coração dos homens com os vícios será sua principal tarefa. À fé ela opõe a soberba; à esperança a luxúria; à caridade a avareza; à prudência a ira; à fortaleza a preguiça; à justiça a inveja; à temperança a gula. Aos que se tornam vítimas dos sete vícios capitais, o afastamento de Deus é inexorável, pois prestarão culto exclusivo aos vícios. - Quando isso irá ocorrer, MacKolIum? - indagou Emerson, chocado como todos nós. - O Mal se esgueira entre nós - continuou Ian MacKolIum. - A raiz da pirâmide do poder está se formando através da soma da volúpia dos que desejam estar acima do Eterno. Edifica sua base com os pensamentos insanos dos mortos-vivos, que pousam seus corações sobre a pedra angular. O homem não possui forças suficientes para tal enfrentamento! Necessitará mais que nunca rogar a Justiça de Deus e sua força. E vocês, MacLachlan, preparem-se! Pois irão batalhar ao lado da Justiça Divina. Vocês, cavaleiros das virtudes, não se esqueçam de seu emblema! Lutem pelas virtudes e pela Justiça de Deus! Lutem pelas virtudes e pela Justiça de Deus! - gritou o ancião. - Lutem, MacLachlan! As palavras ecoaram nas Highlands, em minha alma e na alma de meus irmãos. Lembraríamos para sempre da coerência da pregação de Ian MacKollum e as inscrições na cripta dos MacLachlan, as sete virtudes, e esperaríamos estar preparados para quando a profecia do eremita se cumprisse. Mas tudo isso, pelo que o velho nos disse, ainda irá demorar à acontecer. Mesmo assim Fianna MacLachlan ergueu-se, olhou nos olhos de
todos, desembainhou sua espada Kildare, elevou-a aos céus e gritou: - Não por glória nossa, mas pela glória de Deus! Não pelo reino da Terra, mas pelo Reino do Céu! Levantamo-nos, erguemos nossas espadas e fizemos o mesmo, o que foi acompanhado pelo ancião, que ergueu aos céus seu rústico cajado. E nossos gritos ecoaram e viajaram como o som das gaitas de fole, para longe, carregados pelos ventos gelados da Escócia.
Fianna MacLachlan
O clã MacLachlan
CAPÍTULO XI DEIXANDO OS VENTOS GELADOS No ano de Nosso Senhor de 1147, Angus MacLachlan partiu da Escócia o rumou com seus irmãos e compatriotas em direção à Terra Santa.
CAPÍTULO XII POR MAC AEDAN Bertoldo, o Abutre, começou a subir a duna mais alta. As pernas curtas pediam um esforço dobrado. Ofegava à medida que subia e o coração batia acelerado. Chegando ao topo, enterrou o corpo na areia escaldante, limpou o suor da testa e aguçou o olhar para a entrada do desfiladeiro. O silêncio era absoluto a não ser por sua respiração. Esperou que se acalmasse. O pequeno genovês aprendera a duras penas que a cada homem a Providência divina concedia uma virtude ou, o diabo, um vício, do qual tirar proveito para se acomodar na vida. Ele nunca passara de um guerreiro medíocre, sem precisão regular com um arco e sem força suficiente para rodar uma espada e decepar membros e cabeças. Mas estava ali, no cimo da duna, como um condestável com poder para determinar o momento em que um grupo de homens atacaria e, um outro, seria trucidado. O que lhe valera na vida fora o seu dom de enxergar longe e sua habilidade em nunca se deixar enganar pelos efeitos de miragens. Agora já não tinha que se expor à morte como os companheiros, todos vivendo ou morrendo às ordens do mestre Girolamo Campanella. Era ele quem primeiro enxergava o inimigo, quem calculava o seu número. Eram suas informações que estabeleciam a tática para o ataque. Depois da batalha, tinha permissão para percorrer o campo e oferecer o golpe final a qualquer inimigo que relutasse em morrer. Por esta função foi que lhe deram o apelido de Abutre. Bertoldo não ligava. Era o preço que pagava pela vantagem de um saque lucrativo. Usava uma adaga para o serviço com a mesma destreza com que ia enfiando na bolsa moedas ou mesmo alguma jóia que a morte desapropriava. Sabia o que procurar no horizonte. O inimigo já fora avistado e
examinado por espiões à beira do último oásis. Desta vez não haveria o alvo das cruzes vermelhas de cavaleiros cristãos, nem o brilho das cimitarras denunciando a presença de mouros. Era uma gente estrangeira ao lugar, liderada por um gigante ruivo. Alguns a cavalo, outros deixando as marcas dos pés na poeira dos caminhos. Todos armados, o que podia significar que guardavam mais do que o próprio corpo. O mais importante eram as duas carroças na retaguarda. Recomendara mestre Girolamo que as queria sem danos nas rodas ou no seu recheio. Tanto podia tratar-se de um grupo de cavaleiros peregrinos como de mercadores e, neste último caso, vinham com a intenção de usurpar uma rota comercial que não lhes pertencia. Só havia uma maneira de saber, e ele, Bertoldo, estava ali para dar o sinal assim que homens e animais se metessem pela garganta do desfiladeiro. O inimigo surgiu entre ondas de calor. Já não progredia num grupo compacto como aquele que havia chegado ao oásis. Dos que iam montados, muitos haviam apeado e puxavam as montarias pelas rédeas, querendo poupar os cavalos, misturando-se aos que caminhavam. Bertoldo observava e, à medida que se aproximavam, sua boca seca ia se espichando num sorriso. Sabia que aquele grupo, malgrado estar todo ele armado, desconhecia ainda que uma marcha sob o sol escaldante do Oriente afrouxava os passos e as vontades, fazendo cada homem vaguear sem defesas para o seu destino. Um silvo curto saiu dos seus lábios. Outro respondeu à distância. O inimigo fora avistado. O grupo avançava lentamente. Um duplo silvo devia enviar os arqueiros para o alto das dunas, mas Bertoldo hesitava, os olhos fixos no gigante ruivo. Ele parecia deixar-se conduzir pelo cavalo, a cabeça pendendo sobre o peito. Outros diriam mesmo que adoecera. Mas Bertoldo não se deixou enganar. Viu a mão direita que não abandonava o punho da espada e a esquerda que não afrouxava as rédeas da montaria. O gigante não dorme nem vagueia, Bertoldo murmurou para si próprio. Antes de chegarem ao desfiladeiro, obedecendo a um sinal do chefe,
os homens estancaram. Um cavaleiro que estava na retaguarda galopou para frente. Agora olhavam o desfiladeiro com desconfiança e argumentavam entre si. Bertoldo esperou sem acreditar que um grupo tão cansado e desgastado pela viagem se propusesse a contornar as dunas. No desfiladeiro havia zonas de sombra. O gigante hesitava. Por duas vezes alçou-se na montaria voltando o rosto para os homens na retaguarda. Via aquilo que Bertoldo já enxergara do alto. Ele arrastava atrás de si um grupo de homens exaustos. O cavaleiro ao seu lado tocou seu ombro de maneira amigável como se fora para lhe mostrar apoio num momento de difícil decisão. Então, o gigante fez novo sinal e o grupo avançou a passo lento na direção do desfiladeiro. O Abutre lançou dois silvos curtos no ar. Os arqueiros começaram a subir as dunas. Homens a cavalo esperavam um terceiro sinal, divididos em dois grupos. O primeiro fecharia a saída, e o outro avançaria antes que as carroças lá entrassem, separando-as da retaguarda. Quando a maior parte da coluna já se enfiara pelo desfiladeiro, o gigante ruivo fez novo sinal pedindo aos seus homens que apressassem o passo. Um bando de pássaros lançou-se ao ar numa súbita revoada, abafando os três silvos curtos que indicavam o momento do ataque. Os arqueiros escolheram seus alvos. As flechas voaram de todo lado acompanhadas por gritos ferozes que desciam das dunas. A boca do inferno se abrira. O gigante sacou a espada. - Protejam-se! Para as escarpas! - ele gritou, e sua voz ecoou por todo o desfiladeiro calando as vozes infernais. Os homens que ainda estavam em pé, atônitos, como se acordassem em novo pesadelo, olharam em volta, segundos antes de se lançarem para trás das rochas. Na boca do desfiladeiro, enquanto durava a chuva de flechas, homens pularam de seus cavalos para as carroças e degolaram os seus condutores. Novos cocheiros atiraram os corpos para o chão e se afastaram com o saque, dando passagem aos que deviam investir contra a retaguarda. Os poucos arqueiros que se haviam refugiado
entre as rochas dispararam, mirando abaixo dos escudos, As flechas que se cravaram nas coxas e nas pernas dos assaltantes não os faziam cair. - Os cavalos! Acertem os cavalos! - gritou um dos arqueiros. Era tarde. Sem tempo para alcançar uma outra flecha, eles sacaram as espadas e se juntaram à luta dos companheiros. Cercados por homens a cavalo, tinham que escolher entre se abrigar das espadas com os escudos, ou revidar os golpes que desciam sobre as suas cabeças. O impacto lançava-os de joelhos na areia, à mercê dos golpes mortais. O gigante ruivo cavalgara por duas vezes naquela direção para ajudar seus homens. Sua espada destroçava os escudos antes de atravessar os corpos. Os homens recobravam fôlego e do desespero brotavam gritos de guerra: - Por Deus! Pela Escócia! Por Angus! - exclamavam, mesmo quando as areias já bebiam o sangue das suas feridas. O inimigo se multiplicara à frente. O gigante lançou-se a galope, misturando-se aos que pelejavam a cavalo. Sua espada rodava assobiando no ar. Encontrava o inimigo onde quer que golpeasse. Deu-se conta de que eram em número suficiente para isolar cada um dos seus cavaleiros, intrometendo os cavalos para separá-los e atacando-os por todos os lados. - MacAedan! - ele gritou, correndo os olhos pelos que lutavam. Este segundo de distração quase lhe valeu uma primeira estocada. Ele sentiu uma lâmina rasgar o couro da sela no seu flanco direito. Seu cavalo, treinado para manobras rápidas, recuou para logo depois saltar à frente do inimigo que recebeu o revide na garganta. O sangue espirrou no rosto do gigante. - MacAedan! - ele voltou a gritar. Então viu o companheiro receber o golpe pelas costas enquanto uma lança feria seu cavalo. Ambos tombaram para frente. O gigante ainda tentou erguê-lo, dobrando-se sobre sua sela e puxando-o pelo braço, mas o outro não esboçou mais do que um olhar em sua direção, a cabeça estranhamente torcida e o corpo imóvel.
- Por MacAedan! - o gigante gritou, tomado pela fúria, logo que avistou aquele que abatera seu amigo. O ódio brilhou em seus olhos e percorreu seu corpo como um relâmpago. A visão do seu rosto, feroz, coberto de sangue e prometendo morte sem piedade, fez recuar o inimigo. Acovardado, ele puxou as rédeas e galopou para a saída do desfiladeiro. Decepando cabeças e braços de quem surgia entre ele e a sua presa, o gigante ruivo lançou-se em seu encalço. Os arqueiros haviam abandonado o alto das dunas e somente o Abutre deslizava o olhar sobre os acontecimentos. Viu quando perseguido e perseguidor deixaram o desfiladeiro. Calou-se. Mais tarde iria à procura de quem tombara e faria o seu serviço.
Batalha com Normandos As areias abafaram o som das patas dos cavalos. A distância entre eles diminuía. O corcel do gigante incorporara o seu ódio. Nenhum dos dois ouvia mais os sons da batalha. Nem uma vez o fugitivo voltou a cabeça para medir a distância entre ele e o gigante. Não era necessário. Podia senti-lo chegar como uma tempestade que se avolumava às suas costas. Agora cavalgavam em terreno pedregoso. O cascalho voava e o som das patas se misturava ao sopro que saía das narinas dilatadas dos animais. De repente, o fugitivo freou a montaria, saltou do cavalo e galgou umas pedras à sua frente para colocar-se em terreno mais alto. Buscava alguma vantagem sobre o inimigo que pudesse minar a sua força. O gigante ruivo pulou do cavalo. Sentiu que o ódio precipitava os seus movimentos e lutou para manter-se concentrado, pois ignorava a destreza do adversário. Avançou pelas pedras. O fugitivo deu o primeiro golpe quando ainda estava em terreno mais elevado, depois recuou para se livrar do revide. A espada do gigante ruivo assobiou cortando o ar, mas não encontrou o corpo do adversário e se partiu contra uma pedra. O fugitivo hesitou diante do inesperado. Vendo que o gigante se afastava na direção dos cavalos, pensou que o destino invertera os papéis e que era ele agora o perseguidor. Não convinha deixar que o inimigo escapasse. Saltou pelas pedras ao seu encontro, usando ambas as mãos para empunhar a espada, na intenção de um golpe poderoso e mortal. Entretanto, o gigante chegara ao seu cavalo. Ele arrancou o machado de uma bainha na sela. Voltando-se para o seu agressor, aparou o golpe. Era tarde demais quando o outro compreendeu que, enquanto durasse o ódio nos olhos do gigante, nenhuma força deste mundo seria capaz de detê-lo. - Por MacAedan! - ouviu o gigante murmurar entre dentes, antes que o machado tocasse a sua testa e dividisse a sua cabeça em duas metades iguais. Seus joelhos cederam e ele caiu para frente com o
machado cravado até o pescoço. O gigante ruivo apanhou a espada do adversário e colocou-a na sua própria bainha. Depois, rolou o cadáver com o pé e recuperou o seu machado. Voltou a montar. Sentia que aquela morte não era pagamento justo para a perda do seu amigo. Compreendeu que a vingança era um dever de honra que não chegava para esvaziar todo o ódio e a amargura que podiam caber no coração de um homem. O cavalo esperava que lhe fosse indicada uma direção, mas ele não sabia para onde fugir ao peso das suas perdas. Todos os seus companheiros haviam sido massacrados e ele levava os fantasmas em sua garupa. Olhou para a luz inclemente nos céus e desejou que Deus tomasse as rédeas de suas mãos. Porém, na vastidão ao seu redor, tudo estava imóvel e Deus ausente. Sustentado pelo alento do seu ódio, pressionou os calcanhares nos flancos do animal, deixando que seguisse em frente.
Angus MacLachlan
Do livro de Crônicas de Everard de Barres, Cavaleiro e Mestre da Ordem do Templo Assávamos como pães, na fornalha do deserto. Enquanto as areias sedentas suplicavam sua cota de sangue, esperávamos que os céus nos olhassem com misericórdia. Naqueles dias do ano de graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1147, eu liderava uma tropa de sessenta irmãos. Galopávamos em direção a um vilarejo na rota dos peregrinos. Notícias davam conta de que estavam sendo atacados por um grupo cristão. Sabíamos tratar-se de aventureiros sem fé e escravos da cobiça, alimentada por relatos sobre as riquezas nos reinos do Oriente. Somavam aos seus delitos, outros igualmente graves, tanto contra peregrinos como contra a gente que os acolhia. Ao roubo, acrescentavam os crimes de violação e de estupro. Destes, nada lucravam, a não ser o fato de que, agindo dessa maneira, podiam dar vazão aos seus instintos mais torpes. Assim, acorríamos aos chamados de socorro, sendo missão primária da nossa Ordem militar lutar em prol dos injustiçados contra tais gentes. Aos nossos olhos, não se tratando de infiéis, aquele falso testemunho constituía o pior dos pecados, pois não queríamos, nós próprios, ganhar fama de ladrões e estupradores, nós que caminhávamos por este mundo sob a cruz de Nosso Senhor. Parecia-me imperativo corrigir tais ignomínias e combater esses verdadeiros infiéis com o mesmo vigor que usávamos para enfrentar as potências muçulmanas. Naquele dia, estávamos na região de Shaizar, situada nos limites do Império de Bizâncio. Aproximando-nos do vilarejo, cruzávamos já com os que fugiam assustados, tomados pelo desespero e correndo sem destino. O jovem Gilbert du Bois, um cavaleiro da Ordem, sempre ansiando
por demonstrar seu zelo em professar a fé como em se engajar numa batalha, alertou-me para a fumaça que saía por detrás de um rochedo, à direita do nosso caminho, assegurando-me que ali estava o inimigo. Pedi que refreasse o seu cavalo, pois a melhor tática seria a de um cerco bem ordenado. Assim, estabeleci as nossas posições e ordenei o ataque. A visão do vilarejo arrasado aumentou o nosso ímpeto. O primeiro contato com os inimigos certificou-me de que eram normandos, reunidos em grande número e comandados pelo barão Henzen, cuja terrível fama já se espalhara por outras regiões. Transformara o vilarejo num acampamento. No momento em que lá chegamos, rodeado por sua guarda, ele assistia a uma forma cruel de execução. Quando deparamos com o espetáculo que havia preparado, por instantes sofreamos os cavalos tentando compreender o que se passava. Ele mandara amarrar em estacas os homens que ainda viviam e incitava os seus normandos munidos de lança, a atingir as cabeças a partir de uma linha demarcada no chão. Adiante, vimos mulheres escolhidas entre as mais jovens, chorando pelos seus parentes, enquanto assistiam às mortes e esperavam sorte igual ou ainda pior. A repulsa que senti diante daquele espetáculo organizado por gente de uma nação cristã levou-me a gritar aos meus homens: "Mostremos a eles como as areias preferem o sangue dos covardes!”.
Everard de Barres O momento de surpresa pouco durou, e seu efeito foi de pouca valia. Os homens do barão Henzen estavam alerta e armados. Engajamonos numa luta feroz. Mas aquela haveria de ser uma batalha diferente das que lutara até então. Fomos todos surpreendidos por uma aparição misteriosa. De repente, das colinas acima do vilarejo, para onde nos empurrara o combate, vimos surgir um cavaleiro a pleno galope. Descia como um anjo vingador. Comandava sua montaria com os joelhos enquanto uma das mãos brandia a espada e, a outra, empunhava um machado de lâmina dupla. Com todo o ímpeto que lhe permitiu o seu cavalo, avançou contra os normandos. Seus movimentos tinham uma rapidez fora do comum, como se as armas não lhe pesassem nem quando as brandia nem quando desferia seus golpes mortais. O barão Henzen havia ordenado uma formação em cunha. Mesmo sendo apenas um, o estranho cavaleiro avançou com fúria crescente. Nesse momento, os nossos empurravam os inimigos para fora do vilarejo. O guerreiro desconhecido lançou-se sobre o grupo da guarda que protegia o barão. Eu não podia atinar com o que o levava àquela fúria nem que diferença podia ter com os normandos. Ele não parava, nem um momento que fosse, para recuperar o fôlego. Vi-o matar o capitão da guarda cujo elmo voou com uma parte da sua cabeça. Logo, outros três foram prostrados, e não sei que arma despachou cada um deles, pois o desconhecido alternava o uso da espada e do machado com igual maestria e efeito. A visão daquela esplêndida figura levava-me a compreender como surgiam as lendas que transformavam homens comuns em guerreiros míticos. O barão também se apercebera daquele campeão que massacrava os seus homens. Vendo-se ameaçado de perto, pôs-se a gritar: "Lutem como leões, não como cães!" De nossa parte, avançávamos para romper o cerco, pois da formação em cunha haviam passado à da meia-lua, tentando
sustentar a sua posição e exortados a resistir pelo seu líder. Combatíamos com ardor contra uma canalha sem fé e fazíamos boa morte em nome de Cristo, pois, como afirmava o santo Bernardo de Claraval a todos os cruzados, "matávamos e morríamos bem em nome do Senhor”. Naquela hora eu me perguntava em nome de quem lutaria aquele estranho guerreiro ao nosso lado. Sozinho, ele semeava o chão de membros decepados, saltando sobre os cadáveres para chegar ao barão. "Será que eu mesmo terei que matá-Io”?; gritava o verme, pois com seus atos renegava ter nascido homem. Ele tomou a lança da mão de um dos seus guardas e correu na direção daquele anjo vingador que continuava a ceifar seus homens. Mas no ardor da luta, o guerreiro acabou por abandonar a espada num ventre e deixar o machado encravado no peito do último soldado da guarda. Ouvi o jovem Du Bois, ao meu lado: "O guerreiro está desarmado! O cão vai matá-Io!". Eu me apercebera da situação e jurei a mim próprio: "Ele não há de morrer!”. Gritei: "Cavaleiro!”. Minha espada descreveu um círculo luminoso no ar. O barão já desferia o primeiro golpe de lança nas suas costelas quando a espada chegou à sua mão. Ele a apanhou no ar de forma admirável, e espada e guerreiro soldaram-se num único ser. Mesmo ferido e deixando um rastro de sangue, ele se atirou contra o cão normando. Porém, não pôde evitar que a lança lhe abrisse um corte à altura do peito.
Batalha com Normandos Então, assistimos atônitos a um desfecho memorável. Na sua terceira investida, o barão confiou demais na fraqueza do adversário que ferira por duas vezes, e desprezou a vantagem da distância que a lança lhe dava em relação à espada mais curta. Aproximou-se demasiado. O guerreiro esquivou-se e revidou, golpeando-o no ombro com quanta força lhe restava. A lâmina cortou a carne e separou os ossos chegando à espinha. Garantiu-me o jovem Du Bois que a ouvira estalar como um galho seco. Ferido e exausto, o guerreiro cambaleou, tentou encontrar apoio num rochedo, mas seu corpo deslizou para o chão. Naquele momento os normandos depunham as armas, e outros, feridos, arrastavam-se a nossos pés implorando misericórdia. O corpo do guerreiro estava estendido no chão ao pé do rochedo. Meus homens efetuavam as capturas, libertavam a gente do vilarejo e dispensavam a caridade aos necessitados. Eu permanecia ainda imóvel, envolto numa estranha sensação de serenidade, que não tinha a ver apenas com a experiência de alívio que experimentava quando a batalha tinha um, desfecho favorável. A luz incidindo sobre o rochedo dava-lhe um brilho azulado e talvez a reverberação do calor fosse responsável por uma névoa que pairava suspensa sobre ele. As vozes dos homens e os sons da natureza se distanciaram dos meus ouvidos. Então eu tive a nítida visão de um leão, majestoso em tamanho e forma, acomodado sobre a pedra, a cabeça erguida e a pata direita, expondo as garras, agarrada ao rochedo como se guardasse o corpo do guerreiro. Não sei bem quanto tempo durou esta visão. Peguei pelo braço um dos meus cavaleiros que passava, apontei-lhe o rochedo e perguntei: "Vê o animal ali no alto?': Ele olhou na direção que minha mão indicava e respondeu: "Não há nada no rochedo, mestre!”: Compreendi que ninguém mais testemunhara o fato. Um homem guardado por um leão... Que sinal seria aquele e que enigma envolveria?
Considerei a visão um aviso dos céus que certamente protegiam aquele guerreiro, e compreendi também ser minha a obrigação de cuidar que não morresse. Ele estava inconsciente e seus ferimentos eram graves. Muitos dos nossos também estavam feridos e era prudente não tardar em procurar quem nos pudesse acolher e dispensar cuidados aos que necessitavam. Depois de enterrar os mortos, mesmo aqueles que não eram dos nossos, como mandava a caridade, ajoelhamo-nos e rezamos por suas almas irmanadas no seio do Pai. Acomodamos o guerreiro com os outros feridos numa carroça e tomamos de imediato o caminho para o abrigo mais próximo, a fortaleza de Hosn-el-Akrad, o krac dos cavaleiros da Ordem Hospitalar de São João de Jerusalém.
A Aparição
Dunmait MacAedan
CAPÍTULO XIII CRUZES VERMELHAS A reluzente fortaleza erguia-se à frente. Debilitado pelos ferimentos, o guerreiro vagava no reino de semi-consciência e o mundo parecia-lhe construído com a matéria dos sonhos. Viajava entre os outros feridos, acomodado na palha. A cada balanço da carroça, alguém chamava por Deus e pelos santos. À frente cavalgavam os cavaleiros vestidos de branco, ao lado dos quais ele lutara, as longas capas marcadas com cruzes vermelhas. Pareciam seres alados, deixando aparecer o brilho das armaduras por baixo das asas. O vento soprava levantando areia e uma nuvem envolvia a fortaleza. Vez por outra, surgia a brancura das muralhas. O guerreiro teve a impressão de que ela era tão alta quanto as montanhas da sua terra. Porém, dali se enxergava a vastidão desabitada e escaldante, em vez do mar gelado que banhava a nação escocesa. O espectro branco fora plantado no seio do deserto. Teria nascido do desejo humano de atingir os céus colocando pedra sobre pedra. Aves pairavam ao redor das torres, tentando compreender aquelas árvores tão retas e monótonas. Estandartes negros fincados nos extremos rezavam seu credo ao vento. Àquela hora, o sol ainda aquecia o chão que devolvia o calor com juros. Um barulho surdo tomou a planície e, na mente do guerreiro, ondas batiam contra os rochedos de uma costa distante. Mas o som desse trovão era o tropel de cavaleiros que vinham para conduzir o grupo à segurança. Chegando à entrada da muralha, desmontaram e ajoelharam-se para agradecer aos céus, antes de entrar. Um ancião saiu e saudou o mestre templário com um abraço efusivo: - Que a paz esteja consigo, mestre Everard, e com todos os que cavalgam em sua companhia!
- Encontraremos paz dentro dessas muralhas, irmão, e certamente alívio para os feridos, que são muitos. - O barão Henzen? - ele perguntou. - O braço de Deus fez justiça - assegurou-lhe o mestre.
Hosn-el-Akrad
- Gostaria de ouvir como tudo aconteceu, mas para isto teremos tempo. Agora há que socorrer os seus homens. - Trago-lhe um guerreiro muito ferido que não é dos nossos revelou Everard. - Um prisioneiro? - perguntou o Grão-Mestre. - Um mistério! - ele respondeu, acrescentando: - Creio não exagerar quando digo que foi sua intervenção que decidiu a batalha a nosso favor. Encaminharam-se juntos para a carroça. O mestre apontou o guerreiro com as roupas encharcadas de sangue: - É um nórdico! - comentou o Grão-Mestre. - Logo saberemos quem é e de onde veio, se a habilidade dos irmãos conseguir arrancá-Io da agonia e da morte. Espero muito que seja salvo para que possa me dar a resposta a um enigma - Um enigma? - perguntou o Superior. - E muito intrigante. Prometo explicar-lhe do que se trata, caso o guerreiro viva. - Faremos tudo ao nosso alcance, mestre Everard. Se a nossa arte não for o suficiente, pediremos às mãos divinas que façam o resto disse o ancião, traçando o sinal da cruz sobre o corpo no fundo da carroça. Os feridos foram sendo retirados e levados para o interior. Muitos braços sustentaram o corpo do guerreiro, seguindo as recomendações de Bernard de Charenton, o Grão-Mestre daquela fortaleza. No interior, percorreram imensos corredores de um branco mais puro do que o das muralhas. Cruzes vermelhas, iguais às traçadas no peito e nas capas dos templários, marcavam algumas paredes. Cada cruz de sangue falava pelo sacrifício de algum cavaleiro em defesa da fé. A dor do crucificado também ardia no peito dos feridos. Estes sinais fortaleceram o ânimo do guerreiro, lembrando-lhe o significado real de ser um cruzado. Pensou que Deus talvez o quisesse poupar para o seu serviço. Mas, logo a seguir, deparou com outras
bandeiras pendendo do teto, panos negros cortados por cruzes brancas e a idéia da morte rondou o seu espírito. Via-se morrer... Sentiu medo, medo de que sua vida fosse interrompida quando havia tanto a fazer e a cumprir. Ainda não vivera o suficiente para ser recebido pelas mãos titânicas de anjos, como sempre imaginara. Aquele desenlace era uma esperança dormindo em cada alma, um desfecho espiritual que devia animar o homem nas suas tarefas de servo, de senhor ou de guerreiro. Na sua própria alma, o sonho final ultrapassava as mais loucas ambições terrenas. Trouxeram-lhe água, mas não deixaram que bebesse mais do que uns poucos goles. Sua sede era lancinante. Foi colocado sobre uma mesa e os irmãos hospitalários retiraram sua cota de malha. Trapos da camisa se afundavam nas feridas. Ele continuava a se esvair em sangue. O Grão-Mestre, que assistia a tudo, deixou o recinto e voltou, pouco depois, acompanhado de três outros monges, tão idosos quanto ele.
Ferido no Krak
Os anciãos lavaram o corpo do guerreiro e beijaram seus pés, cumprindo o ritual de humildade que dispensavam tanto a reis e a cavaleiros como ao menor dos servos. Em seguida, limparam e costuraram as feridas, sem trocar palavras entre si. O Grão-Mestre se afastara para um canto próximo. Seus lábios murmuravam Salmos. Ele pedia a Deus misericórdia para a alma do guerreiro enquanto os três monges cuidavam do seu corpo. Mas nem as orações, nem os cuidados foram suficientes para estancar o sangue. O Grão-Mestre voltou a se aproximar e ordenou que fossem chamar outros irmãos. Ainda uma vez o guerreiro foi levado através do labirinto de corredores brancos. O caminho parecia não ter fim e o chão ia sendo marcado por gotas de sangue. Desceram longas escadarias e entraram num corredor estreito. Os monges diminuíram o passo e pararam diante de uma porta de bronze. Àquela hora, a luz que vazava pelas seteiras na passagem não era suficiente para deixar ver mais que o contorno das coisas. O guerreiro não sabia se as suas dores seriam maiores que a sua sede, ou que limite haveria para ambas. Dois cavaleiros de guarda abriram a porta ao Grão-Mestre e ele entrou sozinho, num passo medido, como se caminhasse para o mais santo dos lugares. Em seu delírio, o guerreiro foi consumido pela luz que explodiu de dentro da câmara. Seus olhos custaram a aceitar uma claridade tão intensa. Enquanto permanecia ali banhado de luz e sustentado pelos monges, o tempo correu como um rio debaixo dos seus pés. Ouviu os sinos de São Patrício e São Columba que tocavam na igreja da sua aldeia chamando os fiéis. Pelos portões, uma procissão vinha ao seu encontro, da mesma forma como lhe chegava a luz que jorrava da câmara. Seu avô Sean, derrubado em combate no Oriente muito antes do seu nascimento, sua avó e muitos dos seus ancestrais caminhavam carregando o estandarte da nação escocesa. De repente, o Grão-Mestre saiu da pequena igreja para juntar-se a
eles. O guerreiro já não distinguia em qual mundo se encontrava. Viu quando São Patrício passou uma espada magnífica às mãos de São Columba, marcadas pelo tempo e pelo ascetismo. Outra explosão de luz consumiu a sua visão e ele voltou à realidade da fortaleza. Os monges levaram-no para dentro da câmara. Havia muitos cavaleiros no recinto. A maioria usava o hábito preto e branco. A eles se misturava o grupo formado pelos seres alados. A câmara abria-se para o salão de uma caverna e dali saíam túneis escavados por antigos rios subterrâneos. Uma grande quantidade de tochas iluminava a parede onde se erguia um gigantesco leão esculpido na pedra. Era de enormes proporções, parecendo conter em si a força e o mistério do deserto. O guerreiro nunca havia se deparado com uma fera viva como aquela. Viu a sua juba incendiar-se à sua frente e o ouviu rugir. Sentiu o fogo do seu poder passar através do seu corpo. Conseguiu erguer a cabeça, de repente, consciente de tudo e de todos. Tentava inutilmente fixar a imagem gigantesca. A luz parecia sair da sua boca.
A Cripta A um sinal do Grão-Mestre, os irmãos aproximaram o guerreiro. Dos olhos do animal, raios de prata chegavam aos seus. Ele percebeu que o objeto que chamejava entre suas presas era uma espada, e o animal, seu místico guardião. Pareceu-lhe tão maravilhosa quanto imaginava que seria Gaoth Cerridwen, aquela espada que seus ancestrais haviam possuído, e sobre a qual ele ouvira contar. O Grão-Mestre retirou a espada e a ergueu. Um sopro gélido se desprendeu da lâmina azul. Atrás do Grão-Mestre o leão de pedra voltou a rugir, e seu fogo se misturou à gelidez metálica que emanava da espada. Uma névoa formou-se ante os olhos do guerreiro e ele viu os rostos daqueles que haviam combatido com ela. Giravam,ao seu redor estendendo a mão para alcançá-Ia. Também ele estendeu a sua. O Grão-Mestre baixou a espada, tocando sua testa e sua boca. Nova onda de fogo percorreu seu corpo. As feridas arderam como se tocadas por brasas e o calor do sangue contido pulsou em seu peito. Ele se esforçava para ficar em pé. Os braços que o amparavam mal suportavam sua agitação. Então, o Grão-Mestre ordenou que ele fosse retirado. Levaram-no a uma cela. Apesar da sua simplicidade, era um milagre no deserto. Havia um catre encostado à parede com colchão de palha macia, uma mesa que recebia luz da seteira, um banco e três ganchos na parede oposta. Uma candeia de azeite pendendo do teto e um castiçal com vela sobre a mesa eram suficientes para assegurar a claridade depois do sol posto. O guerreiro dormiu um sono povoado de imagens confusas, de rostos que nunca vira, mas que podia reconhecer. Uma mulher ruiva tecia a bandeira do seu clã, o padrão axadrezado repetindo-se no pano entre trovões e relâmpagos; um guerreiro nórdico girava no ar o seu machado de lâmina dupla, os cabelos agitados pelo vento; viu um monge, cujos olhos transbordavam paz; duas mulheres guerreiras, ágeis e selvagens, combatiam um gigante, retalhando o
seu corpo; dois reis, um saxão e o outro bretão, rezavam juntos diante de suas espadas, cravadas na terra como cruzes improvisadas. Muitas figuras desfilaram pelo seu sonho. Todas elas passavam de mão para mão uma espada igual àquela que ele vira na boca do leão e que tocara o seu rosto. Ele esperava no final de uma longa fila, tomado pelo sentimento de profunda contrição. Finalmente a espada chegou às suas mãos. Ele agarrou-a sem saber o que era esperado dele. Olhou em volta e seu olhar posou num rosto sereno por trás de longas barbas brancas. De repente, como se tivesse vontade própria, a espada deixou suas mãos e tocou seu peito. A dor fez com que gritasse. Acordou assustado, banhado em suor. Sentiu que suas feridas começavam a fechar e permaneceu longo tempo acordado. Seu pensamento foi tomado de assalto por lembranças das batalhas que travara recentemente. Viu seus homens caírem crivados pelas flechas ou atravessados por lanças; reviu Dunmait MacAedan caído no chão, seu olhar perdido, os olhos injetados num misto de surpresa e pavor, aos poucos apagados pelo véu baço da morte. Um peso enorme pousou em seu peito e lágrimas caíram de seus olhos. Dunmait havia sido mais do que um companheiro. Fora o irmão que ele não tivera. O ânimo que havia recuperado o abandonou. Pensou no consolo da morte, tomado pela sensação de covardia por haver sobrevivido. Com toda a força que lhe restava desejou juntar-se aos seus companheiros, perguntando se não fora a morte que procurara, quando havia investido contra os cavaleiros normandos, na segunda batalha daquele dia. Imagens dos acontecimentos recentes se multiplicavam em sua cabeça. Ainda fraco, voltou a adormecer e, dessa vez, apenas a escuridão e a misericórdia divina o envolveram. O guerreiro não sabia bem por quantos dias dormira. Quando a angústia lhe tomava a alma e seu corpo se agitava no leito, um monge fazia com que bebesse goles de uma poção adocicada e ele afundava de volta ao esquecimento. Outros vinham colocar ungüentos em suas feridas.
Uma manhã, acordou sentindo fome. Os hospedeiros ficaram felizes com a sua disposição e aspecto. Foi lavado, alimentado e fizeram-no caminhar pelos corredores. Depois, deixaram-no entregue aos seus pensamentos. As feridas haviam cicatrizado, mas ele ainda sentia o domínio do cansaço sobre sua vontade. Recolhido à cela, voltou a adormecer. Quando acordou, um monge cavaleiro usando a túnica branca o observava. O guerreiro reconheceu-o como aquele que lhe lançara sua espada fazendo com que se resolvesse a batalha. - Bem-vindo à vida, cavaleiro! - ele saudou. - Uma vida que só me traz memórias amargas, senhor! - disse-lhe o guerreiro. Foi advertido com voz branda: - Estamos na Terra Santa e aqui todas as amarguras devem ser colocadas ao pé da cruz de Cristo. Assim procedem os cruzados e por isso levam o seu sinal. - Malditos e infelizes! - ele murmurou, remoendo a sua amargura. Antes tivessem ficado em suas próprias terras! O que vi nesta empreitada não me faz arder em fé, senhor, mas suspeitar dos verdadeiros propósitos de minha missão. Tenho dúvidas quanto às razões que abracei para vir à Terra Santa. Comecei a duvidar vendo homens serem ceifados como trigo e engolidos por este maldito mar de areia. Confesso, agora, que desconheço os reais objetivos desta guerra. Quando o monge falou, sua voz era imperativa e protetora: - Cavaleiro, dê sossego ao seu espírito. Se não é capaz de depor tudo aos pés da cruz, pelo menos tente esquecer aquilo que o atormenta. A divina Providência concedeu-lhe uma extraordinária destreza física que eu próprio testemunhei, e ela lhe dará igual habilidade para ordenar as paixões da alma. Falemos de coisas mais amenas. Gostaria de conhecer seu nome e saber onde fica sua terra. - Eu sou Angus, do clã MacLachlan, e venho da Escócia - declarou; e acrescentou: - Por minha fé de cavaleiro, não esperava testemunhar tanto horror nesta Terra que é Santa!
Mestre Everard pensou que ele se referisse à crueldade dos normandos, e tratou de tranqüilizá-Io: - O barão Henzen está morto e prestará contas a Deus. Pelo que realizou conosco e por nós, Angus MacLachlan, a Ordem do Templo sempre falará uma palavra a seu favor diante de Deus e dos homens. - Pensava nos meus próprios companheiros que tombaram confessou. - Todos mortos num desfiladeiro dos infernos!
Cavaleiros Templários - Eram muitos? - perguntou o cavaleiro. - Quando deixamos a Escócia, éramos quarenta homens. Alguns eu conhecia desde a infância, outros, de outras terras e outros clãs, fui conhecendo ao longo da viagem. As provações do caminho revelam o coração dos homens. Agora, apenas sou prova de que existiram. Uma leva infernal de aberrações derramou o sangue de meus homens! Afirmo que esta tragédia foi tecida por mãos de gente cristã! O monge ofereceu-lhe sua visão dos fatos, primeiro de um modo severo, mas depois sua voz adquiriu um tom cordial: - Cavaleiro - disse -, quem os atacou apenas aparentava ser gente cristã, já que não eram muçulmanos. Podiam ser sicilianos, genoveses ou mesmo normandos, como os que combatemos juntos; gente em sua maioria sem nenhuma fé. Foi somente a cobiça que os guiou à Terra Santa. Interessam-se apenas em adquirir, a qualquer preço, riquezas e poder e de assegurar as suas malditas rotas comerciais, sem nunca esboçar um gesto piedoso. - Então, que as cimitarras nos arranquem as cabeças, senhor, já que consentimos que se cubra de vergonha os santos Evangelhos! Bêbado Ocidente, bárbaro imprudente, que tem levado aos cristãos a vergonha enquanto colhe os frutos de sua peçonha, transformando em louros, sua sede por ouro; rouba e avilta em todo reino mouro, incriminando com sangue todo seu tesouro. Amplia a dor de Deus e sua paixão, que é o único e verdadeiro rei, e haverá de tomar mão, impedindo o homem de ampliar Sua mortalha e no calor de Sua santa batalha, pois Sua justiça nunca falha, há de julgar os homens severamente pela sua iniqüidade e punirá duramente por toda impiedade, a nossa frágil e pobre humanidade. - Não posso julgar suas palavras, nem sua atitude cavaleiro, pois tens o fogo da paixão pela justiça de Deus - disse -, e fui testemunha de suas atitudes de cavaleiro e guerreiro. Deixe que eu também me apresente. Meu nome é Everard de Barres, mestre e cavaleiro do Templo. Somos monges e soldados, pobres e sem direito a uma vida
devotada à contemplação. Não gozamos de um Paraíso na Terra. Somos rudes guerreiros, combatentes de Nosso Senhor Jesus Cristo, em nome de quem defendemos os peregrinos, os fiéis e o Templo. Saiba, Angus MacLachlan, que não possuímos penas ou pincéis para copiar ou iluminar, somente a espada para cumprir nossa devoção. - Sua Ordem, mestre Everard, é por todos conhecida e respeitada, mesmo nas longínquas montanhas altas da Escócia. - Não procuramos a glória para nós - continuou -, somente para Deus. Não fazemos caso da honra mundana, mas da justiça divina. Segundo o venerável Bernardo de Claraval, nossa missão é abençoada, quando defendemos com nossos corpos a verdadeira fé. Novamente o guerreiro o desafiou: - Diga-me, senhor, o que realmente defendemos? É a pergunta que me faço desde que cheguei. Defendemos o Imperador de Bizâncio, o homem mais rico da Terra? Era opinião corrente que o Imperador dos gregos possuía forças suficientes para sustentar e proteger seu Império e, portanto, a cristandade n Oriente. O cavaleiro não se deixou abalar: - Na verdade, defender a cruz é tomar a cruz, cavaleiro... e é isto o que está em questão. Esta missão pode assumir várias vestimentas. Umas são santas, outras mais mundanas. Porém, deixar de proteger os que fazem o caminho para Jerusalém seria uma vergonha para nós, cristãos, e uma demonstração de covardia. Diria mesmo... uma apostasia, tendo em vista os massacres que se repetem e as invasões do Islã. Angus MacLachlan retrucou com energia: - O que sofremos, eu e a minha gente, foi da parte de cristãos, senhor. Ainda não conheci a tirania dos mouros e quase não escapo com vida para constatá-Ia. - Sir Angus, de fato os mouros não são tiranos, em sua maior parte, como não é piedosa a maior parte dos cristãos... Suas palavras foram interrompidas pela entrada de um cavaleiro dos
hospitalários que lhe entregou uma mensagem. Everard de Barres rompeu o lacre e dirigiu-se à seteira por onde entrava a claridade. Franzia o cenho à medida que lia as palavras. Desculpou-se junto a Angus por ter que adiar aquela conversa e prometeu que voltariam a se encontrar assim que as circunstâncias permitissem. O mestre templário deixou a cela acompanhado do cavaleiro que o levou por corredores e escadarias à parte superior da fortaleza. Ali ficavam os aposentos do Grão-Mestre. Os irmãos encarregados já acendiam as tochas ao longo das paredes. O mestre pensou que naquela parte do mundo a noite caía depressa e sem anúncio. Entrou num salão amplo já iluminado. O Grão-Mestre estava sentado à mesa e, com ele, um jovem peregrino, a julgar pela capa e o cajado, não possuindo nenhum outro distintivo que pudesse revelar sua identidade. Quando entrou, o jovem permaneceu sentado, o que o levou a supor que fosse alguém da sua condição. - Agradeço-lhe por ter vindo com tanta presteza, mestre Everard, disse o Grão-Mestre Bernard de Charenton. - A mensagem que recebi fala sobre uma ameaça iminente - disse ele sem tirar os olhos do jovem que permanecia sentado. O superior da fortaleza apresentou-o: - Este é o cavaleiro Guy du Pin, oriundo de Chipre e um irmão seu. - Conheci Desmond du Pin quando entrei para a Ordem – disse Everard. - Era um homem honrado e destemido, não temendo senão a Deus, a quem servia com humildade. - Era meu Pai, mestre Everard - revelou o jovem. - E o que faz o filho de Desmond du Pin, tão longe da casa paterna? perguntou. - Viajo com o disfarce de peregrino cumprindo a missão de que fui incumbido pela Ordem. - É um espião da Ordem? - quis saber o cavaleiro, num tom de voz que demonstrava não aprovar aquele procedimento.
- Se assim quiser considerar o que faço, irmão, e se preferir ignorar o número de vidas que são salvas com esta atividade! Ensinou-me meu falecido pai, a quem o senhor diz ter conhecido, que a honra sempre tem por preço a vida, às vezes a nossa própria, às vezes a de outros - disse o rapaz com extrema altivez, levantando-se da sua cadeira. Depois de um momento de silêncio durante o qual não deixaram de se encarar, o cavaleiro Everard voltou-se para o Grão-Mestre e exclamou: - Pelos céus, reconheço o filho de Desmond du Pin ou, pelo menos, posso asseverar que o sangue daquele destemido corre em suas veias! A seguir, encaminhou-se para o jovem abraçando-o: - Que a sua vida seja longa e seus feitos sempre honrados, irmão! Mas que terrível ameaça é essa suspensa sobre as nossas cabeças? Sentaram-se os dois e o Grão-Mestre ofereceu-Ihes vinho tirado de uma ânfora no canto do salão, para que brindassem a presença inesperada daquele irmão, apesar das notícias que trazia. Deixou-o falar: - Faz algum tempo - contou o jovem -, chegou a Chipre um navio que sofrera danos durante uma tempestade. O capitão foi logo reconhecido como um homem que se vende a qualquer bandeira para todo tipo de empreitada. Vinha de Espanha e trazia consigo um carregamento de espadas, lanças e escudos, além de dois emissários turcos que tentavam passar despercebidos entre os marinheiros. O armamento fora fundido em Toledo, a julgar pela excelência do aço e, embora obedecendo aos desenhos que encontramos com os turcos, era provavelmente obra de artesãos judeus, pois sua arte não encontra rival. - Descobriram a quem se destinava o carregamento? - perguntou mestre Everard. - Não descobrimos e nem creio que os turcos o confessariam mesmo sob tortura. Além do mais, se morressem em nossas mãos, jamais saberíamos quem fizera a encomenda e com que propósito. Portanto, o carregamento foi apresado e guardado em nossa fortaleza, e o
Capitão, levado com seus homens à masmorra. Quanto aos turcos, foram submetidos a longos interrogatórios e depois libertados... - Libertados? - perguntou mestre Everard com surpresa. - Sim, libertados, mas para logo serem embarcados num navio de peregrinos. Fui designado para segui-Ios e assim procedo desde o momento que o navio aportou à Terra Santa. Aquilo que conseguisse observar, deveria relatar ao superior dos hospitalários em Jerusalém. Posso agora dizer-Ihes que as armas que apreendemos pouca diferença farão para o exército turco que foi reunido com a intenção de promover um grande ataque contra esta fortaleza. Achei aconselhável trazer a notícia ao Grão-Mestre antes de levá-Ia a Jerusalém. Quis o bom Deus que o encontrasse aqui com seus cavaleiros, mestre Everard. - Agiu com acerto, irmão - ele disse, para depois perguntar: Teria idéia de quanto tempo teremos para organizar nossa defesa? - A julgar pela região onde ainda se encontram e a quantidade de homens que mobilizam, eu diria que o ataque não acontecerá antes da lua crescente. - Duas semanas, quando muito! - murmurou o Grão-Mestre. - Ao raiar do dia, enviarei mensageiros às nossas fortalezas vizinhas disse Everard. - Pode ser que o número de cavaleiros não seja maior do que o número de combatentes turcos, mas devemos apostar na habilidade dos nossos... - ...e num favorecimento dos céus - completou Bernard de Charanton. - Amém! - pronunciou Everard. Um irmão acorreu ao chamado do Grão-Mestre para conduzir o jovem Ou Pin ao refeitório e depois à cela que lhe fora designada. Quando ficaram sozinhos o Grão-Mestre comentou: - Enfrentar um exército tão grande será tarefa difícil. Precisaremos de todos os cavaleiros de que possamos dispor. - Os irmãos cuidaram tão bem dos meus homens feridos que posso garantir estarem outra vez em condição de empunhar a espada, salvo um companheiro que teve sua perna amputada, outro, o braço
direito e, um terceiro, ferido na cabeça, que perdeu parte da visão e o dom da fala. - Mandarei pintar uma cruz para cada um deles e seus nomes serão inscritos no livro de nossa Ordem com a descrição dos seus feitos. De resto, só Deus pode agora aliviar suas penas. Everard calara-se. Pensava na probabilidade dele próprio, um dia, só encontrar em Deus o consolo das suas penas. Começava a sentir-se cansado de batalhas e de matanças. O Grão-Mestre fê-lo sair dos seus pensamentos: - Diga-me, irmão Everard, como está se recuperando o seu guerreiro misterioso? Chama-se Angus MacLachlan, é um escocês e, segundo pude entender, líder do seu clã. Vinha acompanhado de quarenta conterrâneos quando foram atacados de surpresa num desfiladeiro a meio dia de marcha daqui. - Conheço o lugar! - disse Bernard de Charenton com um longo suspiro. - Faz poucos dias, alguns dos nossos tiveram que cruzar aquele caminho e depararam com os restos do massacre pouco depois que aconteceu. Deram sepultura aos corpos como manda a caridade. É por esse desfiladeiro que passam as caravanas dos comerciantes genoveses e as dos sicilianos. Tudo depende do entendimento entre os chefes. Por vezes, fazem a mesma rota, ou parte dela, mas cada pedaço de caminho tem seu dono e seu preço. - Angus MacLachlan pagou um alto preço - comentou Everard -, e é possível que ainda esteja a pagar. - O que quer dizer? - perguntou o Grão-Mestre. - O ódio, a revolta e agora as dúvidas... Todos estes sentimentos incendeiam a sua alma e ameaçam o seu zelo pelas coisas de Deus. Eu posso compreender. Ele veio para ser um cruzado e se deparou com uma realidade que ameaça demolir este ideal. - Também nós, temos que lutar contra o mesmo mal! - exclamou o Superior, dizendo a seguir: - Deixe que lhe faça uma pergunta, mestre Everard. A que enigma se referia no dia da sua chegada? Prometeu revelá-Io, assim que o guerreiro se recuperasse. Talvez
seja esta a hora. - Uma boa hora - concordou mestre Everard. - Posso lhe contar o enigma, mas não a sua solução, pois eu próprio não a encontrei ainda. Tive uma visão... - Aqui na fortaleza? - perguntou o superior. - Não aqui, mas lá no vilarejo quando a batalha foi decidida. O barão estava morto e Angus MacLachlan ferido. Ele tombara ao pé de um rochedo. Havia muita confusão ao redor, mas eu vi... - mestre Everard parou para escolher melhor as palavras. Bernard de Charenton se impacientou: - Viu o quê, homem? - Vi um leão sobre o rochedo, guardando o guerreiro - ele revelou. - - Um leão? - perguntou o superior. - Sim, um animal magnífico, com a cabeça erguida e a juba resplandecente. Poderia jurar que o leão de pedra tomara vida. - Viu a espada? - o outro perguntou. - Não havia espada entre as suas presas. De resto, apenas eu tive esta visão. Perguntei a um companheiro que passava se ele conseguia ver alguma coisa sobre o rochedo e ele negou que houvesse algo ali. Os dois se calaram, ruminando o enigma. Foi o Grão-Mestre quem rompeu o silêncio: - A visão que teve não nos leva a nenhuma conclusão ligando esse guerreiro à espada. Não posso agir com precipitação. - Ele é um homem fora do comum - disse Everard. - Devia tê-Io visto lutar. - Durante a minha vida tenho me deparado com guerreiros extraordinários - disse o Grão-Mestre -, mas cuja força e destreza não foi duradoura, porque resultavam de um momento de fúria e desespero. Angus MacLachlan é um homem cheio de ódio, como você próprio me diz. Não sabemos o que na verdade move o seu coração. Convinha colocá-Io à prova. A idéia não agradou a mestre Everard. Perguntou: - Que tipo de prova?
- Vamos ver se esse guerreiro, com poder nas mãos, se deixa levar apenas pelo ódio ou é capaz de ultrapassá-lo. Amanhã, ele ficará face a face com alguém que contribuiu para a sua tribulação mas, dessa vez, longe do campo de batalha. Poderá matar ou usar de misericórdia, entregando a justiça às mãos de Deus. - De que maneira espera realizar esta prova? - perguntou o templário. - Amanhã saberá, irmão - disse o Grão-Mestre. - Deixe que por esta noite eu guarde segredo. Mestre Everard assentiu com a cabeça, mas sem lhe parecer que a prova fosse necessária. Ele saiu para escolher os mensageiros que deveriam alertar as fortalezas mais próximas e chamar os cavaleiros. Partiriam ao amanhecer. A manhã ainda não raiava em todo o seu esplendor e Angus MacLachlan, do passadiço na muralha, olhava o movimento de cavaleiros que partiam em várias direções. O ar mais puro e fresco àquela hora revigorava seu corpo e espírito. Sentiu vontade de estar entre aqueles que partiam. Pensou no seu cavalo ágil e bem treinado do qual não sabia o destino. Continuou ali com os olhos presos na vastidão, mesmo quando os cavaleiros já haviam desaparecido no horizonte. Voltou-se quando ouviu vozes no passadiço. Reconheceu o mestre Everard que vinha acompanhado de outro cavaleiro, um ancião de túnica negra. Pareceu-lhe que já o vira antes, mas não podia lembrar em que circunstâncias. O templário apresentou-o como o GrãoMestre naquela fortaleza. Bernard de Charenton cumprimentou o guerreIro: - Alegro-me em ver que está recuperado, Angus MacLachlan! - Graças aos cuidados que tenho recebido desde que cheguei aqui e pelos quais sou devedor - disse ele. O Grão-Mestre falou com serenidade: - Soube do seu infortúnio e do lugar onde foram mortos os seus conterrâneos. Alguns dos nossos irmãos passaram pelo local e, mesmo ignorando o que sucedera, deram aos corpos um funeral
cristão. Esta foi a vontade do Pai que nunca os abandonou e que agora os acolhe em sua infinita misericórdia. - Amém! - exclamou o cavaleiro, sentindo o peso da amargura retomar seu espírito. Ele confessou: - Não consigo afastar de mim a visão dos meus homens sangrando enquanto eu me sentia impotente para salvá-Ios. Não há pior sentimento do que sentir-se desesperado, frágil e impotente... O Grão-Mestre ponderou: - É o deserto que aumenta o desespero, meu filho, revelando a nossa insignificância, sem nenhuma piedade. Ele é um gigantesco dragão de areia que esmaga os homens com os seus espasmos. Há que se familiarizar com esse dragão, aprender a montá-Io, entender suas intenções, suas mensagens. Ele esconde muitos segredos e são os mais bem guardados. - O deserto! Senti a sua força maléfica, mas quem conhece seus segredos? - perguntou o guerreiro.
Angus MacLachlan - Só são revelados a uns poucos escolhidos que passam por provas extremas. O deserto conhece seus cavaleiros e os elege. Os fiéis que se aventuram numa peregrinação a esta Terra Santa enfrentam perigos que só os mais fortes superam - disse Bernard de Charenton. Angus deixou escapar outra confissão: - Acreditei que minha fé nos protegeria... - A fé sempre chama por Deus - disse mestre Everard -, mas a proteção divina não é maior na Terra Santa do que em outro lugar qualquer, assim como os perigos estão por toda parte. O Grão-Mestre concordou: - Já nos primeiros séculos, os padres da Igreja chamavam a atenção para este fato. Gregório de Nissa, irmão do grande São Basílio, foi um dos que se ergueram com mais veemência contra as viagens a Jerusalém. O bispo de Nissa assegurava a todos que a graça divina não se difundia em Jerusalém mais do que em outras cidades da Terra. O guerreiro ponderou em seu próprio coração o quanto era verdadeiro o que ouvira. Foi mestre Everard quem prosseguiu: - Também Santo Agostinho dizia que o Senhor não havia exortado que se fosse ao Oriente para buscar justiça ou ao Ocidente para receber perdão, ou mesmo, ao Sul para praticar a caridade ou ao Norte para receber a purificação. Ora, devo crer e creio nas palavras dos Santos Padres, mas reconheço que contradizem completamente as ardentes exortações do venerável Bernardo de Claraval. Estamos, pois, diante da mais completa confusão a respeito da necessidade de guerrear pela fé e a própria vivência da fé. Nosso desafio é conhecer a vontade de Deus para proceder de forma justa. O guerreiro sabia que os conselhos dos santos da Igreja nada podiam contra o ímpeto apaixonado da multidão; já força alguma, voz alguma, autoridade ou inimigo algum sobre a Terra podia fechar aos cristãos os caminhos para Jerusalém. Da longínqua Gália, das florestas da Germânia, de todas as regiões da Europa, viam-se
chegar cada vez mais devotos, impacientes por visitar o berço da fé que haviam abraçado. O Grão-Mestre leu seus pensamentos e disse: - É vontade de Deus que seu povo peregrino seja protegido. Perdendo o domínio de si, o guerreiro deixou que a amargura guardada aflorasse à sua boca: - Quem sabe o que Deus quer? O que fez Ele por Dunmait MacAedan? O que fez Ele por meus homens no desfiladeiro? Que Deus é este que abandona seus filhos no calor da batalha? Que Deus é este que dá a vitória ao inimigo? Nesse momento, os olhos de Bernard de Charenton advertiram ao mestre que havia chegado o momento de pôr o guerreiro à prova. - Se a vontade divina permitiu a morte dos seus companheiros, também deixou que vivesse. É preciso confiar nos desígnios de Deus - disse o Grão-Mestre sem alterar a voz. O guerreiro guardou silêncio. Então, o ancião tirou uma bolsa que trazia à cintura e derramou seu conteúdo sobre uma pedra da muralha, dizendo: - Acredito que tudo isto é seu por direito. Diante dos olhos ele viu os anéis, colares e medalhões que haviam pertencido a seus homens, os que identificavam o clã a que pertenciam, os que possuíam valor afetivo ou fora herança passada de pai para filho. - Como vieram às suas mãos? - perguntou ao ancião. - Esta bolsa estava pendurada em outro cinturão - disse o mestre. - E onde está o corpo que usava esse cinturão? - perguntou. - Na masmorra, três andares abaixo de onde nos encontramos. Foi aprisionado quando ainda saqueava os mortos - explicou. - Permita que eu decida sua sorte! - pediu o guerreiro. - Permito que faça justiça! - disse o Grão-Mestre. Ouvindo aquelas palavras, Angus MacLachlan levou instintivamente a mão onde deveria estar o punho da espada, mas deu-se conta de que estava desarmado. Seu gesto não escapou aos olhos de mestre Everard que pensou que o guerreiro lhe pediria a sua. Mas ele já se
apressava pelo passadiço. Desceu as escadarias que levavam à masmorra. Desde o momento em que fora capturado e lhe haviam tomado a bolsa, Bertoldo, o Abutre, não vira mais ninguém a não ser o carcereiro. Cada vez que o via, corria para as grades, alternando súplicas com insultos e palavrões. Mas o carcereiro chegava e partia como se ele não existisse. Passara por várias fases. Conduzido da luminosidade escaldante das areias para a escuridão da masmorra, começara por bater com a cabeça nas pedras, culpando a si mesmo por ter demorado o saque. A seguir, a raiva que sentia de si próprio foi diminuindo para dar lugar ao desespero, à medida que a fome e a sede aumentavam. Estranhou que cavaleiros cristãos lhe negassem pão e água. Mais valia morrer com a barriga cheia. Depois, pensou que não o terem matado e enterrado junto com os outros significava que o queriam vivo para alguma coisa. Por fim, sentindo-se fraco, procurou um canto e encolheu-se na mesma posição que usava para avistar o inimigo sem ser percebido. Mesmo na penumbra, seus olhos aguçados podiam perceber ao fundo uma polé com suas roldanas e ganchos, os ferros de todos os formatos que, aquecidos ao rubro, assavam as carnes dos condenados. Mas tudo estava silencioso e a forja apagada. Nao saia se era dia ou se era noite, quando um milagre aconteceu bem diante dos seus olhos. Dois cavaleiros chegaram trazendo um prato de comida, além da caneca de vinho que encheram em sua presença. - Se nos disser o seu nome, e nos revelar o que aconteceu no desfiladeiro, vai comer e beber até se fartar - disse um deles. - E o que vai acontecer depois que eu me fartar? - ele quis saber. - Não somos os juízes ou os carrascos - falou um dos cavaleiros. Esses virão depois, considerou Bertoldo. O melhor seria confessar seu crime, já que as testemunhas eram muitas, e negar o restante. Sem deixar seu canto, ele disse: - Meu nome é Bertoldo, mas me chamam de Abutre, pelo que faço.
- E o que faz? - perguntaram. - Todos sabem o que faço - respondeu. - Tiro dos mortos aquilo de que não vão mais precisar. São os vivos que têm necessidades. - De que terra veio? - perguntaram. - Sou genovês - respondeu. - Aprendeu a saquear os mortos na sua terra? - perguntou um dos cavaleiros. Bertoldo não respondeu. Seus olhos não largavam o prato de comida nem a caneca de vinho. - Posso comer agora? - quis saber. - Poderá comer e beber quando nos contar o que se passou no desfiladeiro - disseram, acrescentando: - Conhece Girolamo Campanella? - E por que deveria conhecer? - É genovês e emprega gente da sua laia. Bertoldo não se deixou intimidar: - Ele terá os seus próprios abutres. Por que me chamaria para seu serviço, se o tamanho do meu braço não deixa que eu agüente uma espada, muito menos que possa rodá-Ia contra o inimigo? Levantara-se e se aproximava para que os cavaleiros vissem com seus próprios olhos o que afirmava. - Coma e beba - disseram finalmente. O Abutre atirou-se ao prato, sem se preocupar com o que podia lhe acontecer depois que se fartasse. Nem ouviu quando os cavaleiros trancaram a grade. Desse dia em diante, havia sempre um pote com água ao seu alcance e, duas vezes por dia, traziam-lhe comida. Agora me engordam, ele pensou. O que mais lhe podia acontecer? Talvez nunca viesse a ser julgado e acabasse por morrer ali mesmo, sem nunca mais avistar a luz do sol, ou talvez não... Bertoldo era um homem acostumado a esperar. Dormitava no seu canto, quando ouviu abrir a grade pela segunda vez. O carcereiro mandou que se levantasse. - Vão me deixar ir embora? - ele perguntou sem se mover de onde
estava. - De pé! - ordenou o carcereiro agarrando-o pela gola e empurrandoo para fora. Foi levado a uma sala da guarda, vazia naquele momento, a não ser pelo gigante ruivo que reconheceu de imediato. Angus MacLachlan tivera a impressão de que atingia o fundo de seu ódio, à medida que descia as escadarias e entrava num mundo sem luz. Viera com permissão do Grão-Mestre para fazer justiça ao saqueador dos seus mortos. Não encontrara ninguém de guarda, apenas o carcereiro. Pedira que fosse buscar o prisioneiro. Agora tinha-o diante de si e percebia que não necessitava de outras armas além das mãos para esmagar-lhe a cabeça. O que lhe faltava era o impulso para agir. Compreendeu que o ódio e a escuridão eram a mesma coisa. - Eu conheço quem é - disse-lhe o Abutre sem medo. O guerreiro foi assaltado pelo mesmo sentimento que tivera após matar o assassino de Dunmait MacAedan. Outra morte seria ainda muito pouco para apagar o que acontecera. No entanto, o Abutre se aproximara do guerreiro para lhe garantir: - Seja lá para que venha, fique sabendo que me deve sua vida. Vi quando saiu do desfiladeiro para perseguir Luchino, aquele covardão idiota. Eu podia ter alertado alguém e seriam muitas espadas contra a sua, mas fiquei calado. Deve a mim, a sua vida! Tem que me tirar daqui! - repetiu. Angus MacLachlan fez sinal ao carcereiro que levasse o prisioneiro de volta à masmorra. Bertoldo debateu-se gritando: - Deve-me a vida! É esta a minha paga? - É isto que estou lhe dando, a vida - disse o gigante ruivo, e foram as únicas palavras que Bertoldo ouviu dos seus lábios. Foi empurrado para trás das grandes, sem compreender por que não encontrava nenhum consolo em saber que sua pena não seria a morte, mas a escuridão. Voltou a encolher-se em seu canto, iniciando uma nova espera enquanto o guerreiro subia para a luz. Naquela mesma noite, Angus MacLachlan não jantou no refeitório,
mas foi convidado pelo Grão-Mestre a partilhar a mesa nos seus aposentos. Quando chegou, o mestre templário e o cavaleiro Guy du Pin já faziam companhia ao superior dos hospitalários. Embora a cela do Grão-Mestre não diferisse em tamanho ou simplicidade das outras na fortaleza, a sala onde recebeu seus hóspedes era de grande tamanho e podia acomodar muitos cavaleiros. O teto era alto e abobadado. Dele pendia sobre a mesa um lustre de velas e sua corda corria por toda a extensão do teto até um gancho à meia altura em uma das paredes. Noutra, em frente ao arco do portal, havia uma sucessão de seteiras intercaladas por archotes. Noutra ainda, pendia o brasão da ordem ladeado por armas tomadas ao inimigo, escudos com delicados desenhos mouriscos e cimitarras. À direita havia uma arca entre quatro nichos repletos de livros, revelando que a fortaleza estava dotada de uma biblioteca admirável. Num dos cantos, ânforas guardavam bom vinho do Ocidente, oferta de peregrinos ricos. No centro, a mesa comprida era ladeada por dois bancos em toda a sua extensão. Às cabeceiras havia dois cadeirões, cujo encosto de couro fora gravado com as armas da Ordem. O Grão-Mestre já estava sentado numa das cabeceiras e os cavaleiros acomodaram-se nos bancos. Mestre Everard, seguido do jovem Guy à sua direita e Angus à sua esquerda. Um irmão trouxe um pernil de carneiro numa travessa de estanho e pratos de madeira. As facas estavam no lugar do Superior, pois mandava a caridade que ele próprio iniciasse o serviço dos hóspedes, cortando generosos pedaços da carne temperada com ervas. Numa grande tigela fumegavam legumes cozidos. Durante o jantar, o guerreiro tomou conhecimento de que a fortaleza estava para ser atacada. O jovem Du Pin, desconhecendo sua história, perguntou-lhe: - O que veio buscar nestas terras, cavaleiro? - Não foi a fé que me trouxe à Terra Santa - disse. - Ela me guiou, disto não tenho dúvida, mas o que me trouxe aqui foi o exemplo do imperador Heráclio.
O Grão-Mestre sorriu: - Como Heráclio, você veio libertar a terra cristã das mãos dos muçulmanos. Depois de muitas batalhas, o imperador trouxe de volta a verdadeira cruz, aquela que todos consideravam a mais santa das relíquias. Conta a história que ele entrou em Jerusalém descalço e humilde, levando a cruz em seu ombro até o Calvário. Mestre Everard comentou: - Já não se ouvem contar histórias como essas. A paz de Heráclio foi varrida pela tempestade que desabou da Arábia e da Síria. - A fragilidade da paz! - exclamou o jovem Guy. - Não é o que fornece assunto para a história de cada povo? - É verdade - concordou Angus. - Quando estive entre os francos, eles lamentavam o quanto estava longe a época dourada de Carlos Magno. - Bem lembrado, cavaleiro - disse o Grão-Mestre. – Naquela época dourada o poder de Carlos Magno se estendeu até a Ásia, protegendo a Igreja no Ooriente. Sim, houve paz novamente. As embaixadas do imperador e do califa Arun-Al-Raschid trocaram entre si os mais ricos produtos do solo e da arte dos seus reinos. Esta deveria ser a verdadeira relação entre nós e os mouros, se somos povos religiosos e tementes a Deus... Ao único e verdadeiro Deus! - Mas não quando nos atacam e nos passam a fio de espada! exclamou Guy du Pino O Grão-Mestre ficou em silêncio durante alguns segundos, no esforço inútil de se manter no sonho de uma verdadeira fraternidade universal. - Sim, é claro - ele acabou por concordar. - Temos que defender a Igreja com o nosso sangue todas as vezes que ela for atacada ou espoliada. Angus MacLachlan sentiu a tristeza na voz do ancião. Voltou-se para ele e disse: - Foi por esta razão que eu vim, reverendo Grão-Mestre, para colocar a minha espada a serviço do Senhor e de sua Igreja. Neste momento em que um ataque a esta casa que me acolheu parece iminente,
mais razão terei para lutar. - Louvado seja Deus! - exclamou Bernard de Charenton. Mais tarde, quando o jovem Guy du Pin já se tinha retirado, Angus e mestre Everard foram convidados pelo ancião a acompanhá-lo à caverna. Fora para lá que o guerreiro havia sido levado quando estava morrendo. Diante do leão de pedra contaram-lhe como fora curado pela espada que o animal guardava entre as presas. Angus aproximou-se para olhar de perto aquela espada cujo toque podia curar. Cheio de admiração, ele disse: - Em toda a minha vida, nunca vi uma espada como esta. Parece tão antiga e pesada... e agora sei o quanto é poderosa. - Sua presença entre nós recua até o tempo em que esta fortaleza foi ocupada por nossos irmãos durante a cruzada de Pedro, o Eremita contou o superior. - Foi o primeiro Grão-Mestre quem a trouxe, recebida das mãos de um cavaleiro do Norte. Não lenho idéia de quem ele era. O meu antecessor encontrou-o à beira da morte. Só teve tempo para lhe dizer que a espada fora forjada na aurora dos tempos e tinha muitos poderes. Pediu-lhe que a levasse a um local consagrado e que a guardasse. No tempo certo, um descendente seu ouviria o chamado e viria reclamá-a. - Meu avô, Sean MacLachlan, morreu durante a cruzada de Pedro, o Eremita - disse Angus. - Também ele perdeu Gaoth Cerridwen, a espada guardiã do nosso clã. - Muitos morreram nessa cruzada. O dono da espada acompanhava Walter, o Sem-tostão, quando foram massacrados pelos turcos em Nicéia... - ... No outono do ano do Senhor de 1096! - exclamou o guerreiro. Foi quando meu avô desapareceu. Ele havia comandado cem homens, desde a Escócia até essas terras e juntou-se às forças de Walter de Belgrado. Meu pai contava que as últimas notícias que chegaram do velho Sean Barba-de-Fogo vinham de Nicéia e davam conta de que os nossos haviam travado a mais cruel das batalhas. O Grão-Mestre argumentou serenamente: - Angus MacLachlan - disse -, esta relíquia tem sido a guardiã desta
fortaleza de São Miguel, por muitas décadas. É uma espada santificada como a do nosso Arcanjo protetor. Ela tem a força do próprio Leão de Judá e sua lâmina está destinada a aniquilar toda iniqüidade que aparecer em sua frente. Sabemos também que, no seu aço, ficou retido o último suspiro e o último desejo de um bravo guerreiro. Seu herdeiro, se algum dia aparecer tal candidato, deverá ter a força e a proteção do leão. O deserto o aclamará e então saberemos quem ele é. O guerreiro pensou que as palavras do Grão-Mestre eram sensatas e cheias de sabedoria. Antes de se retirar da caverna, ele ainda lançou um último olhar à espada. Mesmo sem saber se aquela seria Gaoth Cerridwen, a guardiã do seu clã, com todo o coração, desejou provar que a merecia.
CAPÍTULO XIV VIRGENS INTOCÁVEIS Angus MacLachlan ocupara o seu lugar nos preparativos para a batalha que se avizinhava. Era necessário impedir o avanço do exército turco até as muralhas. Sua honra pedia que estivesse pronto a participar dos acontecimentos em pé de igualdade com os outros cavaleiros. À gratidão pela acolhida que lhe haviam dado, ele somou o contentamento de encontrar o seu próprio cavalo, nas baias da fortaleza, descansado e alimentado. Durante toda a semana, ajudou a escoltar as carroças de provisões, e outras mais, que vinham cheias de aldeões temendo por suas vidas. As muralhas também ofereciam abrigo seguro a essa gente. As provisões iam sendo empilhadas nas despensas, sob o olhar do ir mão responsável. - Devemos esperar um cerco? - perguntou Angus a mestre Everard. O templário sorrira e dera de ombros dizendo que estavam ali duas Ordens militares unidas contra um inimigo comum, mas cada uma
com a sua estratégia quanto à melhor maneira de enfrentar a situação. Disse que uma formação dos hospitalários deveria dar combate fora das muralhas, pois isto lhe garantira o Grão-Mestre. Quanto aos outros cavaleiros daquela Ordem, ficariam junto ao perímetro exterior para impedir a aproximação dos turcos e, se isto falhasse, outros usariam de todos os meios, do alto dos passadiços, tentando evitar que aríetes viessem de encontro às portas ou os assaltantes encostassem escadas nas muralhas. - E os templários? - perguntou. - Lutamos sempre em campo aberto - afirmou mestre Everard, acrescentando: - Não o fazemos de forma temerária, meu amigo. Os turcos têm sido observados à distância, o número de combatentes contados e o poderio das suas armas avaliado. Agiremos com a devida cautela, sabendo o que nos espera. O mais importante é examinar muito bem o terreno da batalha para decidir as manobras. - O que há para ver, além das areias? - perguntou. - As areias podem esconder surpresas e, se as conhecermos, poderemos usá-Ias a nosso favor.
Grão-Mestre Everard de Barres - Mesmo assim - disse Angus -, não posso deixar de considerar o Grão-Mestre um homem previdente. Não é esta a sua opinião? Mestre Everard voltou a sorrir: - Se todas as providências tomadas por ele vierem a ser usadas, eu e os meus estaremos mortos e de pouco valerá minha opinião. E você, Angus, vai defender a fortaleza desde o passadiço ou vai enfrentar os turcos conosco? - Eu sou o chefe do clã MacLachlan - disse -, e quando somos ameaçados, tenho que pensar nos que dependem de mim para proteção de suas famílias e de suas casas. O Grão-Mestre agiu com sabedoria. Mas também sou um cavaleiro treinado nas artes da guerra. Portanto, mestre Everard, que Deus não me olhe mais com misericórdia se eu não estiver entre os primeiros a chegarem aos turcos, pois isto é o que pede o meu coração. - Deus não retira sua misericórdia de um guerreiro que defende Sua causa com o coração - garantiu. Do alto da muralha, o guerreiro viu chegar um grande número de templários e, com eles, muitos cavaleiros que, embora não pertencessem à Ordem, vinham trazer o apoio das suas espadas. Nem os templários nem os cavaleiros se acomodaram na fortaleza, mas armaram suas tendas num lugar designado pelo Grão-Mestre. Este não queria que acampassem no local que camuflava suas próprias armas de defesa. A principal delas consistia em longas toras de madeira com espigões de ferro, enterradas nas areias. Cordas, amarradas nos extremos e também enterradas, corriam até alguns metros das muralhas. Cavalos treinados puxariam essas cordas no momento certo, fazendo aflorar as toras e aparecerem os espigões, de maneira que a cavalaria dos turcos teria que sofrear sua carga. Do alto das ameias, os besteiros entrariam em ação contra alvos parados, completando o trabalho. O guerreiro admirava os modos de agir das duas Ordens. Parecia-lhe que o Grão-Mestre mostrava-se previdente para o caso de um cerco
e cauteloso se houvesse um assédio direto às muralhas. A seu convite, haviam feito juntos a inspeção dos fogareiros ao longo das ameias que jogariam brasas sobre os sitiantes, dos caldeirões de óleo fervente que escorreria das calhas sobre as escadas, e assistiria mesmo ao treinamento dos irmãos que manejavam as bestas. O átrio central deveria ficar desimpedido para que os monges cuidassem dos feridos. As mesas para as amputações estavam limpas e os instrumentos cirúrgicos polidos. Nada escapava ao olhar do GrãoMestre. Se tinha algum reparo a fazer, falava como se fizesse um pedido, e não no tom de quem comanda. O sol já baixava no horizonte dando um descanso aos homens e Angus MacLachlan assistia ao ocaso do alto das muralhas. Por alguns segundos, a paisagem mostrava-se mais serena. Mas, para ele, a luz enganadora do pôr-do-sol não escondia sua alma. As areias cobriam a superfície da Terra de forma a desconvidar o ser humano a fincar-lhe raízes, dar nome a seus vales, violentá-Ia, enfiando-lhe uma enorme variedade de árvores frutíferas, alisando-a, rebaixando-a, construindo por sobre ela seus casebres miseráveis, qualhando-a de crianças a brincarem felizes em seus domínios, e ainda pior, permitindo que as crianças que nascessem em seus sagrados domínios, se acostumassem e viessem certamente a calcar aos pés sua hostilidade, abrandando-a, quebrando sua feminilidade indomável. As areias para ele se assemelhavam a virgens intocáveis, assassinas por natureza que, mesmo aparentemente mansas, deitavam ao chão cadáveres aos montes em sua indocibilidade e fazendo-se respeitar, mesmo frente aos mais obstinados e temerosos seres da Terra. Ao cair da noite, quando ia deixar as muralhas, Angus avistou dois cavaleiros galopando para a fortaleza. Sua intuição dizia que se tratava de um alerta. Caminhou pelo passadiço para as escadas mais próximas e foi descendo até chegar ao nível da entrada. Muitos cavaleiros haviam acorrido para ouvir da boca dos mensageiros que os turcos estavam a algumas horas de marcha. - Acamparão nas proximidades, ainda esta noite - garantiram.
Do nosso lado, podemos contar com cerca de quatrocentos guerreiros experimentados nas artes da guerra - assegurou mestre Everard. Os dois cavaleiros trocaram um olhar entre si. - É bom que tenham a mão rápida e o golpe forte, pois serão cinco turcos para cada cavaleiro - disse um deles. Embora os templários já estivessem cientes do número de combatentes nas fileiras inimigas, a informação pesou nos corações. - Então o encontro será amanhã! - exclamou o superior dos hospitalários, Mestre Everard era da mesma opinião. Angus esperava que todos se precipitassem para suas armas iniciando os preparativos, mas não viu nenhuma agitação. Os templários se retiraram em silêncio na direção do acampamento. Mestre Everard despediu-se do GrãoMestre. Aquela noite seria passada entre os seus. - Esta é a hora? - perguntou Angus MacLachlan sem saber se devia ou não seguir o templário. - Esta é a hora das confissões - anunciou ao guerreiro, acrescentando: - Uma consciência tranqüila é tão importante numa batalha quanto ter a espada pronta. Ele saiu acompanhado de dois sacerdotes. Confissões foram ouvidas também na fortaleza, Angus juntou-se aos que deviam se preparar de corpo e alma para combater até a morte. Antes que a batalha terminasse, ele assistiria a muitos acontecimentos surpreendentes, cuja lembrança ficaria gravada em sua memória para sempre. A visão dos fogos que haviam brilhado no horizonte desde que a lua crescente atingira o segundo quadrante, trazia a certeza de que os turcos já haviam determinado o ponto de partida do seu ataque. Impaciente, e cansado de manter os olhos presos ao horizonte, Angus achou que o melhor que tinha a fazer era uma visita ao acampamento dos templários. As fogueiras se espalhavam pelo terreno, cada uma servindo a quatro ou cinco tendas. O guarda de vigia pediu que declarasse o nome e a que vinha. Ele se aproximou o suficiente para ver que o
jovem era um rapaz imberbe ainda, cuja voz não tinha a firmeza de quem estava habituado a comandar. Possivelmente ocupava um posto de controle pela primeira vez na vida. - Sou Angus MacLachlan - o guerreiro disse -, e venho da Fortaleza. Não tema, rapaz; estou do seu lado nesta guerra. - Não parece dos nossos - declarou o jovem, olhando o gigante ruivo. - E, por acaso, estará me confundindo com um turco? - perguntou Angus, - A que vem? - insistiu o vigia. Angus pensou que seria difícil explicar ao jovem a impaciência que o fizera descer das ameias. O que procurava? Talvez o convívio das fogueiras a que estava acostumado em sua terra, tanto em noites calmas como nas que antecediam as batalhas. - Amanhã será um longo dia - disse -, e gostaria que a noite fosse mais curta. Umas palavras à beira do fogo podem bem encurtá-Ia. - É possível - disse o vigia -, mas tudo vai depender da fogueira que escolhe. - Indique-me uma - pediu Angus, dando chance ao jovem de mostrar que conhecia bem os seus pares. - Para que a noite não pese muito, aconselho que procure onde o cavaleiro De Montalban convida a partilhar de bom vinho, além de participar de alguma das suas apostas. - Que tipo de apostas? - ele quis saber. - De todo tipo mesmo. Pode ser quem inventa a pior injúria ou conta a pior vergonha por que passou. Somente três disputam de cada vez e os outros escolhem o vencedor. - Esse cavaleiro Montalban é um templário? - Angus perguntou. - Certamente que não - respondeu o jovem -, mas costuma combater ao nosso lado. - E você já é um deles, senhor...? - perguntou Angus. - Sou Amedeo Toscanino e ainda um noviço na Ordem - ele se apresentou. - Sua primeira batalha, mestre Amedeo? - A primeira - confessou o jovem, acrescentando: - Mas tenho as
armas prontas e estou bem adestrado. Além disso, já golpeei o inimigo tanto e tantas vezes em meu pensamento e nos meus sonhos, que é como se já o tivesse mil vezes derrubado e morto. Angus ficou imaginando se o rapaz teria sido informado de que a proporção era de cinco turcos para cada cavaleiro cristão. Seus olhos brilhavam com a antecipação dos golpes sonhados, de maneira que o guerreiro apenas disse: - Terei muito gosto em lutar ao seu lado amanhã, Amedeo Toscanino, e que Deus nos preserve a ambos para sua honra e glória. O som de risadas chegou até eles e o rapaz indicou, alguns metros adiante, a fogueira onde o cavaleiro De Montalban oferecia seu odre para molhar as gargantas e aquecer as almas em boa companhia. Angus aproximou-se da fogueira. Alguns cavaleiros estavam sentados ou reclinados, as selas sob as suas cabeças. Os escudos, uns a seguir aos outros, haviam sido encostados contra a tenda maior. Ele viu a diversidade de brasões e percebeu que todos ali eram cavaleiros leigos. Alguma aposta estava em curso, pois todos escutavam um homem pequeno e magro, o rosto pálido e um cavanhaque negro e espetado que lhe davam o ar de quem jejuava com muita freqüência. Sua túnica surrada revelava que esse jejum era mais uma imposição da pobreza do que um hábito de devoção. Ele disputava com outros um odre cheio sob a guarda de um cavaleiro de aparência refinada. Sem saber qual era o jogo, Angus ouviu o que relatava o cavaleiro magro: - ... e então eu disse: por Deus, Dagobert, não podemos enterrar um tronco apenas, ou no dia da ressurreição ele dará por falta do resto. É o que digo, senhores, o barão havia sido retalhado de tal maneira que levamos a noite toda e mais um dia, meu companheiro e eu, à procura de cada pedacinho para enterrá-Io por inteiro. - Sua história é espantosa, Martin, e desde já declaro que o odre é seu, pois aqui neste fogo ninguém contou ter praticado caridade mais difícil - disse um outro contendor. Mas o terceiro não se conformava em perder a aposta e apelou para o cavaleiro que segurava o prêmio:
- Tenho que protestar, Montalban. Não vamos confundir caridade com um ato da mais extrema ignorância - disse. - Enterrar um morto é caridade - insistiu Martin -, e um morto retalhado em pedacinhos é maior caridade ainda. Ora, cada pedaço... - É ignorância, homem! Bastava enterrar o tronco, se a cabeça estava grudada nele. Estava ou não estava? - perguntou o inconformado. - Estava - confessou Martin. - Mas era preciso pensar no dia da ressurreição dos mortos. - O que tem o dia da ressurreição dos mortos? - insistiu o outro. - Não é um dedo ou um pedaço da coxa que impedirá um cristão de ressuscitar inteirinho. Ouvi isto de um sacerdote conhecido em toda a Bretanha. Passando por minha aldeia, meu pai pediu que ele enterrasse o que havia sobrado do nosso mestre carpinteiro atacado por ursos. Se Deus fez tudo que existe a partir do nada -, disse-nos o santo homem -, acham que ele não tem poder para completar um homem estraçalhado, no dia da ressurreição? Alguns cavaleiros riam após cada argumento, outros tomavam partido de um ou de outro. Angus admirava-se de que homens às vésperas de uma batalha pudessem passar o tempo com apostas inúteis. Talvez aquela discussão tola fosse uma maneira que encontravam para compensar o temor do confronto que se avizinhava. Procedendo assim, asseguravam-se, uns aos outros, de que aquela era uma noite igual a todas as que tinham vivido à beira de um fogo e que viveriam ainda, depois que a batalha terminasse. Ele deixou a fogueira e foi contornando as tendas. Ao redor de outros fogos ele viu homens que dormitavam e outros que mantinham os olhos abertos e fixos nas estrelas procurando a paz que lhes faltava; viu grupos de cavaleiros templários ajoelhados em oração, enquanto outros, ajudados pelos noviços, lustravam suas armas, escudos, elmos e cotas de malha. O maior fardo, ele sabia, era aquele que pesava sobre os ombros de mestre Everard. Reunido com seus imediatos na tenda central, e sem descrer em milagres, revia vezes sem conta as estratégias para a batalha.
Não era assim que se passava entre os de seu clã, ele pensou. À noite quando se reuniam ao redor de uma fogueira, os melhores lugares eram reservados aos anciãos para que se aquecessem enquanto contavam as histórias dos muitos guerreiros dos quais descendiam. Os feitos heróicos eram oferecidos para serem imitados e dar coragem aos mais jovens, uma coragem transmitida através do sangue, do nome e da memória. A passo lento o guerreiro deixou o acampamento. Quando surgiu o primeiro clarão da madrugada, ele estava no seu posto de observação, no alto das muralhas. Voltou a descer quando os cavaleiros vindos do acampamento já se aproximavam. Era a vanguarda dos templários liderada por mestre Everard e trazendo a sua escolta de estandartes. Formavam um longo rio de capas brancas e cruzes vermelhas sobre as armaduras. Eram seguidos por uma falange de cavaleiros peregrinos satisfeitos em incluir uma batalha no rol das suas devoções. Angus pensou que o seu lugar na batalha seria entre eles. Quando chegaram às muralhas, cavalos e cavaleiros começaram a se exercitar com galopes curtos. Das ameias, os besteiros olhavam o movimento. A primeira surpresa de Angus aconteceu quando a falange dos hospitalários surgiu na entrada das muralhas. Os templários voltaram à formação dividindo-se em duas colunas, à direita e à esquerda. Para seu espanto, Angus viu que o Grão-Mestre assumira pessoalmente o comando dos seus. Os olhos do guerreiro buscaram o olhar de mestre Everard, mas não conseguiram perceber se o fato era para ele uma surpresa ou se já esperava por isso. O ancião cavalgava à frente dos seus homens, o elmo posto, também ele rodeado pelos estandartes da sua Ordem. Seu ar de serenidade combinava com a claridade fria da madrugada. O superior refreou o cavalo e o mesmo fizeram os que o rodeavam. A falange dos hospitalários postou-se numa longa ala que ocupava a frente da fortaleza. Fez-se um profundo silêncio que, aos cavaleiros de ambas as
Ordens, parecia indicar uma disputa muda entre os superiores pelo privilégio de dar a ordem de ataque. Mesmo as muralhas estavam silenciosas. De repente, Angus teve a segunda surpresa. Ele viu mestre Everard sair da frente dos seus homens e encaminhar-se num trote curto para onde se encontrava o Grão-Mestre. O noviço que levava seu escudo o acompanhou. Os templários permaneceram em seu lugar, mas acompanhavam a cena sem compreender. Mestre Everard apeou do cavalo, lançou as rédeas ao noviço e caminhou para o superior dos hospitalários. - Peço sua bênção – disse ao ancião, inclinando a cabeça. Depois de um momento de hesitação, o Grão-Mestre traçou uma larga cruz sobre ele. Naquele instante, ergueu-se das muralhas um estrondoso alarido e os gritos de: "Por Cristo, São Miguel e mestre Everard!". Vendo no gesto do mestre um ato de humildade e a aceitação de uma hierarquia de santidade como era usual entre monges, os templários receberam o seu comandante batendo com as espadas contra os escudos. Toda a região vibrou com os gritos dos cavaleiros de ambas as Ordens. A seguir, calaram-se esperando que o mestre se pronunciasse. Mas o que se ouviu foi o alerta vindo das muralhas. Os vigias haviam percebido que o exército inimigo se pusera em movimento. Everard começou a percorrer as linhas, primeiro na coluna do seu lado e depois, na coluna em frente. À medida que o poderio turco ia se tornando mais visível, e sua superioridade numérica mais evidente, palavras de encorajamento saíam de sua boca: - Cavaleiros, o inimigo parece que se multiplica diante dos nossos olhos - ele dizia a uns -, mas a vitória é sempre obra de Deus! - E a outros: - Olhem em volta! O que lembrarão deste dia? Apenas a cor do céu e das areias? Pois eu digo o que lembrarão: do direito de usar a cruz no peito, porque neste dia, diante da Fortaleza de Hosnel-Akrad vocês misturaram seu sangue ao sangue de Cristo! Quem pode desejar maior glória para a vida ou para a morte? E suas palavras contagiavam os homens com um entusiasmo
crescente. Enquanto isto, os hospitalários entregavam-se à oração interior, sem nada que demonstrasse o seu estado de alma. Entretanto, a terceira surpresa logo alcançou Angus na pessoa do jovem Gilbert du Bois. - O mestre pergunta se aceitaria cavalgar ao seu lado na batalha disse. - Será uma honra para mim cavalgar ao lado do mestre dos templários - Angus respondeu prontamente. Então, Du Bois estendeu-lhe uma espada que trazia presa à sela: - Com as bênçãos do Templo - disse o jovem. Angus beijou o punho onde estava a cruz e murmurou: - Por Cristo e por mestre Everard! - Por Cristo e por mestre Everard! - repetiu o jovem. Cavalgaram juntos para suas posições ao lado do comandante dos Templários. No horizonte, os primeiros raios de sol faziam brilhar os escudos e as armaduras douradas do inimigo. Com suas roupas alaranjadas, eles formavam uma onda de fogo que avançava na direção da fortaleza. Os templários colocaram os elmos e afivelaram os escudos. A um sinal de Everard, avançaram para o inimigo em passo contido. Ao todo, quinhentos cavaleiros cristãos estavam reunidos naquele dia contra dois mil e quinhentos combatentes turcos. A vanguarda era formada por lanceiros do Templo. Cavaleiros de ambas as Ordens vinham a seguir e, separando-os, havia a pequena formação dos leigos, uns aventureiros; outros peregrinos. Todos aguardavam a ordem de ataque, mas mestre Everard retardava o momento querendo uma aproximação maior. - Atenção à vanguarda dos turcos! - ele preveniu Angus. - São arqueiros montados e disparam suas flechas de pouca distância para depois fugirem a todo galope. Fazem isto vezes seguidas, primeiro um grupo, depois outro. - É uma maneira covarde de lutar - disse Angus. - Mas muito efetiva - continuou Everard, pois assim causam grandes
estragos num combate frontal, abrindo clareiras e enfraquecendo o adversário, que não tem tempo para se reagrupar. - Minha espada cantará para eles - assegurou-lhe o guerreiro. Era difícil refrear os cavalos. A distância entre os combatentes ia se tornando perigosa. Já se podia ouvir o clamor dos homens e o som das patas dos cavalos nos trechos pedregosos da vastidão. Os arqueiros turcos vinham semear a morte e a destruição. Mestre Everard fez novo sinal. Os lanceiros passaram às laterais e os cavaleiros com a espada em punho tomaram seus lugares logo atrás do comandante. A manobra foi executada com extrema rapidez. - Por Cristo! - gritou Everard. De todas as bocas saiu